POLIS

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O projeto nasce com foco no comportamento político nas sociedades contemporâneas e nos efeitos dos movimentos sociais e políticos atuais sobre as liberdades e processos emancipatórios, bem como seus impedimentos em escala local, nacional e global. Tem por objetivos o desenvolvimento de um campo interdisciplinar de reflexão e prática investigativa e divulgadora, reunindo debates em torno de questões como: preconceito, racismo, sexismo, xenofobia, movimentos sociais, violência coletiva social, relações de poder, movimentos emancipatórios de povos e nações, valores democráticos e autoritarismos, laicidade, análises de discursos e ideologias, de universos simbólicos e práticas institucionais. Nessa perspectiva, o Polis atua desde sua criação formal em 2013, como projeto de extensão e em 2015 como Blog para divulgação e atualização.

segunda-feira, 2 de novembro de 2026

PERSÉPOLIS





Na história em quadrinhos “Persépolis”, de Marjane Satrapi: memória, liberdade, identidade e resistência.



Marjane Satrapi tinha apenas dez anos quando se viu obrigada a usar o véu islâmico, numa sala de aula só de meninas. Nascida numa família moderna e politizada, em 1979 ela assistiu ao início da revolução que lançou o Irã nas trevas do regime xiita — apenas mais um capítulo nos muitos séculos de opressão do povo persa.

Vinte e cinco anos depois, com os olhos da menina que foi e a consciência política à flor da pele da adulta em que se transformou, Marjane emocionou leitores de todo o mundo com essa autobiografia em quadrinhos, que só na França vendeu mais de 400 mil exemplares.

Em Persépolis, o pop encontra o épico, o oriente toca o ocidente, o humor se infiltra no drama — e o lrã parece muito mais próxímo do que poderíamos suspeitar.


Paulo Werneck





Quando tirei o plástico que envolvia o livro Persépolis, da escritora e ilustradora iraniana Marjane Satrapi ainda não sabia que se tratava de uma história toda contata com ilustrações em quadrinhos. Como uma história assim narrada poderia ser considerada uma das obras autobiográficas mais importantes da literatura contemporânea? Pouco depois, ao iniciar a leitura, tive que concordar que se tratava de uma história que deveria ser lida atentamente. Uma história sobre a infância e a juventude de uma menina no Irã, um testemunho contundente sobre os efeitos do autoritarismo na vida das pessoas, a opressão das mulheres, a intolerância religiosa e a luta permanente pela liberdade, publicada, para a minha surpresa, originalmente em quadrinhos, em preto e branco,  utilizando uma linguagem visual aparentemente simples, mas de enorme profundidade política, histórica e humana como foi para mim se revelando, pouco a pouco.

A narrativa da Revolução Iraniana de 1979 é um de seus aspectos mais interessantes. A população iraniana estava mobilizada contra a ditadura do xá Mohammad Reza Pahlavi com diferentes forças políticas e sociais envolvidas nessa luta, muitas delas movidas pelo desejo de democracia, justiça social e liberdade. Entretanto, essa revolução acabou sendo apropriada por uma estrutura teocrática comandada pelo aiatolá Khomeini, que estabeleceu um regime extremista, teocrático e super-autoritário. Uma revolução que mobilizou esperanças de emancipação, terminou restringindo liberdades individuais, perseguindo opositores e impondo padrões religiosos e comportamentais à sociedade, que destruiu esperanças e corpos. Uma revolução que provou não ter sido libertadora ainda que tenha derrubado uma ditadura. O que ocorreu foi não se ter obtido a liberdade  ao ter substituído aquela ditadura por outra forma de submissão tão ruim ou pior que ela.

