Parlamento europeu imita os Estados Unidos da América de Trump e rejeita os migrantes. Quase todos são "persona non grata". É pobre? Vem de algum país lugar "suspeito"? Quer asilo? Você vai ser expulso para qualquer país periférico. Assim se institucionalizou a xenofobia com votos da direita e de ultraconservadores europeus.
Nas últimas décadas, a luta anti-imigração tornou-se a principal bandeira e eixo ideológico dos partidos e movimentos conservadores ao redor do mundo. Eles proclamam medo e desconfiança “em relação ao outro” ou àqueles que são “diferentes” e o desprezo pelos seres humanos é banalizado por causa da cor da pele ou simplesmente porque fogem de crises de guerra, clima ou miséria.
Com isso, o discurso da direita tem conquistado simpatia e votos entre os setores sociais que, em cada país, se sentem vítimas da concorrência desleal daqueles que vêm “de fora”. Embora preocupante, essa postura defensiva dos “locais” não é surpreendente: diante da redução sistemática e, em alguns casos, até mesmo do desmantelamento do Estado social, o imigrante é apresentado como uma competição arriscada pelos cidadãos locais mais marginalizados ou por aqueles que dependem da assistência social.
O dia 10 de fevereiro de 2026 vai ficar na memória da vergonha europeia. As duas mudanças fundamentais nas regras de migração promoveram a divisão entre humanos e não-humanos. Fora do Bloco da União Europeia poucos países serão tidos como seguros e seus habitantes (não são mais cidadãos) tidos como ameaça aos bem-nascidos dessa nova Europa. Os que são oriundos dos países e regiões que “não deram certo” ficam de fora, não importa o motivo e a legitimidade para sua busca de uma nova vida alhures. Nos vinte e sete países da UE não poderão entrar ou ficar. Não somente os distantes Bangladesh ou Índia fazem parte dessa lista. Colômbia, Egito, Kosovo, Marrocos e Tunísia e muitos outros tomam acento entre os a priori rejeitados.
Não fica só por aí. O Parlamento Europeu também criou uma estratégia para manter bem longe qualquer um que bata a sua porta, o conceito de um “terceiro país” seguro. Qualquer um dos 27 Estados da UE pode expulsar esses indesejados pretendentes ou solicitantes de asilo para um país, de preferência, bem longe, fora da região, abrindo um precedente para a criação de novos “campos de refugiados”, a exemplo do que já financia em vários países africanos. Uma grande “inspiradora” para essa estratégia veio da Itália com sua Primeira Ministra protofascista Georgia Meloni.
Meloni é a primeira mulher a liderar um governo italiano e declarar estado de emergência no país, para criar as condições de facilitar a expulsão dos que chegam em busca de asilo. Em 9 de novembro de 1989 caía o muro de Berlim, símbolo da divisão do mundo e da Europa no período pós-Segunda Grande Guerra. Neste momento novos muros — físicos ou políticos estão sendo construídos. O propósito é vedar o território europeu, tornar a Europa uma Fortaleza segura apenas para os seus. Seria essa a maneira de controle das formas de imigração ilegal? A resposta é sim para os que formam o grupo de Visegrado — Eslováquia, Hungria, Polônia e República Checa com o apoio da Áustria, Itália e Grécia. “Há décadas que barreiras protegem as fronteiras físicas da Europa. Os muros de Ceuta (1993) e Melilla (1996) foram os primeiros a ser erguidos, mas outros multiplicaram-se posteriormente, cobrindo agora mais de dois mil quilômetros de território. A Bulgária, por exemplo, o país mais pobre da UE [na qual entrou em 2007], instalou uma vedação de 97% da sua fronteira com a Turquia”.(1) A fabricação de um discurso contra esses seres humanos que fogem e "migram" tem o objetivo de a eles imputar toda a culpa pelo seu ato de deixar seu lugar de origem em busca de dias melhores em outros países, muitas vezes como única possibilidade de sobrevivência. No entanto, há de se pensar que mesmo o conceito de pessoas que migram, como se fossem aves de arribação, não corresponde ao que de fato ocorre com essas pessoas. Para Aktouf (2022), um dos exemplos mais odiosos do mecanismo de fabricação da falsa consciência pode ser resumido nessa palavra, tão diluída e tão dramática:
…aquela pela qual designamos essa nova espécie humana vagando, errante e em desespero, por todos os lugares, chamada de “migrantes”. Não passa um dia sem que nossos ouvidos sejam alcançados pelos sons estridentes desses movimentos das multidões cada vez maiores, chamadas de "migrantes", que tentam de mil e uma maneiras, cada uma mais trágica que a outra, escapar da angústia, do terror, da morte, das carnificinas organizadas, de guerras por procuração, da devastação de multinacionais, da fome extrema, da decadência absoluta ... Eles enfrentam muros e muralhas, arame farpado e minas, balas de metralhadoras e cercas... para, como dizem ... “migrar". Mas existem apenas algumas espécies animais que migram, nenhum humano o faz. Alguns humanos podem emigrar, circular, transumar, viajar ... mas “migrar” não! Estamos perante o mais sinistro eufemismo público da história: esses pobres coitados, destituídos de tudo e ameaçados até na carne e na vida, não migram. Eles fogem! Eles fogem de condições tornadas além do desumano pela voracidade das multinacionais, pelas guerras petroimperialistas (o caso de todo o Oriente Médio, por exemplo), pelas desigualdades insuportáveis, pela ganância dos dominantes. Não se pode chamar isso de “migrar”. Mas se faz isso por um mecanismo que o meu irmão argelino Nobel de Literatura, Albert Camus, já havia denunciado na sua época: “Nomear mal é contribuir para a infelicidade da humanidade”. Hoje em dia, essa falsa nomeação se tornou um instrumento de desinformação e deformação sistemática da realidade: em vez de chamar essas pessoas pelo que realmente são, isto é, verdadeiros "resíduos mortificados vivos", segregados por um mundo assassino de ordem econômica, por suas múltiplas consequências, por suas guerras de expansão infinita, se utiliza de um eufemismo asqueroso "tranquilizador", fazendo-os passar por caprichosos resmungões insatisfeitos com sua situação original, invejosos do sucesso alheio…Esses pobres, quase "restos humanos ambulantes”, não são e nunca foram "migrantes": eles não são mais que vítimas das consequências das ações (pilhagem, devastação climática e ecológica, guerras, saques de terras e mares…) dos partidários desta ordem mundial neoliberal agora tão insustentável quanto criminosa, cujos governantes são tão loucos e cruéis quanto insaciáveis.(2)
Denominada de “Proposta Albânia”, Meloni assinou acordo com a Albânia para que recebesse solicitantes de asilo expulsos. A Grã-Bretanha também já havia tido proposta semelhante de terceirização de locação desses indesejáveis que chegassem a seu território. 10 de fevereiro será lembrado como um dia sombrio para os direitos humanos na UE. Como bem afirma Sundberg Diez, chefe da Anistia Internacional para questões de migração e asilo da União Europeia: “o Parlamento Europeu capitula diante de uma campanha de décadas para privar as pessoas de seus direitos humanos, começando pelos direitos de solicitantes de asilo, refugiados e migrantes”. Trata-se, portanto, de uma “mudança política preocupante que atinge o cerne dos princípios fundadores da União Europeia”.
Antonio C. R. Tupinambá
18 de junho de 2026.
________________________________________
(1) Martin, M.; Ayuso, S.; Clemente, Y. El País, Madri. Estes muros que nos dividem. Courrier Internacional. Portugal: TIN, n. 327, p. 20 — 22.
(2) Aktouf, O. Prefácio. In: A. C. R. Tupinambá. Sobre Pessoas e Lugares Distantes. Polis & Plebeu. Fortaleza, 2022.




