POLIS

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O projeto nasce com foco no comportamento político nas sociedades contemporâneas e nos efeitos dos movimentos sociais e políticos atuais sobre as liberdades e processos emancipatórios, bem como seus impedimentos em escala local, nacional e global. Tem por objetivos o desenvolvimento de um campo interdisciplinar de reflexão e prática investigativa e divulgadora, reunindo debates em torno de questões como: preconceito, racismo, sexismo, xenofobia, movimentos sociais, violência coletiva social, relações de poder, movimentos emancipatórios de povos e nações, valores democráticos e autoritarismos, laicidade, análises de discursos e ideologias, de universos simbólicos e práticas institucionais. Nessa perspectiva, o Polis atua desde sua criação formal em 2013, como projeto de extensão e em 2015 como Blog para divulgação e atualização.

segunda-feira, 2 de novembro de 2026

PERSÉPOLIS





Na história em quadrinhos “Persépolis”, de Marjane Satrapi: memória, liberdade, identidade e resistência.



Marjane Satrapi tinha apenas dez anos quando se viu obrigada a usar o véu islâmico, numa sala de aula só de meninas. Nascida numa família moderna e politizada, em 1979 ela assistiu ao início da revolução que lançou o Irã nas trevas do regime xiita — apenas mais um capítulo nos muitos séculos de opressão do povo persa.

Vinte e cinco anos depois, com os olhos da menina que foi e a consciência política à flor da pele da adulta em que se transformou, Marjane emocionou leitores de todo o mundo com essa autobiografia em quadrinhos, que só na França vendeu mais de 400 mil exemplares.

Em Persépolis, o pop encontra o épico, o oriente toca o ocidente, o humor se infiltra no drama — e o lrã parece muito mais próxímo do que poderíamos suspeitar.


Paulo Werneck





Quando tirei o plástico que envolvia o livro Persépolis, da escritora e ilustradora iraniana Marjane Satrapi ainda não sabia que se tratava de uma história toda contata com ilustrações em quadrinhos. Como uma história assim narrada poderia ser considerada uma das obras autobiográficas mais importantes da literatura contemporânea? Pouco depois, ao iniciar a leitura, tive que concordar que se tratava de uma história que deveria ser lida atentamente. Uma história sobre a infância e a juventude de uma menina no Irã, um testemunho contundente sobre os efeitos do autoritarismo na vida das pessoas, a opressão das mulheres, a intolerância religiosa e a luta permanente pela liberdade, publicada, para a minha surpresa, originalmente em quadrinhos, em preto e branco,  utilizando uma linguagem visual aparentemente simples, mas de enorme profundidade política, histórica e humana como foi para mim se revelando, pouco a pouco.

A narrativa da Revolução Iraniana de 1979 é um de seus aspectos mais interessantes. A população iraniana estava mobilizada contra a ditadura do xá Mohammad Reza Pahlavi com diferentes forças políticas e sociais envolvidas nessa luta, muitas delas movidas pelo desejo de democracia, justiça social e liberdade. Entretanto, essa revolução acabou sendo apropriada por uma estrutura teocrática comandada pelo aiatolá Khomeini, que estabeleceu um regime extremista, teocrático e super-autoritário. Uma revolução que mobilizou esperanças de emancipação, terminou restringindo liberdades individuais, perseguindo opositores e impondo padrões religiosos e comportamentais à sociedade, que destruiu esperanças e corpos. Uma revolução que provou não ter sido libertadora ainda que tenha derrubado uma ditadura. O que ocorreu foi não se ter obtido a liberdade  ao ter substituído aquela ditadura por outra forma de submissão tão ruim ou pior que ela.

Não se pode deixar de ver no livro de Marjane sua dimensão mais poderosa, qual seja, a representação da condição feminina. Determinantes como a obrigatoriedade do véu, o controle sobre o comportamento das mulheres, as restrições à liberdade de expressão e a vigilância sobre seus corpos revelaram como o autoritarismo procura controlar não apenas as instituições, mas também a intimidade pessoal, o que até hoje se vê como objetos de luta e símbolos de busca da liberdade pelas mulheres no Irã. Como a personagem Marjane na história autobiográfica, ali está representada toda uma geração de mulheres que se recusa a aceitar passivamente as imposições de um regime. Representada até os dias de hoje, quando ainda tal liberdade é negada e objeto de perseguição que muitas vezes culmina com a morte das mulheres que ousam se libertar dos ditames ditatoriais no Irã. Sua resistência na história que aparece em gestos aparentemente pequenos: ouvir música ocidental, questionar autoridades, vestir-se de maneira diferente e reivindicar o direito de pensar por conta própria é a mesma que nos dias de hoje gera ataques à liberdade e reflete o autoritarismo e o mal de teocracias e ditaduras. Mahsa Amini (também conhecida como Jina Amini), uma jovem curda-iraniana de 22 anos foi presa em 13 de setembro de 2022, em Teerã pela Patrulha de Orientação (conhecida como a polícia da moralidade do governo iraniano) por não usar o hijab (véu islâmico) de acordo com os rígidos padrões do regime teocrático ditatorial iraniano. Após ser levada para um centro de detenção, Mahsa desmaiou, entrou em coma e morreu em 16 de setembro de 2022. Testemunhas, familiares e um relatório oficial da ONU divulgado em 2024 apontaram que ela foi vítima de violência física e espancamentos enquanto estava sob custódia.

Gestos testemunhados por Marjane em seu livro adquirem uma dimensão política extraordinária. A autora demonstra que, em sociedades submetidas à opressão, até mesmo as escolhas cotidianas podem se transformar em atos de resistência mas muitas vezes, também em atos heróicos que culminam com a punição máxima pelos tiranos.