Não se pode deixar de ver no livro de Marjane sua dimensão mais poderosa, qual seja, a representação da condição feminina. Determinantes como a obrigatoriedade do véu, o controle sobre o comportamento das mulheres, as restrições à liberdade de expressão e a vigilância sobre seus corpos revelaram como o autoritarismo procura controlar não apenas as instituições, mas também a intimidade pessoal, o que até hoje se vê como objetos de luta e símbolos de busca da liberdade pelas mulheres no Irã. Como a personagem Marjane na história autobiográfica, ali está representada toda uma geração de mulheres que se recusa a aceitar passivamente as imposições de um regime. Representada até os dias de hoje, quando ainda tal liberdade é negada e objeto de perseguição que muitas vezes culmina com a morte das mulheres que ousam se libertar dos ditames ditatoriais no Irã. Sua resistência na história que aparece em gestos aparentemente pequenos: ouvir música ocidental, questionar autoridades, vestir-se de maneira diferente e reivindicar o direito de pensar por conta própria é a mesma que nos dias de hoje gera ataques à liberdade e reflete o autoritarismo e o mal de teocracias e ditaduras. Mahsa Amini (também conhecida como Jina Amini), uma jovem curda-iraniana de 22 anos foi presa em 13 de setembro de 2022, em Teerã pela Patrulha de Orientação (conhecida como a polícia da moralidade do governo iraniano) por não usar o hijab (véu islâmico) de acordo com os rígidos padrões do regime teocrático ditatorial iraniano. Após ser levada para um centro de detenção, Mahsa desmaiou, entrou em coma e morreu em 16 de setembro de 2022. Testemunhas, familiares e um relatório oficial da ONU divulgado em 2024 apontaram que ela foi vítima de violência física e espancamentos enquanto estava sob custódia.

Gestos testemunhados por Marjane em seu livro adquirem uma dimensão política extraordinária. A autora demonstra que, em sociedades submetidas à opressão, até mesmo as escolhas cotidianas podem se transformar em atos de resistência mas muitas vezes, também em atos heróicos que culminam com a punição máxima pelos tiranos.

Não somente a revolução faz parte de suas memórias, outro aspecto marcante é a maneira como a autora apresenta a guerra entre Irã e Iraque (1980-1988). A guerra invade sua infância, destrói famílias, produz mortes e transforma a vida cotidiana em uma experiência permanente de medo. Marjane  não apresenta a guerra por meio de grandes discursos militares ou estratégias geopolíticas. Ela escolhe mostrar seus efeitos sobre as pessoas comuns. É justamente nessa perspectiva que o livro alcança sua maior força: a história deixa de ser apenas uma sucessão de acontecimentos políticos e passa a ser uma experiência íntima, humana. A menina que deseja descobrir o mundo precisa amadurecer em meio à violência, à repressão e à perda. A guerra, portanto, não destrói apenas cidades e vidas. Destrói também sonhos e possibilidades de futuro.

Quando Marjane deixa o Irã e vai estudar na Europa, surge outra dimensão fundamental em sua narrativa: o sentimento de não pertencimento. No Ocidente, ela enfrenta preconceitos, estereótipos e dificuldades para construir sua identidade. Quando eu vivia em Salzburg, na primeira metade da década de 1980 acompanhei o caso de muitos iranianos que tinham distintas formações e profissões em seus tempos na terra natal que tinham sentimento semelhante: estranhamento, impossibilidade de autorrealização e adaptação, bem como preconceitos sentidos simplesmente por conta de sua origem, religião ou baseados em estereótipos do que significava ser para o europeu um iraniano e, principalmente, um iraniano fugitivo da teocracia e do autoritarismo mortal em seu país de origem. Assim como Marjane, eles eram, no Irã, considerados excessivamente ocidentalizados e poderiam ser punidos ad extremum; enquanto na Europa, frequentemente identificados apenas por sua origem iraniana que não era uma coisa boa para os ocidentais. Essa experiência revela uma contradição profunda: fugir de uma sociedade autoritária não significa necessariamente encontrar um mundo livre de preconceitos. A autora questiona a visão simplificada do Ocidente como espaço absoluto de liberdade e do Oriente como espaço exclusivamente de opressão. Sua narrativa também denuncia o olhar ocidental que reduz sociedades inteiras à religião, à violência e ao fundamentalismo. Como muitos dos meus conhecidos e amigos naquela época, anos 1980, em Salzburg, Marjane é iraniana, mas sua identidade não se limita ao país onde nasceu. É também uma mulher, uma cidadã do mundo e uma pessoa que reivindica o direito de construir sua própria história.

