POLIS

POLIS
O projeto nasce com foco no comportamento político nas sociedades contemporâneas e nos efeitos dos movimentos sociais e políticos atuais sobre as liberdades e processos emancipatórios, bem como seus impedimentos em escala local, nacional e global. Tem por objetivos o desenvolvimento de um campo interdisciplinar de reflexão e prática investigativa e divulgadora, reunindo debates em torno de questões como: preconceito, racismo, sexismo, xenofobia, movimentos sociais, violência coletiva social, relações de poder, movimentos emancipatórios de povos e nações, valores democráticos e autoritarismos, laicidade, análises de discursos e ideologias, de universos simbólicos e práticas institucionais. Nessa perspectiva, o Polis atua desde sua criação formal em 2013, como projeto de extensão e em 2015 como Blog para divulgação e atualização.

sexta-feira, 22 de maio de 2020

UM UIVO DE INSUBMISSÃO





Antonio Caubi Ribeiro Tupinambá
Professor - UFC

Dia 60. 
Uma rotina de domingo. Tomo os domingos como Domingo: nele não se limpa, arruma, cose, passa ou cozinha. Não porque me proíbo, mas porque isso me ajuda a saber que amanhã é segundo e ontem foi sábado. Nele se descansa, se toma banho de sol, se deleita com música, literatura e arte. Qual seja o desejo e o alcance. 
Pois poderia ser apenas mais um desses domingos em que se impõe, voluntariamente, um dolce far niente. E eis que neste me caiu no colo a obra de arte cinematográfica de Rob Epstein e Jeffrey Friedman: HOWL (Uivo)!

Filme de 2010 com James Franco e Aaron Tveit como, respectivamente, Allen Ginsberg e seu companheiro Peter Orlovsky traz cenas entre Nova Iorque e São Francisco, onde, Ginsberg em 1957 lança seu livro de poesia “Howl and other poems”. Acusado de obscenidade, é levado aos tribunais para ser banido como obra maldita. A brilhante e exitosa defesa fica a cargo do jovem advogado libertário Jake Ehrlich. 

É isso o que você deve fazer: Amar a terra e o sol e os animais, desdenhar as riquezas, dar esmolas a todos que pedirem, defender os dementes e os loucos, dedicar sua renda e trabalho aos outros, odiar os tiranos, não discutir sobre Deus, ter paciência e indulgência com as pessoas, não tirar o chapéu para o que é conhecido ou o que é desconhecido nem a homem nenhum ou grupo de homens, acompanhar livremente as poderosas pessoas analfabetas e os jovens e as mães de família, ler estas folhas ao ar livre em todas as estações todos os anos da sua vida, examinar tudo que foi dito na escola ou na igreja ou em qualquer livro, rejeitar tudo que insulte sua própria alma, e sua própria carne será um grande poema e terá a fluência mais rica não só na forma de palavras mas nas linhas silenciosas de seus lábios e rosto e entre os cílios do seus olhos e em toda junta e todo movimento do seu corpo. (WHITMAN, 2005, p.19)




