POLIS

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O projeto nasce com foco no comportamento político nas sociedades contemporâneas e nos efeitos dos movimentos sociais e políticos atuais sobre as liberdades e processos emancipatórios, bem como seus impedimentos em escala local, nacional e global. Tem por objetivos o desenvolvimento de um campo interdisciplinar de reflexão e prática investigativa e divulgadora, reunindo debates em torno de questões como: preconceito, racismo, sexismo, xenofobia, movimentos sociais, violência coletiva social, relações de poder, movimentos emancipatórios de povos e nações, valores democráticos e autoritarismos, laicidade, análises de discursos e ideologias, de universos simbólicos e práticas institucionais. Nessa perspectiva, o Polis atua desde sua criação formal em 2013, como projeto de extensão e em 2015 como Blog para divulgação e atualização.

quinta-feira, 18 de junho de 2026

SAQUEAMOS O MUNDO E ENRIQUECEMOS ÀS SUAS CUSTAS, AGORA EXPULSAREMOS OS QUE SOBRARAM




Parlamento europeu imita os Estados Unidos da América de Trump e rejeita os migrantes. Quase todos são "persona non grata". É pobre? Vem de algum país lugar "suspeito"? Quer asilo? Você vai ser expulso para qualquer país periférico. Assim se institucionalizou a xenofobia com votos da direita e de ultraconservadores europeus.

Nas últimas décadas, a luta anti-imigração tornou-se a principal bandeira e eixo ideológico dos partidos e movimentos conservadores ao redor do mundo. Eles proclamam medo e desconfiança “em relação ao outro” ou àqueles que são “diferentes” e o desprezo pelos seres humanos é banalizado por causa da cor da pele ou simplesmente porque fogem de crises de guerra, clima ou miséria.

Com isso, o discurso da direita tem conquistado simpatia e votos entre os setores sociais que, em cada país, se sentem vítimas da concorrência desleal daqueles que vêm “de fora”. Embora preocupante, essa postura defensiva dos “locais” não é surpreendente: diante da redução sistemática e, em alguns casos, até mesmo do desmantelamento do Estado social, o imigrante é apresentado como uma competição arriscada pelos cidadãos locais mais marginalizados ou por aqueles que dependem da assistência social.

O dia 10 de fevereiro de 2026 vai ficar na memória da vergonha europeia. As duas mudanças fundamentais nas regras de migração promoveram a divisão entre humanos e não-humanos. Fora do Bloco da União Europeia poucos países serão tidos como seguros e seus habitantes (não são mais cidadãos) tidos como ameaça aos bem-nascidos dessa nova Europa. Os que são oriundos dos países e regiões que “não deram certo” ficam de fora, não importa o motivo e a legitimidade para sua busca de uma nova vida alhures. Nos vinte e sete países da UE não poderão entrar ou ficar. Não somente os distantes Bangladesh ou Índia fazem parte dessa lista. Colômbia, Egito, Kosovo, Marrocos e Tunísia e muitos outros tomam acento entre os a priori rejeitados.

Não fica só por aí. O Parlamento Europeu também criou uma estratégia para manter bem longe qualquer um que bata a sua porta, o conceito de um “terceiro país” seguro. Qualquer um dos 27 Estados da UE pode expulsar esses indesejados pretendentes ou solicitantes de asilo para um país, de preferência, bem longe, fora da região, abrindo um precedente para a criação de novos “campos de refugiados”, a exemplo do que já financia em vários países africanos. Uma grande “inspiradora” para essa estratégia veio da Itália com sua Primeira Ministra protofascista Georgia Meloni. 


Meloni é a primeira mulher a liderar um governo italiano e declarar estado de emergência no país, para criar as condições de facilitar a expulsão dos que chegam em busca de asilo. Em 9 de novembro de 1989 caía o muro de Berlim, símbolo da divisão do mundo e da Europa no período pós-Segunda Grande Guerra. Neste momento novos muros — físicos ou políticos estão sendo construídos. O propósito é vedar o território europeu, tornar a Europa uma Fortaleza segura apenas para os seus. Seria essa a maneira de controle das formas de imigração ilegal? A resposta é sim para os que formam o grupo de Visegrado — Eslováquia, Hungria, Polônia e República Checa com o apoio da Áustria, Itália e Grécia. “Há décadas que barreiras protegem as fronteiras físicas da Europa. Os muros de Ceuta (1993) e Melilla (1996) foram os primeiros a ser erguidos, mas outros multiplicaram-se posteriormente, cobrindo agora mais de dois mil quilômetros de território. A Bulgária, por exemplo, o país mais pobre da UE [na qual entrou em 2007], instalou uma vedação de 97% da sua fronteira com a Turquia”.(1) A fabricação de um discurso contra esses seres humanos que fogem e "migram" tem o objetivo de a eles imputar toda a culpa pelo seu ato de deixar seu lugar de origem em busca de dias melhores em outros países, muitas vezes como única possibilidade de sobrevivência. No entanto, há de se pensar que mesmo o conceito de pessoas que migram, como se fossem aves de arribação, não corresponde ao que de fato ocorre com essas pessoas. Para Aktouf (2022), um dos exemplos mais odiosos do mecanismo de fabricação da falsa consciência pode ser resumido nessa palavra, tão diluída e tão dramática:  