A sua maneira de contar a história de sua vida e de sua pátria por meio de quadrinhos, em preto e branco não se trata apenas uma decisão artística. Ela contribui para a força simbólica da narrativa. Os desenhos são econômicos, expressivos e, muitas vezes, profundamente irônicos. Marjane consegue tratar de assuntos extremamente dolorosos sem recorrer ao sentimentalismo excessivo e com uso de desenhos e traços simples. Em determinados momentos, o humor derivado do desenho e do texto funciona como instrumento de crítica política. Em outros, o silêncio das imagens comunica mais do que um longo texto explicativo que tivesse usado para isso. Essa simplicidade visual estabelece um contraste poderoso com a complexidade dos acontecimentos narrados sobre a densa história de sua nação. Antes de ler seu livro não havia me atentado para o fato que os quadrinhos também poderiam ser uma demonstração  de sofisticação e uma forma de literatura, memória e reflexão histórica tão contundente quanto um texto que o representasse.

Há também aspectos universais no seu texto, pois a grandeza de Persépolis está em não transformar sua experiência pessoal em uma denúncia limitada a um único lugar. Embora a narrativa esteja profundamente ligada à história iraniana, suas questões são universais. Também é necessário observar que a crítica de Marjane não deve ser confundida com uma rejeição à cultura iraniana ou à religião islâmica. Sua denúncia dirige-se especialmente ao autoritarismo, ao fundamentalismo político e à imposição de uma visão única de sociedade.

Persépolis é um livro sobre a coragem de pensar ainda que quando pensar seja algo perigoso; sobre a necessidade de preservar a própria identidade quando o poder procura uniformizar comportamentos, consciências e sentimentos. Marjane nos ensina que a liberdade não é uma concessão dos governos, tampouco uma conquista definitiva. É uma construção permanente, que exige memória, consciência crítica e disposição para resistir.

Há uma mensagem especialmente importante em sua narrativa: nenhuma sociedade pode ser verdadeiramente livre quando parte de sua população tem seus direitos, seu corpo e suas escolhas submetidos ao controle de uma autoridade política ou religiosa. Essa mensagem poderia ser retirada de qualquer sociedade que passe pela tentativa de domínio político, religioso etc. e não se limita ao país retratado por Marjane. Por isso podemos dizer que talvez a maior lição do livro seja a de que não basta derrubar os opressores; é preciso impedir que novas formas de opressão ocupem o lugar das antigas; em nosso caso não basta impedir o bolsonarismo, é preciso impedir que novas formas de autoritarismo emerjam das trevas, pois afinal de contas,  democracia, liberdade e dignidade humana são valores que precisam ser defendidos todos os dias em todos os cantos do planeta.

Antonio C. R. Tupinambá

Fortaleza, 2 de novembro de 2026.




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Persépolis

               Completo

Marjane Satrapi

Tradução: Paulo Werneck

Quadrinhos na Cia.

São Paulo: Editora Schwarcz.

2026.


domingo, 27 de setembro de 2026

K30+ (Kátia Freitas no Cineteatro São Luiz)

 











K30+

Cineteatro São Luiz

Fortaleza CE


Fui com quatro amigos: Orlando, Luiz, Miguel e David. Chamei outros e outras mas por motivos diversos declinaram do convite. Falo do show musical da Kátia Freitas, cantora cearense que mantém-se com brilhantismo na cena musical por mais de trinta anos. Não sei da sua idade, mas hoje a vejo dona da mesma beleza, vitalidade e doçura de há anos atrás, nos idos anos 1990, quando ainda iniciava no mundo da música e, ao mesmo tempo, transitava pela universidade, época de sua graduação. O K30+ é seu mais recente trabalho que tivemos a oportunidade de ver hoje, 27 de setembro de 2026 no palco do majestoso Cineteatro São Luíz em Fortaleza. Kátia é dona de uma qualidade rara entre artistas: a singeleza.  Não confunda isso com simplicidade oriunda de uma ausência de elaboração, mas de uma simplicidade consciente, capaz de colocar a canção, a palavra e a emoção no centro do espetáculo e da nossa experiência. Quando ouvi mais uma vez a música “Palavra” de sua autoria, constatei que mantém e, nesse show especialmente, esse "singelo" que creio tem permeado sua música e sua vida. Isso combina com a importância que a palavra tem em sua estética. Sei que alguma vez Katia citou, nada mais nada menos do que Clarice Lispector como uma de suas grandes influências na escrita e ainda mencionou como a palavra literária sempre esteve ligada à sua formação artística:

