POLIS

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O projeto nasce com foco no comportamento político nas sociedades contemporâneas e nos efeitos dos movimentos sociais e políticos atuais sobre as liberdades e processos emancipatórios, bem como seus impedimentos em escala local, nacional e global. Tem por objetivos o desenvolvimento de um campo interdisciplinar de reflexão e prática investigativa e divulgadora, reunindo debates em torno de questões como: preconceito, racismo, sexismo, xenofobia, movimentos sociais, violência coletiva social, relações de poder, movimentos emancipatórios de povos e nações, valores democráticos e autoritarismos, laicidade, análises de discursos e ideologias, de universos simbólicos e práticas institucionais. Nessa perspectiva, o Polis atua desde sua criação formal em 2013, como projeto de extensão e em 2015 como Blog para divulgação e atualização.

sábado, 5 de setembro de 2026

A Última Sessão de Freud

 

Retornar ao teatro “clássico” é sempre um privilégio. Fazer isso com A Última Sessão de Freudde Mark St. Germain, melhor ainda.









Sem registro histórico ou evidência documental para comprovar que Sigmund Freud e C. S. Lewis tenham se encontrado pessoalmente em vida,  Mark St. Germain cria esse encontro e o encena para nós. A obra de ficção com traços reais da vida e da obra de Freud suscita boas reflexões sobre a relação "Freud e Deus” ou melhor dito Religião e Psicanálise etc etc. De fato, a premissa dessa obra vem da imaginação do dramaturgo americano Mark St. Germain para sua peça teatral, que mais tarde foi adaptada para o cinema.

Não quero deixar aqui a impressão de que a peça valha menos a pena que o filme de mesmo título mas afirmo que antes do início, fiquei intrigado sobre como os dois e únicos atores iriam conseguir dar vida a tantos personagens que fizeram parte da história na grande tela. Anthony Hopkins, brilhante do alto dos seus 86 anos, uma potência em frente à câmera, apaixonante na sua enérgica incorporação do personagem que lhe destinaram consegue trazer algo que supera aquilo que oferece o próprio filme em termos de aprofundamento e tratamento dos contundentes temas abordados. O roteiro original foi pensado para funcionar muito bem no palco, já o sabia. A minha dúvida sobre como iriam os dois mestres da encenação dar vida a tantos personagens no tablado foi tirada pela origem teatral do roteiro e também pela maestria nessa arte de representar dos atores Odilon Wagner e Marcello Airoldi. Depois de ver a peça fiquei me pergunto se o filme teria trazido muito da história de Anna Freud para compensar o que havia sido concebido para funcionar melhor no teatro do que na tela. Pode ser, a meu ver sim. Já li críticos a dizer algo semelhante: “essa foi uma compensação para um filme que seria monótono e desinteressante não fossem as incursões compensatórias propositais, dando espaço para a história pessoal de Anna Freud, que futuramente se tornaria a “mãe da psicanálise infantil,” sem esquecer de abordar também suas questões afetivas com o pai e com sua companheira. A atriz alemã Liv Lisa Fries consegue desenvolver na tela, com esmero, a difícil tarefa de abordar as contradições de Anna e a profundidade de sua relação com o pai. Tal não aparece no teatro e, para quem assistiu antes ao filme, a forte atuação de Liv e o recorte da história de Anna no contexto faz falta mas não prejudica. Talvez porque isso é parcialmente suprido por Lewis (Marcello Arioldi) ao tratar do tema "Anna" em vários momentos da história. Anna também emerge muitas vezes na fala do pai quando trata de vários assuntos com ela ao telefone situando o espectador sobre a marcante presença que teve em sua vida nesses seus momentos finais. Claro que sem a presença da atriz alemã para lhe dar vida no palco faz falta. A quem assistiu antes ao filme especialmente; o mesmo não acontecendo, provavelmente, com quem foi primeiramente para a peça. Enfim, o roteiro não é um tratado de psicanálise ou uma encenação biográfica de Freud, mas trouxe, para mim, um recorte na medida para algum conhecimento sobre a vida pessoal dos dois autores e suas teorias, com uma boa reconstrução do período com a Segunda Grande Guerra ao fundo determinando suas vidas e, principalmente a de Freud em seu último período após sua imigração forçada em Londres. Naquela casa/consultório continua um pouco dos ares da Viena que sua filha soube reconstruir. Uma "Sehnsucht" paira no ar...

A montagem brasileira da peça foi dirigida por Elias Andreato, com o ator “global”  Odilon Wagner, como Sigmund Freud, e Marcello Airoldi, (que ao final da peça nos foi apresentado como atual secretário de cultura da cidade de Itu, São Paulo) como C. S. Lewis. Os dois conseguem formar um eixo absoluto de toda a apresentação. Como disse anteriormente, os outros personagens são apenas verbalizados e isso é suficiente para compensar sua ausência física no palco. Mais teatral, menos cinematográfico! A peça é essencialmente um confronto verbal entre dois intelectuais, o que faz a maestria teatral e a qualidade da encenação se revelarem como uma capacidade dos atores de transformar ideias filosóficas e religiosas em conflito humano, tensão, humor e emoção, sejam nas falas ou nos gestos, que nos alcançam lá nas nossas cadeiras.  Concordo com algumas críticas de “especialistas” que assistiram aos dois, filme e peça, ao identificar em ambos um conflito central, a oposição entre Freud e Lewis. Freud interpretando a religião como uma construção humana, uma espécie de resposta à nossa fragilidade diante da morte, do sofrimento e daquilo que não podemos controlar enquanto Lewis, “via St. Germain”, permitindo que seja feito o movimento inverso: “Se o desejo de acreditar em Deus pode nascer de uma necessidade psicológica, também o desejo de que Deus não exista pode ter uma origem psicológica.” Tendo-se dessa forma a suspeita freudiana podendo ser aplicada ao próprio Freud, para quem, acreditar em Deus pode funcionar como uma forma de proteção psicológica: “o ser humano projeta no universo a figura de um pai poderoso capaz de oferecer segurança”, o que é sustentado pelo "cientista" sem se deixar controlar pelas cobranças de pessoas a seu redor. O que é admirável!

Seja no palco com Odilon Wagner ou nas telas com Anthony Hopkins, Freud está muito bem representado nesse momento delicado de sua vida para o público brasileiro e internacional, respectivamente. O gênio mas também o grande ser humano Freud continua sendo um dos maiores do século XX, respeitado e insubstituível.









Antonio C. R. Tupinambá

Fortaleza, 5 de setembro de 2026.