…aquela pela qual designamos essa nova espécie humana vagando, errante e em desespero, por todos os lugares, chamada de “migrantes”. Não passa um dia sem que nossos ouvidos sejam alcançados pelos sons estridentes desses movimentos das multidões cada vez maiores, chamadas de "migrantes", que tentam de mil e uma maneiras, cada uma mais trágica que a outra, escapar da  angústia, do terror, da morte, das carnificinas organizadas, de guerras por procuração, da devastação de multinacionais, da fome extrema, da decadência absoluta ... Eles enfrentam muros e muralhas, arame farpado e minas, balas de metralhadoras e cercas... para, como dizem ... “migrar". Mas existem apenas algumas espécies animais que migram, nenhum humano o faz. Alguns humanos podem emigrar, circular, transumar, viajar ... mas “migrar” não! Estamos perante o mais sinistro eufemismo público da história: esses pobres coitados, destituídos de tudo e ameaçados até na carne e na vida, não migram. Eles fogem! Eles fogem de condições tornadas além do desumano pela voracidade das multinacionais, pelas guerras petroimperialistas (o caso de todo o Oriente Médio, por exemplo), pelas desigualdades insuportáveis, pela ganância dos dominantes. Não se pode chamar isso de “migrar”. Mas se faz isso por um mecanismo que o meu irmão argelino Nobel de Literatura, Albert Camus, já havia denunciado na sua época: “Nomear mal é contribuir para a infelicidade da humanidade”. Hoje em dia, essa falsa nomeação se tornou um instrumento de desinformação e deformação sistemática da realidade: em vez de  chamar essas pessoas pelo que realmente são, isto é, verdadeiros "resíduos mortificados vivos", segregados por um mundo assassino de ordem econômica, por suas múltiplas consequências, por suas guerras de expansão infinita, se utiliza de um eufemismo asqueroso "tranquilizador", fazendo-os passar por caprichosos resmungões insatisfeitos com sua situação original, invejosos do sucesso alheio…Esses pobres, quase "restos humanos ambulantes”, não são e nunca foram "migrantes": eles não são mais que vítimas das consequências das ações (pilhagem, devastação climática e ecológica, guerras, saques de terras e mares…) dos partidários desta ordem mundial neoliberal agora tão insustentável quanto criminosa, cujos governantes são tão loucos e cruéis quanto insaciáveis.(2)


Denominada de “Proposta Albânia”, Meloni assinou acordo com a Albânia para que recebesse solicitantes de asilo expulsos. A Grã-Bretanha também já havia tido proposta semelhante de terceirização de locação desses indesejáveis que chegassem a seu território. 10 de fevereiro será lembrado como um dia sombrio para os direitos humanos na UE. Como bem afirma Sundberg Diez, chefe da Anistia Internacional para questões de migração e asilo da União Europeia: “o Parlamento Europeu capitula diante de uma campanha de décadas para privar as pessoas de seus direitos humanos, começando pelos direitos de solicitantes de asilo, refugiados e migrantes”. Trata-se, portanto, de uma “mudança política preocupante que atinge o cerne dos princípios fundadores da União Europeia”.




Antonio C. R. Tupinambá

18 de junho de 2026.

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(1) Martin, M.; Ayuso, S.; Clemente, Y. El País, Madri. Estes muros que nos dividem. Courrier Internacional. Portugal: TIN, n. 327, p. 20 — 22.


(2) Aktouf, O. Prefácio. In: A. C. R. Tupinambá. Sobre Pessoas e Lugares Distantes. Polis & Plebeu. Fortaleza, 2022.

segunda-feira, 1 de junho de 2026

FANON, o filme!