Palavra

Kátia Freitas

(1995)


A palavra é bela
Eu sinto a vida nela
A palavra soa
A palavra não não é a toa

A gente aprende a palavra
A palavra já estava
A palavra prende a gente
A palavra é o que nos salva

A palavra consciente mente
A palavra representa
A palavra só cala quem consente
A palavra orienta

A palavra mata o objeto
O objeto pode ser direto ou indireto
O adjetivo pode ser ingrato
A palavra é um substantivo abstrato

Bendita a palavra farta
no que falta o fato
Bendito o ponto
no que está pronto
no que está morto, parto.


Não se pode esquecer o que significa e qual a dimensão que tem essa “Palavra”. Para nossa querida cantora, “ a música ‘Palavra’ nasce no momento em que ela passa a ‘dizer coisas’ através das próprias canções. Ela resume esse processo ao afirmar que o disco acabou se tornando um trabalho em que apresentava sua próprias composições e começava a construir uma voz própria como cantora e compositora”.

Kátia celebrou, com seu show, 30 anos do álbum “K”, que havia sido lançado em 1995. Não ficou por aí, ela ainda nos brindou, ao mesmo tempo, com canções inéditas apontando para uma nova etapa de sua trajetória artística.

Singeleza também pode significar força, como ela nos deixou claro nessa noite que foi um presente aos presentes. 

Kátia não pretendeu transformar sua história em monumento para se olhar, admirar e simplesmente se passar ao largo… Há algo que vai muito além disso; algo particularmente bonito na proposta de K30+:  um retorno às canções para reencontrar seu público e novos públicos, que permite um diálogo no tempo entre o novo e o que foi criado há três décadas. Nesse diálogo eu encontrei o que chamo a força de uma singeleza. Canções como “Anjos”, “Um qualquer” e “Notícias boas”, ao lado da mais conhecida de todas “Coca-Colas e iguarias”, recuperam a memória de uma época, mas não aparecem apenas como peças históricas, pois se recolocam e ressurgem diante de um público que já a conhecia mas ainda assim não é o mesmo, pois mudou, mas também diante de um público novo que ainda não a conhecia, pelo menos tão de perto. Amei também ouvir suas músicas inéditas. Já havia assistido a parte de sua entrevista para a rádio FM Universitária, que me desvendou o segredo da música intitulada Eu e Tu, na qual ela traz uma história, um romance, adoçado por palavras em francês. Assim, as músicas inéditas, que ela teve o cuidado de nos informar antes ou após canta-las, foram fundamentais nesse processo, nesse diálogo com o tempo. Assim, a nostalgia passou longe nesse show. Ela olhou para trás sem esquecer de apontar os caminhos musicais que está trilhando, anos inconclusos, uma especie de rito de passagem para um próximo capítulo de sua criação que nos deixou feliz pelo que está por vir. Essa memória sem excessiva nostalgia não a impediu de homenagear Cristiano Pinho, apontando para um violão no palco e a ele se remetendo, fazendo-o presente como memória musical no show. Emocionante vê-la fazendo essa homenagem  com mais sentimento do que explicações.

O show que transitou entre o que passou e o que ainda está por vir é lindo e singelo desde o seu nome K30+, no qual há memória no K30, que deve representar os trinta anos de um trabalho que eu penso nos marcou como audiência mas também marcou um período da música cearense enquanto o + seria aquilo que ainda vem ou mesmo o que já veio de novidade neste show. Kátia não apenas revisitou-se com saudosismo mas pôs o que acumulou e guardou de experiência para ir adiante, criar e descobrir novas e boas músicas com a qualidade Katia Freitas de compositora que sempre nos traz belas surpresas. 