                                                               Foto:  JoJo Whilden/Oscilloscope Laboratories

Quem poderia encarnar melhor o homossexual, judeu, drogado, outsider, Ginsberg? Ninguém mais que James Franco. Seu brilhantismo se fez ver nas telas como o poeta “público”, um desses que ainda não existe até nossos tempos. Pois foi do tempo do prestigio e da força da poesia, inclusive para ser levada a um tribunal, sendo dissecada por senhores professores, advogado de defesa que viam o cerceamento da liberdade de expressão e o reflexo da ignorância literária naquela tentativa de obstrução; do outro lado, advogado de acusação e professores arrebanhados no baixo clero, afinados com a falsa moral vigente e com uma sociedade puritana em regime de consolidação. Ginsberg tornou-se, com sua vida e sua escrita um estandarte, às vezes à revelia, anti-stablishment dos anos 1950 na retrógrada sociedade americana do pós-guerra. Um ativista com causas libertárias as mais diversas, pode-se, facilmente, nomear várias em perspectiva histórica. Todas mostraram sua coragem e compromisso com o que pensava e sentia: “a censura, a barbárie da guerra, o preconceito sexual e racial, a repressão, o etnocentrismo, a destruição do meio ambiente e, sobretudo, a liberdade de expressão.1"
James Franco é um Midas no cinema. A esse filme-documentário-poema, empresta seu carisma e talento de modo a nos levar ao âmago de cada estrofe desse Uivo libertador. Sendo lido hoje, ainda pode nos ajudar superar o temor e a insólita experiência da peste que assola nossos dias. É um grito de libertação da hipocrisia e do mal estar contemporâneo, de fácil transposição para a realidade amarga mas não insuperável, que ora nos quer oprimir. Ora, somos seres de coragem que se deixam iluminar pela arte. E aqui, a arte do cinema se une à da poesia “obscena” e redentora de Ginsberg em perfeita comunhão espiritual por Franco, ao incorporar, sem dificuldades, o poeta do sofrimento e da redenção.
A maldição está apenas na forma rudimentar de afetação e juízo dos que querem destruir a arte. No tribunal o retrato da falsa moralidade, conviniente e retrógrada, aquela mesma que tanto conhecemos, a que cria monstros soltos e pássaros aprisionados. O conformismo, o macarthismo, os bons costumes e sua correspondente hipocrisia social, o consumismo e todo seu paramento: racismo, pobreza de espírito, conservadorismo e medo ao non-stablishment, têm peso e parecem impossíveis de se combater. Mas a força da palavra da poesia de Ginsburg prova o contrário. 
Referenciando Walt Whitman (“Me contradigo?/ Tudo bem então... me contradigo;/ Sou vasto... contenho multidões.”)2 dele se liberta, ou melhor, a partir daí evolui chegando aos próprios tons: "Ginsberg, com seu uivo, atualiza e radicaliza a mensagem básica do 'Poeta do Cosmos' … de que liberdade individual, liberdade sexual e de linguagem, liberdade política e poética tinham de andar lado a lado.”
Não deixei de lembrar da maldição de Oscar Wilde na sociedade londrina do século dezenove. Poderia até a querer anunciar algum traço de interseção entre os destinos? Talvez sim, talvez não.4
Ginsberg, aliás Franco, sai, com seu Uivo, "cruzando os Estados Unidos por inteiro e vivenciando manifestações coletivas da contracultura, tais como a libertação sexual, as experiências com drogas e o jazz de resistência dos guetos.5"

A leitura de Uivo foi uma descoberta que veio em imediata decorrência do filme. Sua escrita confessional, sua imagética fantástica mas, digamos real, como se encontra nos ditos loucos ou rebeldes, ele, rebelde radical tão imprescindível às metrópoles sem alma…  Afinal, também não existe amor em Nova Iorque.
Em anos distintos, cidades americanas, Nova Iorque e São Francisco, hospitais psiquiátricos, apartamentos e submundos, Franco leva em cores e em preto e branco a vida e o poema, concomitante e alternadamente, para tentar decifrar os dois e o próprio Ginsberg. Com louvor nos faz vibrar cada palavra de cada estrofe no ambiente e nas circunstâncias em que o poeta e os poemas foram concebidos, produzidos, aplaudidos e odiados. Cigarro e máquina de datilografia acompanham a busca do autoconhecimento, a superação pessoal e o encontro com a felicidade no meio do caos que tem nome e se chama Peter.

Fortaleza, 17 de maio de 2020.

1 Retirado de https://revistacult.uol.com.br/home/o-uivo-vivo-de-allen-ginsberg/
2 WHITMAN, 2011, p.129.
3 Retirado de https://revistacult.uol.com.br/home/o-uivo-vivo-de-allen-ginsberg/
4 "O girassol de Wilde, além da referência direta ao sol poente, é um símbolo comum do amor homoerótico, recorrente nos poemas de Mário de Andrade e Allen Ginsberg". (https://acervodigital.ufpr.br/bitstream/handle/1884/57055/R%20-%20D%20-%20FRANCISCO%20ASSIS%20DE%20MATTEU%20MONTEIRO.pdf?sequence=1&isAllowed=y, p. 169).
5Retirado de:






Alguns versos e estrofes que dão início ao Uivo, no livro e no filme:

"Uivo
para Carl Solomon

I
Eu vi os expoentes da minha geração destruídos pela loucura, morrendo de fome, histéricos, nus,
arrastando-se pelas ruas do bairro negro de madrugada em busca de uma dose violenta de qualquer coisa,1
hipsters com cabeça de anjo ansiando pelo antigo contato celestial com o dínamo estrelado na maquinaria da noite,3
que pobres, esfarrapados e olheiras fundas, viajaram fumando sentados na sobrenatural escuridão dos miseráveis apartamentos sem água quente, flutuando so- bre os tetos das cidades contemplando jazz,
que desnudaram seus cérebros ao céu sob o Elevado4 e viram anjos maometanos cambaleando iluminados nos telhados das casas de cômodos,5
que passaram por universidades com olhos frios e radiantes alucinando Arkansas e tragédias à luz de Blake entre os estudiosos da guerra,6
que foram expulsos das universidades por serem loucos & publicarem odes obscenas nas janelas do crânio,
que se refugiaram em quartos de paredes de pintura descascada em roupa de baixo queimando seu dinheiro em cestos de papel,8 escutando o Terror através da parede,
que foram detidos em suas barbas púbicas voltando por Laredo com um cinturão de marijuana para Nova York,(…)"