O revolucionário humanista Frantz Fanon e a luta contra o colonialismo europeu



O Filme “FANON” (2025) se baseia na história de vida do psiquiatra e revolucionário Frantz Fanon, nascido na Martinica, que enfrentou o sistema colonial francês a partir de seu trabalho em um hospital na Argélia. Durante a guerra anticolonial naquele país, então uma colônia francesa, Fanon deu um novo rumo à psiquiatria, bem como à luta antimanicomial, além de redefinir, com sua trajetória, a liberdade de homens e mulheres aprisionados ao jugo colonial francês. Luta anticolonial e um novo arcabouço teórico para a psiquiatria formam parte da herança deixada por Fanon para a humanidade. 

Jean-Claude Barny, diretor do filme que considero fiel à trajetória e digno desse grande homem, Fanon (magistralmente interpretado por Alexandre Bouyer), afirma que foi o próprio Fanon quem lhe permitiu ter uma visão única de como poderia integrar personagens de ascendência africana ao cinema universal e construir personagens que fossem completamente sinceras, autênticas e desprovidas de qualquer servidão à indústria cinematográfica: “Tínhamos a impressão de que estávamos criando alguém com um forte senso de humanidade e que era reconhecível como alguém dotado de uma espécie de sinceridade autêntica. Ele é um personagem que estava fora e acima do comum. Mas não podemos transformá-lo em um ícone intocável, um ícone irreal. O que nos interessa é trazê-lo de volta ao mundo dos vivos, e não ao mundo de um ícone póstumo. Primeiro tivemos que torná-lo tangível, torná-lo real. Tivemos que construir e desconstruir. Tivemos que edificar um ser humano – e esse ser humano tem um destino extraordinário.” Barny consegue com seu filme nos ofertar tudo isso que prometeu sendo fiel ao legado de Fanon. 

Mas quem foi Fanon?

Em 20 de julho de 1925, há pouco mais de um século, nascia o revolucionário psiquiatra e filósofo político Frantz Fanon. Veio ao mundo na ilha caribenha da Martinica mas cresceu como um cavalheiro do Império Francês, onde teve que encarar sua condição de homem negro, "nada além disso”, inferiorizado na sociedade dos homens brancos franceses. Privilégios de classe não o livraram desta marca racista no país que o adotou. O intelectual negro e militante anti-colonial publicou seu primeiro livro, Pele negra, máscaras brancas, em 1952; um ensaio sobre o racismo. No entanto, seu processo de politização e engajamento em lutas de emancipação e libertação humana do jugo colonialista iniciou no período que viveu e trabalhou nas colônias francesas no norte da África (começando pela Argélia). Como afirma Jean-Paul Sartre em prefácio a outro livro de Fanon “Os condenados da terra”, apesar da burguesia do século XIX considerar os operários pessoas invejosas, supostamente corrompidas por apetites grosseiros, ainda os incluía na espécie humana; eles ainda refletiam um certo humanismo que se pretendia universal. Essa não seria a atitude da mesma burguesia frente aos colonizados. Os soldados no ultramar rechaçavam tal universalismo metropolitano, rebaixavam o gênero humano no território anexado ao nível de um “macaco superior” para justificar seu tratamento pelos colonos como simples bestas de carga. O livro “Os condenados da terra” de Frantz Fanon foi publicado na mesma semana em que o autor falece em 1961 aos 36 anos. "Eu não vou viver o suficiente para ver uma Argélia livre", afirmou à sua esposa. De fato a independência da Argélia veio somente um ano após a sua morte. No dia da publicação, o livro foi condenado e banido na França. Esclarecedor sobre a colonização e descolonização no continente africano, seu texto nos leva além de um confronto com o pensamento de Fanon até chegar ao momento de sua luta e engajamento pela liberdade dos colonizados e escravizados da África. Certamente o banimento dessa obra pelos censores franceses não o teria abalado, ao contrário, teria sido motivo de orgulho para Fanon. Nele, o combate ativo ao racismo é implacável, foi quando a ideia do que se entende nos dias de hoje por antirracismo ganhou corpo. No seu tempo ousou falar abertamente de um tema que não era aceito nos salões literários franceses, tampouco na academia ou no meio político colonialista predominante. O chamado para uma ação antirracista, na qual se precisa desestruturar de maneira radical o inconsciente que normalizou a ideia de raça como inferioridade abalava as estruturas sócio-políticas calcificadas do neocolonialismo. Ao longo de sua vida, Fanon foi se deixando revelar como um homem que se movimenta de um choque original com o racismo francês até sua compreensão profunda da colonização ao redor do mundo; um Fanon que também dedicou suas habilidades para a cura daqueles que sofriam com a violência da colonização e do racismo.

Recomendo o filme aos que já conhecem ou aos que desejam conhecer esse homem que mostrou ao mundo o valor da luta pela emancipação humana.