Seria injusto não falar aqui de sua banda (a que esteve no palco, hoje): Gabriel, Eduardo, Márcio, Edmundo e Kevin, que permitiram K30+ ter a qualidade que teve, a sonoridade que acompanhou a potente voz da protagonista, emoldurando-a. Um quadro musical lindo. Músicos que também reforçaram a ideia de um encontro entre tempos musicais diferentes, com um passado revisitado, atualizado e a modernidade fortalecida. Eu vi um show que respeitou esse tempo que passou sem levar as coisas embora; um tempo que transforma, consolida e permite que se dê novos significados a canções já ouvidas e traga novas canções ainda a serem ouvidas. Eu não a ouvi gritar lá do palco que sua trajetória já tinha 30 anos. Cantar foi suficiente. Bastou cantar: “A singeleza do gesto acaba revelando a dimensão da caminhada — e as músicas inéditas mostram que, depois de três décadas, ainda há muito por dizer”.

Parabéns Kátia. Nós amamos te ver e ouvir mais uma vez!

Antonio C. R. Tupinambá

Fortaleza, 27 de setembro de 2026.


segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Lula e Zohran: Uma aliança estratégica por direitos e igualdade global


 



Lula e Zohran em N.Y.


Hoje, 21 de setembro de 2026, é um dia para celebrar justiça e paz entre os povos. Não exagero, apenas contraponho ao que ocorre em outras datas nas quais um dos maiores vilões do mundo, Donald Trump se encontra com líderes mundiais para destilar seu “veneno bélico”. A data de 21 de setembro em Nova York ficará marcada pela singeleza e simbolismo do encontro entre dois líderes, que emana cordialidade e justiça.  Levaram-me a um outro patamar, onde imaginei o ressurgimento de uma utopia por muitos já abandonada e esquecida. No entanto, entrever o ressurgimento dessa utopia sinalizou o fato de que as grandes ideias nunca morrem de verdade; elas apenas hibernam.

Esse encontro entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o prefeito de Nova York, Zohran Mamdani tem, portanto, um forte significado político e simbólico. Encontro que ocorreu na residência do representante do Brasil junto à ONU, solicitado pelo próprio Mamdani. Às vésperas da abertura da 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas, a última sob o comando do português António Guterres, um acontecimento que ultrapassa os limites de Nova York e até mesmo as fronteiras dos Estados Unidos.

Mamdani assumiu a prefeitura de Nova York recentemente, em janeiro de 2026. Como Lula teve o cuidado de dizer durante a reunião, o jovem de apenas 34 anos terá uma vida pela frente para levar a cabo uma liderança essencial e ir adiante com a missão de cumprir suas promessas de campanha, especialmente em torno do bem estar das novaiorquinas e dos novaiorquinos. O primeiro prefeito muçulmano de Nova York e o mais jovem a comandar a cidade em mais de um século não economizou palavras elogiosas ao presidente Lula, a quem considera como uma inspiração na defesa dos trabalhadores e das pessoas mais pobres.

Ele é muito jovem. E deve ter uma causa muito forte que o levou a ser prefeito. Ele não pode perder em nenhum momento o discurso que ele fez para ganhar as eleições. Nesse momento histórico, a minha luta é para ver se conseguimos dignificar a humanidade contra o desprezo e o esquecimento que as lideranças do mundo têm contra o povo pobre, disse Lula.

O simbolismo desse encontro histórico pode ser visto justamente no contraste entre as trajetórias e, ao mesmo tempo, na convergência de algumas preocupações que ambos têm com a pobreza, o custo de vida, a desigualdade, a proteção dos trabalhadores e a defesa da democracia. Temas que fizeram parte das conversas entre os dois que também giraram em torno de políticas destinadas às populações mais vulneráveis e sobre o enfrentamento do extremismo político.