segunda-feira, 11 de maio de 2020

O exemplo de Kerala, na Índia: não precisa ser rico para combater a pandemia covid-19; precisa apenas ser humano














                                                       Insled e Ised - Cochin-Índia 1

Há regiões de países que, apesar de muito pobres, se destacam no combate à pandemia do covid-19. Muito desse êxito se deve à forma como encaram a ciência; uma aliada e não uma inimiga, a exemplo do que acontece no Brasil e seus políticos da terra plana e dos não melhores que eles, aiatolás evangélicos.  Vou tomar como exemplo ações e posturas do governo estadual de Kerala, no sul da Índia.
O estado de 34 milhões de habitantes registou o primeiro caso de contaminação ainda em janeiro. Em 16 de abril registrava 3 mortes e 370 casos de infecção por covid-19. Uma outra dimensão se comparado com o estado de São Paulo com seus 46 milhões de habitantes e com o primeiro caso brasileiro identificado no final de fevereiro, que contou com 853 mortos e 11.586 caso até a mesma data2.  
Tendo sido o primeiro estado indiano a diagnosticar pacientes com o novo coronavírus, passou a ter, no país, o melhor índice de recuperação desses pacientes (84%), enquanto na capital do país, Delhi esse índice não chegou aos 5%. Distante 2,6 mil km da capital, conta com um conselho de planejamento que inclui pesquisadores e cientistas de diferentes áreas para auxiliar seu governo na tomada de decisões. Decisões políticas se submetem ao conhecimento científico e não o contrário, como quer o presidente e o ministro da educação brasileiros, este um analfabeto diplomado.  Esse respeito a uma abordagem baseada na ciência para o problema fez a diferença no combate à covid-19 no estado indiano. Ademais, o gabinete de crise do governo do estado conta com 24 membros em coordenação com a polícia e funcionários públicos para que planos de contenção do vírus sejam eficazmente implementados.      
No plano federal, o governo indiano introduziu sua política de quarentena para seu 1,3 bilhões de habitantes, a maior do planeta, em um desafio sem precedentes para evitar a disseminação do vírus. Com diferentes medidas preventivas e combativas entre os estados, as de Kerala, com seus 34 milhões de habitantes tem se provado as de maior eficácia no combate ao vírus, contrariando todos os prognósticos do país. À frente dessa luta, mais uma mulher bem sucedida, a ex-professora de ensino médio K. K. Shailaja, ministra regional da Saúde e Justiça Social. Logo após as primeiras confirmações de covid-19 no estado, a ministra tomou providências que foram ignoradas em outros estados, como o rígido monitoramento dos aeroportos e testagem de passageiros, que quando identificados com qualquer sintoma, eram levados, obrigatoriamente, ao isolamento de 28 dias, muito maior do que o de 14 dias recomendado pela OMS.  
Além disso, há um fator favorável no estado: seu sistema de saúde é tido como de melhor qualidade, comparando-se com aqueles dos outros estados ou mesmo de alguns países, levando-se em conta o IDH indiano, mais baixo que o brasileiro. A média indiana é 0,467 e a brasileira, 0,699. Quanto mais próximo de 1, melhores os índices de renda, educação e expectativa de vida.
Kerala tem uma experiência bem sucedida na concepção e gerenciamento das práticas de atendimento de saúde. Trata-se de um sistema de saúde descentralizado, unidades administradas em parceria com comunidades locais, o que teria sido outro fator decisivo nessas ações bem-sucedidas de implementação de isolamento e cuidados de higiene necessários ao combate à contaminação pelo covid-19: ações de rastreamento e confinamento, com apoio de lideranças em vilas e bairros fez esse diferencial, atribuindo credibilidade às medidas3.  