Não somente a revolução faz parte de suas memórias, outro aspecto marcante é a maneira como a autora apresenta a guerra entre Irã e Iraque (1980-1988). A guerra invade sua infância, destrói famílias, produz mortes e transforma a vida cotidiana em uma experiência permanente de medo. Marjane  não apresenta a guerra por meio de grandes discursos militares ou estratégias geopolíticas. Ela escolhe mostrar seus efeitos sobre as pessoas comuns. É justamente nessa perspectiva que o livro alcança sua maior força: a história deixa de ser apenas uma sucessão de acontecimentos políticos e passa a ser uma experiência íntima, humana. A menina que deseja descobrir o mundo precisa amadurecer em meio à violência, à repressão e à perda. A guerra, portanto, não destrói apenas cidades e vidas. Destrói também sonhos e possibilidades de futuro.

Quando Marjane deixa o Irã e vai estudar na Europa, surge outra dimensão fundamental em sua narrativa: o sentimento de não pertencimento. No Ocidente, ela enfrenta preconceitos, estereótipos e dificuldades para construir sua identidade. Quando eu vivia em Salzburg, na primeira metade da década de 1980 acompanhei o caso de muitos iranianos que tinham distintas formações e profissões em seus tempos na terra natal que tinham sentimento semelhante: estranhamento, impossibilidade de autorrealização e adaptação, bem como preconceitos sentidos simplesmente por conta de sua origem, religião ou baseados em estereótipos do que significava ser para o europeu um iraniano e, principalmente, um iraniano fugitivo da teocracia e do autoritarismo mortal em seu país de origem. Assim como Marjane, eles eram, no Irã, considerados excessivamente ocidentalizados e poderiam ser punidos ad extremum; enquanto na Europa, frequentemente identificados apenas por sua origem iraniana que não era uma coisa boa para os ocidentais. Essa experiência revela uma contradição profunda: fugir de uma sociedade autoritária não significa necessariamente encontrar um mundo livre de preconceitos. A autora questiona a visão simplificada do Ocidente como espaço absoluto de liberdade e do Oriente como espaço exclusivamente de opressão. Sua narrativa também denuncia o olhar ocidental que reduz sociedades inteiras à religião, à violência e ao fundamentalismo. Como muitos dos meus conhecidos e amigos naquela época, anos 1980, em Salzburg, Marjane é iraniana, mas sua identidade não se limita ao país onde nasceu. É também uma mulher, uma cidadã do mundo e uma pessoa que reivindica o direito de construir sua própria história.

A sua maneira de contar a história de sua vida e de sua pátria por meio de quadrinhos, em preto e branco não se trata apenas uma decisão artística. Ela contribui para a força simbólica da narrativa. Os desenhos são econômicos, expressivos e, muitas vezes, profundamente irônicos. Marjane consegue tratar de assuntos extremamente dolorosos sem recorrer ao sentimentalismo excessivo e com uso de desenhos e traços simples. Em determinados momentos, o humor derivado do desenho e do texto funciona como instrumento de crítica política. Em outros, o silêncio das imagens comunica mais do que um longo texto explicativo que tivesse usado para isso. Essa simplicidade visual estabelece um contraste poderoso com a complexidade dos acontecimentos narrados sobre a densa história de sua nação. Antes de ler seu livro não havia me atentado para o fato que os quadrinhos também poderiam ser uma demonstração  de sofisticação e uma forma de literatura, memória e reflexão histórica tão contundente quanto um texto que o representasse.

Há também aspectos universais no seu texto, pois a grandeza de Persépolis está em não transformar sua experiência pessoal em uma denúncia limitada a um único lugar. Embora a narrativa esteja profundamente ligada à história iraniana, suas questões são universais. Também é necessário observar que a crítica de Marjane não deve ser confundida com uma rejeição à cultura iraniana ou à religião islâmica. Sua denúncia dirige-se especialmente ao autoritarismo, ao fundamentalismo político e à imposição de uma visão única de sociedade.

Persépolis é um livro sobre a coragem de pensar ainda que quando pensar seja algo perigoso; sobre a necessidade de preservar a própria identidade quando o poder procura uniformizar comportamentos, consciências e sentimentos. Marjane nos ensina que a liberdade não é uma concessão dos governos, tampouco uma conquista definitiva. É uma construção permanente, que exige memória, consciência crítica e disposição para resistir.

Há uma mensagem especialmente importante em sua narrativa: nenhuma sociedade pode ser verdadeiramente livre quando parte de sua população tem seus direitos, seu corpo e suas escolhas submetidos ao controle de uma autoridade política ou religiosa. Essa mensagem poderia ser retirada de qualquer sociedade que passe pela tentativa de domínio político, religioso etc. e não se limita ao país retratado por Marjane. Por isso podemos dizer que talvez a maior lição do livro seja a de que não basta derrubar os opressores; é preciso impedir que novas formas de opressão ocupem o lugar das antigas; em nosso caso não basta impedir o bolsonarismo, é preciso impedir que novas formas de autoritarismo emerjam das trevas, pois afinal de contas,  democracia, liberdade e dignidade humana são valores que precisam ser defendidos todos os dias em todos os cantos do planeta.

Antonio C. R. Tupinambá

Fortaleza, 2 de novembro de 2026.




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Persépolis

               Completo

Marjane Satrapi

Tradução: Paulo Werneck

Quadrinhos na Cia.

São Paulo: Editora Schwarcz.

2026.


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