POLIS

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O projeto nasce com foco no comportamento político nas sociedades contemporâneas e nos efeitos dos movimentos sociais e políticos atuais sobre as liberdades e processos emancipatórios, bem como seus impedimentos em escala local, nacional e global. Tem por objetivos o desenvolvimento de um campo interdisciplinar de reflexão e prática investigativa e divulgadora, reunindo debates em torno de questões como: preconceito, racismo, sexismo, xenofobia, movimentos sociais, violência coletiva social, relações de poder, movimentos emancipatórios de povos e nações, valores democráticos e autoritarismos, laicidade, análises de discursos e ideologias, de universos simbólicos e práticas institucionais. Nessa perspectiva, o Polis atua desde sua criação formal em 2013, como projeto de extensão e em 2015 como Blog para divulgação e atualização.

segunda-feira, 1 de junho de 2026

FANON, o filme!























O revolucionário humanista Frantz Fanon e a luta contra o colonialismo europeu



O Filme “FANON” (2025) se baseia na história de vida do psiquiatra e revolucionário Frantz Fanon, nascido na Martinica, que enfrentou o sistema colonial francês a partir de seu trabalho em um hospital na Argélia. Durante a guerra anticolonial naquele país, então uma colônia francesa, Fanon deu um novo rumo à psiquiatria, bem como à luta antimanicomial, além de redefinir, com sua trajetória, a liberdade de homens e mulheres aprisionados ao jugo colonial francês. Luta anticolonial e um novo arcabouço teórico para a psiquiatria formam parte da herança deixada por Fanon para a humanidade. 

Jean-Claude Barny, diretor do filme que considero fiel à trajetória e digno desse grande homem, Fanon (magistralmente interpretado por Alexandre Bouyer), afirma que foi o próprio Fanon quem lhe permitiu ter uma visão única de como poderia integrar personagens de ascendência africana ao cinema universal e construir personagens que fossem completamente sinceras, autênticas e desprovidas de qualquer servidão à indústria cinematográfica: “Tínhamos a impressão de que estávamos criando alguém com um forte senso de humanidade e que era reconhecível como alguém dotado de uma espécie de sinceridade autêntica. Ele é um personagem que estava fora e acima do comum. Mas não podemos transformá-lo em um ícone intocável, um ícone irreal. O que nos interessa é trazê-lo de volta ao mundo dos vivos, e não ao mundo de um ícone póstumo. Primeiro tivemos que torná-lo tangível, torná-lo real. Tivemos que construir e desconstruir. Tivemos que edificar um ser humano – e esse ser humano tem um destino extraordinário.” Barny consegue com seu filme nos ofertar tudo isso que prometeu sendo fiel ao legado de Fanon. 

Mas quem foi Fanon?