Outro fator relevante foi ter se antecipado à quarentena nacional, suspendendo aulas e proibindo aglomerações, incluindo locais de culto religioso:

Lutar com uma pandemia requer rigor científico, humanidade e um espírito propenso a investigações e mudanças. Superstições, ignorância, sentimentalismo e irracionalidade vão desconcertar todo o processo ao desanimar e desencorajar os especialistas em saúde que estão dando duro para resolver o problema com ciência. Em Kerala, nós iniciamos políticas rigorosas contra quem tentar espalhar estupidez que foram algumas das razões para termos tido algumas vantagens iniciais em controlar a disseminação do vírus.4

O estado de Kerala, com seu governo comunista, é considerado pela população da Índia apenas como tendo mais um sistema político específico, no caso, o mais bem sucedido no país em suas estratégias de combate à pandemia. As mudanças políticas advindas com esse sistema político e de governo estadual teve, sem contar com o tratamento atual ao covid-19, tanto êxito que foram mantidas em períodos nos quais outros sistemas passaram a comandar na região. O modelo de desenvolvimento de Kerala tem sido fonte de elogio e reconhecimento por intelectuais de peso como Amartya Sen, prêmio Nobel de Economia, além de outros bem acreditados indianos a exemplo do doutor e economista R. Ramakumar: "É um governo de esquerda, muito responsivo às necessidades das pessoas, preocupado em proteger a economia e garantir a subsistência, especialmente, dos pequenos produtores.5”
Tive a oportunidade de trabalhar na cooperação científica com o professor Dr. P. M. Mathew coordenador do Instituto de  Pequenas Empresas e Desenvolvimento - ISED6, na capital do estado, Cochin a partir de 2008. Essa experiência resultou na formação de um grupo colaborativo de estudos e pesquisas sobre crescimento e combate à mortalidade de pequenas e médias empresas com compromisso social e comunitário. Uma alternativa característica de ambientes com governos que apoiam ações de empresas que vão além da simples busca de crescimento financeiro mas com visão de responsabilidades sociais e trocas comunitárias. Trocas que beneficiem, mutuamente, empresas e comunidades e signifiquem uma prática de desenvolvimento sustentável. Diferentemente de outros estados indianos, as características locais do governo comunista de Kerala viabilizavam , inclusive com suporte econômico, essa natureza de construção empresarial comprometida com a comunidade. Programas brasileiros de apoio a empresas de pequeno porte semelhante ao perfil das empresas em Kerala visam quase que exclusivamente o sucesso financeiro, sendo a identificação ou não de seu potencial de êxito financeiro o único item de importância para obter apoio logístico e financeiro.  Esse sucesso era medido de outras formas no ambiente empresarial de Kerala e importava, principalmente, o que poderiam oferecer em termos de alcance social e comunitário com seus produtos e ações. 
Apesar de não ter caminhado pari passo com o governo de Kerala, o governo do primeiro-ministro Narenda Modi se afasta das atrocidades do presidente brasileiro, cuja postura mais contribui com a disseminação da doença e aumento vertiginoso no número de mortos em consequência da covid-19. Enquanto Modi assume a importância do isolamento no segundo país mais populoso do planeta, o seu correspondente no Brasil tem posturas criminosas: apesar das exigência legais não revela se já foi contaminado e, com isso, torna-se um potencial transmissor em suas atuações públicas desrespeitosas e perigosas. Considerado o pior dos piores do mundo nesse combate7, ao governo Bolsonaro, especialmente na figura do presidente, deverá ser imputada a culpa do vertiginoso aumento de mortes em decorrência do novo corona vírus, tendo em vista suas políticas e atitude de natureza negativista e genocida em face da pandemia. Tais políticas e atitudes irresponsáveis têm, inclusive, refletido negativamente nos governos estaduais e municipais, que, a duras penas tentam uma resposta responsável, respeitando  protocolos científicos e da OMS para enfrentamento e combate da pandemia. O desrespeito à vida humana e insensibilidade em face do crescente número de mortos no Brasil não é, como diz, por se preocupar com os caminhos da economia, pois antes da pandemia já se mostrava debilitada, corroendo direitos trabalhistas e beneficiando apenas grupos econômicos poderosos, sem demonstrar qualquer intenção de melhorar a vida dos brasileiros ou qualquer perspectiva de tirar o país de uma crise já anunciada.  

Fortaleza, 10 de maio de 2020.
------------------------------------------
1 foto da sede do ISED em Cochin - Índia, tirada em 2008 pelo autor.
6 Institute of Small Enterprise and Development-ISED 

quinta-feira, 7 de maio de 2020

A pandemia de Covid-19 e os povos da Amazônia





Menina yanomami da comunidade Hutukara. No último dia 10, um adolescente da mesma etnia morreu de coronavírus.FIONA WATSON / SURVIVAL INTERNATIONAL[1]




[1] Foto retirada em 4 de maio de 2020 de https://brasil.elpais.com/opiniao/2020-04-19/os-povos-indigenas-isolados-tambem-estao-em-isolamento-voluntario.html.