É um encontro de duas almas preocupadas com problemas que extrapolam os limites de suas regiões e pertencem ao mundo. Isso acontece em um momento em que a Assembleia Geral da ONU procura discutir, exatamente, como recuperar a confiança nas instituições internacionais e enfrentar transformações globais. Uma agenda de discussões entre nações que inclui guerras, mudanças climáticas, inteligência artificial, desigualdade e tensões geopolíticas. Lula e Mamdani conversaram:

Sobre a proposta de redução da jornada de trabalho que tramita no Congresso Brasileiro, para garantir o fim da escala 6x1, possibilitando que os trabalhadores possam usufruir de dois dias livres por semana. Discutimos, ainda, a importância da defesa da democracia e do enfrentamento do extremismo e da desinformação no mundo todo. (palavras do próprio presidente!)


A conversa Lula–Mamdani pode, em um contexto tão complexo, ser vista como um símbolo da tentativa de recolocar a questão social no centro do debate político internacional: problemas como moradia cara, perda de poder de compra, precarização do trabalho e desigualdade atravessam diferentes sociedades.

Ao ver  Lula e Mamdani discursando em um mesmo pódio, na cidade de Nova Iorque à margem da reunião da ONU, no país liderado pela besta fera trumpista, o que me vem à cabeça é uma certa imagem para descrever esse encontro: dois homens de tão diversa dimensão e origem confluindo para  reacender a esperança, naquele sentido utópico que nos move e nos mostra novamente uma luz no fim do túnel. Algo que pode ter uma leitura política e simbólica que transcende qualquer conclusão objetiva sobre seus resultados. O que está acontecendo é a prova da existência de líderes, nesse confuso quadro político mundial, que enfatizam temas relacionados à redução das desigualdades, à democracia e à proteção dos mais vulneráveis em contrapartida à sede de guerra, acumulação de riqueza e desprezo pelos demais; tônica do governo estadunidense atual, sob a segunda presidência de Donald Trump (iniciada em janeiro de 2025), estruturada pela doutrina "America First" (América Primeiro). Uma administração que foca em uma postura fortemente nacionalista, de desregulamentação agressiva, controle estrito de fronteiras  e uma política externa violenta baseada no conceito de “conquistar a paz (sic!) através da força.

O tête-à-tête Lula-Zohran também evidenciou uma importante dimensão geracional sempre muito bem enfatizada por Lula ao se reportar a seu parceiro. Lula, nos altos dos seus 80 anos e Mamdani com apenas 34 se encontram num marco temporal para buscar o bem para o planeta e para a humanidade. Lula, com sua longa trajetória política, encontra uma jovem liderança que chegou à prefeitura da maior cidade dos Estados Unidos defendendo políticas voltadas ao custo de vida e à justiça social.  A imagem dos dois conversando descontraidamente, inclusive com a troca simbólica de presentes (camisas de futebol de times de Nova York e do Corínthians), acrescentou um elemento de proximidade afetiva e humana ao encontro.


 

Troca de presentes


Em uma época marcada por guerras, polarização e desconfiança nas instituições, o encontro colocou no centro da conversa questões bastante concretas da vida das pessoas — comida, moradia, trabalho, renda, democracia e dignidade, trazendo à baila preocupações comuns e autênticas aos dois líderes e humanistas.

Muito mais do que um encontro entre dois governantes, nele se vê um momento simbólico de diálogo entre gerações, mundos e ideais, nos quais política social, redução de desigualdades e defesa da democracia aparecem como temas capazes de aproximar experiências, gerações e universos tão distintos. A esperança surge não na promessa de, em um único encontro resolver todos os problemas do mundo, mas em deixar claro que é possível fazer com que grandes lideranças voltem a conversar sobre o enfrentamento de problemas reais, para tornar a vida das pessoas mais digna e menos desigual.


Antonio C R Tupinambá

Fortaleza, 21 de setembro de 2026.


sábado, 5 de setembro de 2026

A Última Sessão de Freud

 

Retornar ao teatro “clássico” é sempre um privilégio. Fazer isso com A Última Sessão de Freud, de Mark St. Germain, melhor ainda.