Em 20 de julho de 1925, há pouco mais de um século, nascia o revolucionário psiquiatra e filósofo político Frantz Fanon. Veio ao mundo na ilha caribenha da Martinica mas cresceu como um cavalheiro do Império Francês, onde teve que encarar sua condição de homem negro, "nada além disso”, inferiorizado na sociedade dos homens brancos franceses. Privilégios de classe não o livraram desta marca racista no país que o adotou. O intelectual negro e militante anti-colonial publicou seu primeiro livro, Pele negra, máscaras brancas, em 1952; um ensaio sobre o racismo. No entanto, seu processo de politização e engajamento em lutas de emancipação e libertação humana do jugo colonialista iniciou no período que viveu e trabalhou nas colônias francesas no norte da África (começando pela Argélia). Como afirma Jean-Paul Sartre em prefácio a outro livro de Fanon “Os condenados da terra”, apesar da burguesia do século XIX considerar os operários pessoas invejosas, supostamente corrompidas por apetites grosseiros, ainda os incluía na espécie humana; eles ainda refletiam um certo humanismo que se pretendia universal. Essa não seria a atitude da mesma burguesia frente aos colonizados. Os soldados no ultramar rechaçavam tal universalismo metropolitano, rebaixavam o gênero humano no território anexado ao nível de um “macaco superior” para justificar seu tratamento pelos colonos como simples bestas de carga. O livro “Os condenados da terra” de Frantz Fanon foi publicado na mesma semana em que o autor falece em 1961 aos 36 anos. "Eu não vou viver o suficiente para ver uma Argélia livre", afirmou à sua esposa. De fato a independência da Argélia veio somente um ano após a sua morte. No dia da publicação, o livro foi condenado e banido na França. Esclarecedor sobre a colonização e descolonização no continente africano, seu texto nos leva além de um confronto com o pensamento de Fanon até chegar ao momento de sua luta e engajamento pela liberdade dos colonizados e escravizados da África. Certamente o banimento dessa obra pelos censores franceses não o teria abalado, ao contrário, teria sido motivo de orgulho para Fanon. Nele, o combate ativo ao racismo é implacável, foi quando a ideia do que se entende nos dias de hoje por antirracismo ganhou corpo. No seu tempo ousou falar abertamente de um tema que não era aceito nos salões literários franceses, tampouco na academia ou no meio político colonialista predominante. O chamado para uma ação antirracista, na qual se precisa desestruturar de maneira radical o inconsciente que normalizou a ideia de raça como inferioridade abalava as estruturas sócio-políticas calcificadas do neocolonialismo. Ao longo de sua vida, Fanon foi se deixando revelar como um homem que se movimenta de um choque original com o racismo francês até sua compreensão profunda da colonização ao redor do mundo; um Fanon que também dedicou suas habilidades para a cura daqueles que sofriam com a violência da colonização e do racismo.

Recomendo o filme aos que já conhecem ou aos que desejam conhecer esse homem que mostrou ao mundo o valor da luta pela emancipação humana.





domingo, 25 de janeiro de 2026

Nos Estados Unidos, já se comparam as ações do Serviço de Imigração às da Gestapo.*

 



Manifestantes usam uma caçamba de lixo como cobertura enquanto agentes federais disparam munições de controle de distúrbios contra eles, após agentes terem matado Alex Pretti a tiros em Minneapolis, no sábado, 24 de janeiro de 2026. Foto de Aaron Nesheim/AP. 

(https://www.euronews.com/2026/01/25/calls-grow-for-ice-to-leave-minnesota-after-latest-shooting-of-citizen)