A pandemia de Covid-19 e os povos da Amazônia
Se os governos não protegerem os territórios indígenas e instaurarem o isolamento social, o coronavírus poderá concluir o genocídio dos povos isolados da Amazônia, que começou há 500 anos[1]


Antonio Caubi Ribeiro Tupinambá

O mundo lança os olhos sobre a região amazônica temendo o que possa ocorrer com os povos indígenas em decorrência do aumento de casos de Covid-19 entre eles. Há indícios que o período de quarentena decretado pelos governos de estados e municípios da região, em vez de funcionar como um anteparo, uma proteção e freio das ameaças para a já vulnerável população original, tenha impulsionado invasões de terras desprotegidas por garimpeiros, madeireiros ilegais e outros grupos  à margem da lei, o que pode culminar com práticas genocidas sem dimensão contra a população indígena.
A Coordenação de Organizações Indígenas da Bacia Amazônica (Coica), que reúne representantes dos autóctones de nove países da América do Sul já fez sua alerta para a necessidade de proteção máxima dos povos indígenas, dada sua alta vulnerabilidade em face da pandemia do novo corona vírus (covid-19). Os Estados que têm parte da região amazônica em seus territórios devem se sentir obrigados a proteger seus indígenas e evitar o início de um genocídio anunciado, tendo em vista o comportamento predador de vários grupos locais interessados no domínio de terras indígenas com proteção ambiental para exploração comercial e para outros fins escusos.
Gregorio Mirabal[2], afirma que para a Coica, é indispensável que “os governos da região, que controlam as Forças Armadas e ministérios da Saúde, não permitam que pessoas não indígenas entrem nos territórios onde os povos indígenas estão em isolamento voluntário, porque são os mais vulneráveis.” Para Mirabal, que também é coordenador da organização, “o Estado precisa implementar uma política para não permitir a entrada nas comunidades onde há acesso por via terrestre ou fluvial, além de impedir o turismo e organizações religiosas que desejam agir nas comunidades", pois, como registra, raramente há infraestrutura de atendimento médico próximo dessas comunidades. Continua: “…A ameaça representada pela Covid-19 ressalta um problema mais amplo, ligado às deficiências das políticas dos Estados, que permitem a exploração sem controle das terras indígenas em países como Brasil, Colômbia ou Equador. Sem esquecer o proselitismo religioso, o tráfico de drogas e a perseguição de líderes sociais, que tornam qualquer trabalho de prevenção mais difícil".
Marta Azevedo, demógrafa, indigenista, ex-presidente da Fundação Nacional do Índio (Funai) explica que “Os indígenas estão entre as populações com mais risco para a Covid-19 devido à própria vulnerabilidade social e histórica a que esses povos estão submetidos.[3]” Azevedo complementa dizendo que “Todos os indicadores demográficos de saúde são piores entre os indígenas. A taxa de mortalidade materna, mesmo controlando o nível socioeconômico.” Sofia Mendonça, médica sanitarista, diz, categoricamente: “É preciso interromper o acesso a essas comunidades, mas mantendo a comunicação e a criação de estratégias junto com os indígenas.”