Sem registro histórico ou evidência documental para comprovar que Sigmund Freud e C. S. Lewis tenham se encontrado pessoalmente em vida,  Mark St. Germain cria esse encontro e o encena para nós. A obra de ficção com traços reais da vida e da obra de Freud suscita boas reflexões sobre a relação "Freud e Deus” ou melhor dito Religião e Psicanálise etc etc. De fato, a premissa dessa obra vem da imaginação do dramaturgo americano Mark St. Germain para sua peça teatral, que mais tarde foi adaptada para o cinema.

Não quero deixar aqui a impressão de que a peça valha menos a pena que o filme de mesmo título mas afirmo que antes do início, fiquei intrigado sobre como os dois e únicos atores iriam conseguir dar vida a tantos personagens que fizeram parte da história na grande tela. Anthony Hopkins, brilhante do alto dos seus 86 anos, uma potência em frente à câmera, apaixonante na sua enérgica incorporação do personagem que lhe destinaram consegue trazer algo que supera aquilo que oferece o próprio filme em termos de aprofundamento e tratamento dos contundentes temas abordados. O roteiro original foi pensado para funcionar muito bem no palco, já o sabia. A minha dúvida sobre como iriam os dois mestres da encenação dar vida a tantos personagens no tablado foi tirada pela origem teatral do roteiro e também pela maestria nessa arte de representar dos atores Odilon Wagner e Marcello Airoldi. Depois de ver a peça fiquei me pergunto se o filme teria trazido muito da história de Anna Freud para compensar o que havia sido concebido para funcionar melhor no teatro do que na tela. Pode ser, a meu ver sim. Já li críticos a dizer algo semelhante: “essa foi uma compensação para um filme que seria monótono e desinteressante não fossem as incursões compensatórias propositais, dando espaço para a história pessoal de Anna Freud, que futuramente se tornaria a “mãe da psicanálise infantil,” sem esquecer de abordar também suas questões afetivas com o pai e com sua companheira. A atriz alemã Liv Lisa Fries consegue desenvolver na tela, com esmero, a difícil tarefa de abordar as contradições de Anna e a profundidade de sua relação com o pai. Tal não aparece no teatro e, para quem assistiu antes ao filme, a forte atuação de Liv e o recorte da história de Anna no contexto faz falta mas não prejudica. Talvez porque isso é parcialmente suprido por Lewis (Marcello Arioldi) ao tratar do tema "Anna" em vários momentos da história. Anna também emerge muitas vezes na fala do pai quando trata de vários assuntos com ela ao telefone situando o espectador sobre a marcante presença que teve em sua vida nesses seus momentos finais. Claro que sem a presença da atriz alemã para lhe dar vida no palco faz falta. A quem assistiu antes ao filme especialmente; o mesmo não acontecendo, provavelmente, com quem foi primeiramente para a peça. Enfim, o roteiro não é um tratado de psicanálise ou uma encenação biográfica de Freud, mas trouxe, para mim, um recorte na medida para algum conhecimento sobre a vida pessoal dos dois autores e suas teorias, com uma boa reconstrução do período com a Segunda Grande Guerra ao fundo determinando suas vidas e, principalmente a de Freud em seu último período após sua imigração forçada em Londres. Naquela casa/consultório continua um pouco dos ares da Viena que sua filha soube reconstruir. Uma "Sehnsucht" paira no ar...

A montagem brasileira da peça foi dirigida por Elias Andreato, com o ator “global”  Odilon Wagner, como Sigmund Freud, e Marcello Airoldi, (que ao final da peça nos foi apresentado como atual secretário de cultura da cidade de Itu, São Paulo) como C. S. Lewis. Os dois conseguem formar um eixo absoluto de toda a apresentação. Como disse anteriormente, os outros personagens são apenas verbalizados e isso é suficiente para compensar sua ausência física no palco. Mais teatral, menos cinematográfico! A peça é essencialmente um confronto verbal entre dois intelectuais, o que faz a maestria teatral e a qualidade da encenação se revelarem como uma capacidade dos atores de transformar ideias filosóficas e religiosas em conflito humano, tensão, humor e emoção, sejam nas falas ou nos gestos, que nos alcançam lá nas nossas cadeiras.  Concordo com algumas críticas de “especialistas” que assistiram aos dois, filme e peça, ao identificar em ambos um conflito central, a oposição entre Freud e Lewis. Freud interpretando a religião como uma construção humana, uma espécie de resposta à nossa fragilidade diante da morte, do sofrimento e daquilo que não podemos controlar enquanto Lewis, “via St. Germain”, permitindo que seja feito o movimento inverso: “Se o desejo de acreditar em Deus pode nascer de uma necessidade psicológica, também o desejo de que Deus não exista pode ter uma origem psicológica.” Tendo-se dessa forma a suspeita freudiana podendo ser aplicada ao próprio Freud, para quem, acreditar em Deus pode funcionar como uma forma de proteção psicológica: “o ser humano projeta no universo a figura de um pai poderoso capaz de oferecer segurança”, o que é sustentado pelo "cientista" sem se deixar controlar pelas cobranças de pessoas a seu redor. O que é admirável!