Em 2020, no estado de Minnesota nos Estados Unidos, durante o primeiro mandato presidencial de Donald Trump, tinha-se vivido o drama da execução de George Floyd. O homem negro de 40 anos foi morto por asfixia depois de ter o pescoço pressionado pelo joelho de um policial durante uma abordagem em alguma rua da cidade de Minneapolis. Em um momento diferente no atual segundo período de governo Trump, a brutalidade policial se repete, na mesma cidade, desta feita resultante de uma intervenção de policiais da força federal conhecida como Immigration and Customs Enforcement - “ICE”. O país que antes queria ser tratado como a maior democracia do planeta, hoje é um lugar de disputas; não se fala mais em integridade ou decência em seu território. Um império em profunda decadência moral. Como bem definiu Cornel West, filósofo e ativista afrodescendente de direitos humanos: “os Estados Unidos são regidos, alternadamente, por dois partidos que são como duas asas de um mesmo pássaro servindo às elites financeiras, ao complexo industrial-militar e perpetuando o neoliberalismo, agindo como uma ave de rapina que prejudica os pobres e a classe trabalhadora, tanto negros quanto brancos.” Também afirma, com razão, que nos Estados Unidos se vive, atualmente com Donald Trump, um momento “gangsterizado”. No último Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça, Trump se tornou “persona non grata” por seus ataques aos aliados e  declarada compulsão pela tomada da Groenlândia por meio da força. Paralelamente ao Fórum, criou um nomeado Conselho da Paz para desmoralizar a ONU e traçar um plano de domínio pessoal do planeta, que mais parece um conglomerado formado por assassinos e ditadores. Já no seu próprio país, em curso um regime de excessão ao modo das piore ditaduras que se tem notícia atualmente, só que, no caso dos Estados Unidos, com potencial para destruir o mundo. No país da “liberdade” não há mais uma constituição a ser seguida. Ao pior estilo de Luis XIV, rei da França, deixa ímplicito, que Ele é o Estado! Para tentar viabilizar seus desvarios totalitários tem enviado a diferentes cidades, membros do ICE para, a seu mando e com poder letal, fazer perseguições, oprimir e prender qualquer um que a eles possa parecer ou ser ecolhido como um alvo. Primeiro Renne Good, que sem motivação aparente foi assassinada por seus agentes a sangue frio. A seguir, não de outro modo, foi a vez do enfermeiro de UTI, Alex Pretti, que apenas por tentar proteger uma mulher a quem haviam lançado gás lacrimogêneo durante um protesto pacífico foi imobilizado por seis policiais mascarados e assassinado com dez tiros à queima-roupa efetuados em menos de 5 segundos. Ambos cidadãos americanos em seus 37 anos sem antecedentes criminais e exercendo seu direito de protesto contra um regime que já se tornou distópico. A barbaridade de um governo ditatorial e sem rumo, que tem à frente um homem sem raciocínio claro e que, ao falar sobre invadir a Groenlândia confunde-a com a Islândia, numa completa demonstração de incapacidade cognitiva para governar a que ainda é a maior e mais perigosa nação em termos bélicos do mundo. Este é um homem de pouca clareza em suas falas, que tem posto sua polícia em cidades, deliberadamente escolhidas, para desestabilizar governos opositores, atacando famílias e matando cidadãos que apenas agem à luz de seus direitos. Um monstro  que foi eleito por grande parte dos estadunidenses, inclusive aqueles de origem latina, asiática etc., que hoje estão pagando o preço de uma escolha equivocada e fruto de alienação política. Antes tarde do que nunca, multidões saem às ruas em diferentes cidades em todo o país também contando com muitos desses eleitores já arrependidos pela escolha mal feita. A indignação e o inconformismo com a arbitrariedade faz com que os protestos a céu aberto escalem, apesar das temperaturaras extremas nesse inverno estadunidense. Principalmente em Minnesota, estado onde ocorreu o último assassinato pelas mãos de policiais federais, massas se aglomeram e também saem pelas ruas portando cartazes com os nomes das duas últimas vítimas fatais das ações dos policiais de Trump. Outros trazem expressões claras de repúdio pela presença das sanguinárias tropas federais: “ICE OUT OF MINNESOTA!”, (Ice fora de Minnesota); “ABOLISH ICE” (Fim ao Ice) “MURDER was the case!” (Foi um caso de assassinato!) “Minnesota, Renee Good e Alex Pretti versus Evil (Evil/Demônio aqui referindo-se a Trump e seu “Ice”).  Não sem razão, o governador de Minnesota, Tim Walz, comparou o Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE) à polícia secreta da Alemanha nazista, a Gestapo: “A Gestapo moderna de Donald Trump está prendendo pessoas nas ruas", disse Walz. "Eles estão em vans sem identificação, usando máscaras, enviando suas vítimas para centros de tortura no exterior, sem chance de se defender, sem sequer poder se despedir de seus entes queridos; são simplesmente agarradas por agentes mascarados, jogadas nessas vans e, a seguir, desaparecem", acrescentou Walz. Desde que o presidente Donald Trump retornou ao cargo em janeiro de 2025 e iniciou a enviar suas tropas do ICE para os diferentes estados, especialmente aqueles com governantes do Partido Democrático, ficou evidente o aumento drástico do número de prisões de imigrantes em todo o país além da repressão de outros cidadãos que se oponham às suas ações antidemocráticas, o que já resultou nos recentes assassinatos de Renee Good e Alex Pretti, tragédias responsáveis por desencadear a onda de protestos anti-ICE e anti-Trump que podem levar a um ponto de virada na política nacional. 


Fortaleza, 25 de janeiro de 2026.

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*Gestapo: nome da polícia secreta, na Alemanha nazista.