Para evitar uma tragédia maior, os governos dos países que dividem a Amazônia devem se responsabilizar pelos povos e nacionalidades indígenas, altamente vulneráveis à pandemia. A omissão pode significar cumplicidade nesse desastre humanitário iminente. Isso já foi devidamente exigido pela Coica em comunicado publicado em 31 de março de 2020[4]: "Na mensagem, a entidade aponta uma situação de emergência em todos os países abrangidos pela Amazônia: Brasil, Bolívia, Peru, Equador, Colômbia, Venezuela, Guiana, Suriname e Guiana Francesa. Os povos originários destes países enfrentam agora um duplo problema: primeiro, a sua falta de imunidade diante deste novo vírus. O segundo é menos midiático, mas evidente para quem o sofre: a intensificação da atividade ilegal de garimpeiros e madeireiros aproveitando que as atenções estão completamente voltadas para a pandemia”.
A morte tem cara de anjo, pois organizações religiosas podem ser tão ou mais perigosas do que exploradores de riquezas materiais em terras indígenas. Muitos desses grupos "concorrentes" se dedicam à evangelização de comunidades indígenas e visam à promoção de invasões a territórios intocados para interferir de modo criminoso no equilíbrio cultural dos povos isolados. Há, por exemplo, registros de que em 1987, missionários estabeleceram contato com a etnia isolada dos “zo’é", o que resultou na dizimação de um terço de sua população através de contágio por doenças como gripe ou malária, o que forçou a expulsão daquela área, pela Funai, desses ditos missionários em 1991. Esse é um exemplo apontado por organizações que prezam e trabalham pela integridade dos povos indígenas do poder letal que tem a evangelização nessas comunidades, em especial ao incursionar em terras remotas para alcançar povos isolados. Há o exemplo da tragédia já relatada que remonta ao ano 1987 e mais atualmente do massacre a indígenas isolados na Amazônia denunciado no dia 21 de setembro de 2017 por órgãos da ONU e da OEA[5]. Na época dessas tragédias evidenciou-se, concomitantemente, um aumento da violência contra esses povos na região. Embora o Ministério Público tenha aberto uma investigação sobre o primeiro feito macabro, o processo acabou arquivado sem demonstrar a responsabilidade direta dos missionários[6]. Atualmente, além do perigo de missões que levam esses malefícios às aldeias há outros: garimpeiros que se aproveitam do confinamento e intensificam as atividades mineradoras, madeireiros que derrubam árvores protegidas, para exportação e venda ilegal de madeira e pecuaristas que provocam expulsões de indígenas de seus habitats com incêndios criminosos visando a expansão de rebanhos. Há, portanto, além do vírus, outros atores maléficos a combater: hordas de invasores com interesses de encurralar e até mesmo dizimar os povos originais para se apossar de sua terra e riquezas, sendo muitas vezes ajudados, direta ou indiretamente por missionários mal intencionados, terminando por contribuir para a destruição de culturas ancestrais, o aumento da poluição e comprometendo eco-sistemas: "Muitos destes povos indígenas vivem em estruturas comunitárias, com várias famílias em uma mesma oca e a necessidade vital de sair para pescar e assim garantir sua alimentação”, diz Claudette Labonté, indígena da etnia palikur[7].
Para que as invasões bárbaras “modernas" não tragam os mesmos riscos das que historicamente vem destruindo os povos indígenas há séculos, necessário seria a imediata retirada de todos os invasores da região, sejam eles missionários, grileiros, garimpeiros, madeireiros etc. pois só assim poderia se combater, de fato, a vinda de vetores de transmissão da covil-19 em terras indígenas. Não queiramos que, em pleno século 21 testemunhemos, impotentes, o aniquilamento dos povos indígenas remanescentes por conta não só de um vírus, mas principalmente pela omissão de governos e a intromissão de perversos predadores “brancos”. Se assim prosseguirem, senhores governantes, essa conta, sim, cairá sobre seus colos!



[1] Retirado em 3 de maio de 2020 de https://brasil.elpais.com/opiniao/2020-04-19/os-povos-indigenas-isolados-tambem-estao-em-isolamento-voluntario.html.
[3] Inédito: mais de 200 terras indígenas na Amazônia têm alto risco para Covid-19
23 de abril de 2020 | por Anna Beatriz Anjos e Bruno Fonseca. Consultado em 3 de maio de 2020 em https://apublica.org/2020/04/ineditomais-de-200-terras-indigenas-na-amazonia-tem-alto-risco-para-covid-19/
[5]Consultado em 27 de setembro de 2017 em https://www.brasil247.com/brasil/orgaos-da-oea-e-onu-denunciam-massacre-de-indios-isolados-no-amazonas.
[6] . Essa informação consta da matéria “A dupla ameaça para a Amazônia” de Luna Gámez para o Jornal “El País”em 24 de abril de 2020.

domingo, 3 de maio de 2020

SÉRGIO, UM CIDADÃO DO MUNDO.





SÉRGIO, UM CIDADÃO DO MUNDO.

Antonio Caubi Ribeiro Tupinambá

Professor Titular - Departamento de Psicologia (UFC)
Email: tupinamb@ufc.br


Sergio, o filme. Dirigido por Greg Barker, a partir de um roteiro de Craig Borten.
Estrelado por Wagner Moura e Ana de Armas.
Teve sua estreia mundial no Sundance Film Festival em 28 de janeiro de 2020. Tem o baiano Wagner Moura vivendo Sergio Vieira de Mello e a argentina Ana de Armas como Carolina Larriera.