Seja no palco com Odilon Wagner ou nas telas com Anthony Hopkins, Freud está muito bem representado nesse momento delicado de sua vida para o público brasileiro e internacional, respectivamente. O gênio mas também o grande ser humano Freud continua sendo um dos maiores do século XX, respeitado e insubstituível.









Antonio C. R. Tupinambá

Fortaleza, 5 de setembro de 2026.


quinta-feira, 27 de agosto de 2026

27 de agosto — Dia da/o Psicóloga/o




No Brasil, o Dia da/o Psicóloga/o é celebrado anualmente em 27 de agosto. A data remete à regulamentação da profissão no país, marco fundamental para a consolidação da Psicologia como prática profissional reconhecida e regulamentada em nível nacional. É um momento propício para novas reflexões acerca da trajetória histórica, científica e social da Psicologia e sobre a relevância de seus profissionais para a sociedade nos dias atuais. Ao longo de sua história, a Psicologia ampliou significativamente seu campo de atuação. Inicialmente associada sobretudo à avaliação psicológica e à prática clínica, a profissão passou a ocupar diferentes espaços sociais e institucionais, incluindo hospitais, escolas, universidades, organizações, comunidades, serviços de assistência social, sistema de justiça e até mesmo espaços de políticas públicas. Essa expansão demonstra que o conhecimento psicológico  evoluiu e não ficou restrito ao tratamento de transtornos mentais, abrangendo também processos de desenvolvimento humano, aprendizagem, relações sociais, trabalho, saúde e qualidade de vida. 27 de agosto de 2026, passadas mais de seis décadas desde a regulamentação nacional da profissão de psicóloga/o, é, portanto, uma data propícia para avaliar como a Psicologia vem contribuindo para melhorar as experiências humanas em diversas perspectivas e contextos que requerem cada vez mais estudos e práticas comprometidos com a promoção da qualidade de vida e com a emancipação humana. Trata-se de ações dos profissionais de psicologia que ainda são pouco conhecidas, mas reveladoras dos esforços permanentes de uma ciência, que nasceu e evoluiu com a missão de ajudar a compreender e lidar, sobretudo, com o sofrimento humano. Há problemas emergentes no mundo hodierno como crises ou comportamentos que rompem o equilíbrio e geram desorientação, conflito ou instabilidade social, política ou psicológica, atingindo não somente, mas principalmente a parte mais fraca do tecido social, i.é., o cidadão comum. Esses problemas passaram a fazer parte do rol de preocupações e tarefas a serem consideradas pelos psicólogos nas suas diferentes áreas de atuação. Com o reconhecimento da grandeza do profissional de psicologia, aproveitamos o ensejo para parabenizar todas/os as/os profissionais de psicologia que contribuem com a difícil e nobre missão de promoção da saúde e do bem-estar humano nas mais  diversas situações e condições. Ao cumprir sua missão com a responsabilidade e o comprometimento exigidos pelo seu trabalho, viabilizam uma busca contínua de compreensão e abordagem da natureza humana, o que traz inquestionáveis benefícios ao indivíduo e à sociedade.

Antonio C. R. Tupinambá

Psicólogo e Professor

Fortaleza, 27 de agosto de 2026.