            Podia ser apenas mais uma tentativa de dormir em uma noite dessa prolongada quarentena. No entanto, dormir depois de ter assistido ao filme Sérgio, foi dormir tranquilo, sabendo que, mesmo nesse eventual sentimento de impotência e/ou letargia em que possamos mergulhar, há coisas que valem a pena, nos reanimam e e nos resgatam para continuar na luta. E como há. Há Wagner Moura, que é do Brasil, como Sérgio Vieira de Mello. Wagner, esplendoroso protagonista que paralelo ao ser querido que representou, quase alcança a perfeição, aquela que a gente costuma dizer só podem alcançar os Deuses. Mas Wagner é um deus. Não lhe faltam beleza, talento, carisma, empatia, compromisso e tudo que um homem na terra pode alcançar, deixando-o perto desses deuses da perfeição. Casa e botão. Wagner e Sérgio. Sérgio, cujo nome se confunde com o desejo de paz entes os povos. 34 anos de ONU, 34 anos de busca de solução para conflitos de toda natureza. Talentoso no que fazia como seu correspondente na arte, ia a qualquer parte do planeta, aos destinos os mais difíceis para, com êxito, resolver problemas aparentemente insolúveis. Testemunhou a transformação do antigo Paquistão Oriental na nova Bangladesh independente no ano de 1971; esteve presente no Chipre durante a invasão do exército turco em 1974; na guerra civil de Moçambique em 1975 e no Líbano na altura da sua invasão por tropas israelenses. Além dessas missões pode acompanhar a volta de refugiados ao Camboja, resultado de sua presença e força nas negociações que levaram a esse desfecho quase inimaginável na época. Sérgio integrou a missão especial das Nações Unidas no Kosovo, antiga Iugoslávia em 1993; esteve presente em Ruanda quando ocorreram os massacres de 1996; pode ver renascer de suas mãos o novo Estado do Timor Leste, quando lá esteve em 1999, liderando a transição da ex-colônia portuguesa para a independência, passagem essa da vida do do filósofo e diplomata carioca que foi explorado centralmente nessa trama atual. Reorganizou de forma exemplar um país mergulhado em conflitos de um pós-guerra, o que lhe rende hoje as homenagens dos timorenses que afirmam terem perdido um irmão. Wagner nos traz o Sérgio que ocupa o cargo máximo no país em emancipação, mostrando também seu lado humano, apaixonado e apaixonante. Como todo homem de bem, Sérgio não é apenas mais um burocrata da ONU no Timor. É todo afeto e alma que transita por Dili, capital do país, onde conhece o grande amor da sua vida, com quem, a partir de então ficaria até seus últimos minutos de presença viva no Iraque. Wagner é Sérgio até os átomos, talvez porque Wagner e Sérgio são seres sublimes,  iluminados, humanistas e, portanto, possa ter havido comunicação espiritual e permissão divina suficientes para incorpora-lo no papel. Não há, portanto, para nosso mundo ou para a arte  diferenças entre os dois. As paixões, o compromisso com a humanidade e com a terra se igualam e, na tela, se revelam. Há o cuidado de mostrar as relações cotidianas de Sérgio porque ele era um homem a quem isso importava. O acesso, por meio do amor conquistado na terra estranha que se torna familiar, leva-o a adentrar na alma do Timor, e compreender a amplitude de sua ação e de sua missão nesse até então, novo e desconhecido mundo. O descortinar das vidas simples com que cruza, deliberadamente, em procura do conhecimento que lhe é característico, leva Sérgio, segundo a história representada primorosamente por Wagner, a saber a medida certa das suas intenções e a obstinação para consegui-las. Bem percebido no encontro que tem com o então presidente indonésio, de quem exige um pedido de desculpas formal à nova nação timorense pelos danos irreparáveis causados à sofrida população por todo o período da brutal ocupação. Afinal de contas sabe-se da dimensão da tragédia: Trata-se do primeiro assassinato em massa, promovido pela Indonésia, um verdadeiro genocídio sob o comando do ex-ditador Suharto que custou a vida de um terço da população do Timor[1]. “Você está louco, isso não se pede de um presidente”, é o que contra-argumenta o ditador. E quer deixá-lo a ver navios. Mas Sergio o impede de sair ao dizer: Não, não é loucura, eles merecem esse pedido. A forma mesquinha como o senhor os vê será a forma como todo mundo verá a Indonésia se esse pedido de desculpas não for feito.
            Sergio foi nomeado após a missão bem cumprida no Timor Leste para chefiar o Alto Comissariado de Direitos Humanos, com sede em Genebra, sendo, contudo, logo convocado pelo secretário-geral da ONU, Kofi Annan, para ajudar na reconstrução do Iraque, arrasado pela brutal invasão estadunidense. Timor não lhe trouxe só louros, mas também amor. Amor de uma bela e também engajada argentina, Carolina (Ana de Armas), que lhe acompanha daí até seu último dia de vida. Apesar de sempre ser convocado a deixar tudo e voltar ao Rio, por seu amor, por desejo pessoal e pelas doces lembranças da vida familiar carioca, perto da pedra do Arpoador, pelo Rio que tanto ama, mas não cedeu.  Após curto período de vida social entre missões, parte para o Iraque. A partir de 2003, vinha tentando sustentar a ideia de uma ação não intervencionista no Iraque, pois para ele “nenhum estrangeiro poderia governar o Iraque” e nessa direção deveria ser criado um conselho provisório formado por nacionais iraquianos, enfim, era a favor de uma iniciativa que pudesse garantir ao povo que o processo de ocupação não virasse indefinido no tempo. Queria só quatro meses por lá. Tempo, segundo ele, suficiente para deixar o Iraque com os iraquianos e seguir para seu Rio amado, com seu novo amor. Buscou, portanto, contribuir para um melhor entendimento entre os envolvidos naquela delicada tarefa, no país invadido e destroçado. Sentia-se, no seu discurso, a meritória ideia de não achar natural o país ser comandado ad infinitum por forças estrangeiras, o trabalho que ali realizasse deveria, portanto, apontar na direção da promoção de uma progressiva autonomia política do país. Assim como se orgulhava de ter participado da missão no Timor, missão essa responsável pelo encerramento do ciclo de descolonização. Palavras que Wagner proferia e às vezes, dada a perfeição da atuação, nos fazia acreditar ser o próprio Sergio ao dizer sobre o Iraque: "Esse deve ser um dos períodos mais humilhantes da história desse povo. Quem gostaria de ver o seu país ocupado? Eu não gostaria de ver tanques estrangeiros em Copacabana”. Isso mostra a dimensão absurda e insana do ato terrorista que o matou, mesmo que em princípio qualquer ato terrorista seja injustificável.  Há na narrativa do filme pontos que me intrigaram quando comparado com dados históricos por mim já antes lidos sobre a ocupação e o ataque terrorista, que covardemente atingiu nosso grande Sérgio, causando essa perda irreparável. Especulo que se vivo estivesse mesmo como catedrático no Rio, no seu Arpoador, como planejava, o mundo certamente teria alguém contribuindo com sua melhora. As dúvidas que o drama, baseado na história do Sérgio e contada por nosso Wagner, me trouxeram são atrozes. Por que, segundo o que foi retratado, se demorou a socorre-lo se ainda esteve tanto tempo sob os escombros, lúcido e com vida? Por que salvaram primeiro o companheiro americano a seu lado e só muito depois chegaram a ele? Qual foi a atuação do seu correligionário representante do governo americano nesse evento, onde esteve presente pós atentado? Para mim aparentou uma possível negligência e pouca determinação para salvar o Sérgio. Claro fica na tela que o representante americano competia com Sérgio pelo poder na missão do Iraque, sendo que sua competência é visivelmente questionável e diria, incomparável à do nosso querido diplomata, cuja alma foi emprestada ao brilhantismo de Wagner para lhe fazer imortal. Rever o filme para mais uma vez pensar sobre esses tópicos é quase uma necessidade. Não se trata de teoria da conspiração, mas o incômodo que as mensagens da trama deixaram. Não há, pela história da invasão do Iraque por Bush, como acreditar na boa vontade de quem chefia, para Washington uma missão pós invasão, que queria a ONU sob seu comando. A inveja do representante americano e seu desejo em controlar Sérgio de Mello são inquietantes.
            O jornal The New York Times resumiu a perda do nosso Sérgio de Mello numa única frase: “um grande defensor da paz e da reconciliação [foi] assassinado em uma ato de niilismo.”
            Um grande ator que brilhou em Praia do Futuro (filme do cearense Karim Ainouz) e o grande diretor que fez renascer nas telas Marighella (Festival de Berlim, 2019), honrou um dos nossos bens preciosos com seu inegável dom e talento incomparáveis, sem esquecer seu incomensurável  humanismo. Tudo isso fundamental para viver Sergio de Mello.

FIQUE EM CASA. SALVE VIDAS!
Fortaleza, 19 de abril de 2020.


[1] Tupinambá, A.C.R. (2004). Timor do Sol Nascente e outras crônicas. Fortaleza: Omni.