POLIS

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O projeto nasce com foco no comportamento político nas sociedades contemporâneas e nos efeitos dos movimentos sociais e políticos atuais sobre as liberdades e processos emancipatórios, bem como seus impedimentos em escala local, nacional e global. Tem por objetivos o desenvolvimento de um campo interdisciplinar de reflexão e prática investigativa e divulgadora, reunindo debates em torno de questões como: preconceito, racismo, sexismo, xenofobia, movimentos sociais, violência coletiva social, relações de poder, movimentos emancipatórios de povos e nações, valores democráticos e autoritarismos, laicidade, análises de discursos e ideologias, de universos simbólicos e práticas institucionais. Nessa perspectiva, o Polis atua desde sua criação formal em 2013, como projeto de extensão e em 2015 como Blog para divulgação e atualização.

sexta-feira, 24 de junho de 2022

Por que salvar Assange?

 




Ouvem-se gritos de protesto ao redor do mundo clamando pela liberdade de Julian Assange. Se esses gritos não ecoarem pelas frias salas dos tribunais londrinos, o jornalista que expôs as grandes mentiras do governo norte-americano poderá descer ao inferno do país que brada contra os males alheios mas perpetra, à luz do dia, crimes contra a humanidade. Literalmente, como já dizia John Pilger em 2020: "um juiz britânico poderá despacha-lo, ao canto mais sombrio do inferno prisional norte-americano”.(1) A morte em vida do jornalista australiano será decretada caso essa decisão ocorra e a extradição se concretize. O WikiLeaks de Julian Assange, ainda segundo seu conterrâneo e repórter John Pilger, está longe de ser o primeiro meio de denúncias dos crimes que cometem as autodenominadas “democracias”, principalmente aquelas como a norte-americana, que se quer como paladina da justiça e da verdade, vetor do bem no mundo. O padrão de criminalidade desses senhores do universo permanece tão igualmente voraz quanto o foi em tempos remotos, quando ainda não existiam ferramentas digitais e a mentira era contada e propagada de outras formas. O grande feito da organização editorial fundada por Julian Assange foi oferecer as provas de que esses discursos prodemocracia eram falaciosos.(2) Assange publicou no WiliLeaks vários documentos que comprovavam crimes de guerra, violações de direitos humanos e espionagem cometidos em diversos países pelos Estados Unidos e aliados, apresentando provas do imperialismo americano com consequências severas para relações diplomáticas entre os EUA e alguns países do mundo: "No Brasil, foram evidenciados casos de espionagem da ex-presidenta Dilma Rousseff e seus ministros, além da espionagem da Petrobras, motivada pelo interesse estadunidense na tecnologia para exploração do pré-sal… No último 25 de fevereiro [2022], ativistas e militantes organizaram atos simbólicos em seis capitais brasileiras, integrando o Dia Internacional de Mobilizações para Liberdade de Assange, que contou com manifestações em outros seis países para a entrega de cartas direcionadas a embaixadas e consulados dos EUA e Inglaterra pedindo a soltura de Assange".(3) A marcha em defesa de Assange em 2020 que percorreu as ruas de Londres, saindo da Australia House à Praça do Parlamento, o centro da democracia britânica, trazia consigo uma determinada simbologia geopolítica e histórica: unia as duas nações (Austrália e Reino Unido) corresponsáveis pelo que ocorreu até se chegar à condenação e iminente extradição de Julian Assange. Não é com Assange a primeira vez que os dois governos se unem em seus desmandos e desrespeito aos direitos humanos. Em conluio com outros países ocidentais já foram responsáveis por outras mentiras que custaram vidas e soberania em outras regiões. Exemplos mais emblemáticos se encontram nas tentativas de desvio da narrativa histórica e construção de "verdades" sobre a guerra para a extorsão, apoio a saques e matanças nos quatro cantos do mundo: "Nós, australianos, temos servido o Grande Jogo por muito tempo. Tendo devastado nossos povos indígenas, por meio de invasões, guerras e atritos que até hoje não cessaram, derramamos sangue por nossos senhores imperiais na China, Rússia, Oriente Médio, Europa e Ásia. Nenhuma aventura imperial contra aqueles contra quem não temos nenhuma desavença deixou de ter nossa dedicação”.(4) Em tempos mais recentes, no Vietnã, Timor-Leste ou Iraque a mentira foi a ferramenta mor de sustentação das incursões imperialistas modernas. No Timor-Leste, a Austrália agiu com maestria por meio da espionagem ilegal, nas negociações que visavam tão somente apoderar-se do petróleo e gás do país indefeso. Austrália e Reino Unido se juntaram aos Estados Unidos para tornar “verdade” a narrativa de que Saddam Hussein possuía armas de destruição em massa, cooptando assim aliados ocidentais para reforçar uma invasão ao país. No Vietnã a Austrália mentia para tentar convencer seu povo de uma nobreza em seus atos bélicos, ao dizer que o envio de suas tropas à guerra dos americanos se fazia a convite do governo local. Os donos do poder constroem e divulgam seu simulacro de “verdade" para manipular e tentar controlar mentes e pessoas. O WikiLeaks revelou esse lado obscuro das falsas democracias. É por isso que Assange encontra-se hoje numa prisão londrina, enfrentando acusações políticas fabricadas nos Estados Unidos. Corroboramos com Pilger ao afirmar que Assange, ao criar e desenvolver o WikiLeaks, estabelece um jornalismo investigativo sem precedentes no mundo digital enquanto se aventurava nos centros do poder, tornando públicos crimes de guerra dos EUA, antes ocultos, o que resultou em uma implacável perseguição, desonesta e duradoura. "Por trás da ação organizada de Estados Unidos e Inglaterra para a perseguição, extradição e prisão de Assange, vemos por parte desses países a tentativa de esconder do mundo seus próprios crimes. Além de um claro desrespeito ao direito internacional, na tentativa de extraditar um homem de nacionalidade australiana do Reino Unido para os Estados Unidos, sem nenhuma justificativa plausível. Julian Assange teve a coragem de enfrentar o império e publicar relatos das atrocidades cometidas pelos EUA em diversos países, e por isso organizações de todo o mundo estão há anos lutando por justiça e exigem a sua liberdade e o direito à liberdade de imprensa”.(5) Como afirma o jornalista alemão Günter Wallraff, “o caso de Assange saiu direto de um livro de inteligência. Os processos contra ele por suposta má conduta há muito foram interrompidos…”,(6) no entanto a opinião pública continuou a ser manipulada para que sua prisão pudesse ser vista como necessária e justificada. "Então ele foi transformado em um leproso, um demônio egocêntrico, um monstro. Isso também afastou as pessoas que simpatizavam com o WikiLeaks”. De onde poderia vir uma pressão internacional sobre o governo americano para livrar Assange de sua “morte em vida”? Para sua própria família, que luta incansavelmente buscando evitar sua extradição e alcançar sua liberdade, essa pressão deveria vir especialmente de uma nação com força política internacional como a Alemanha; país com grande relevância estratégica e geopolítica na União Europeia e na OTAN.  No entanto não se pode esperar muito dessa interferência alemã a favor da libertação ou pelo menos da não extradição de Assange, quando o porta-voz do governo, Steffen Hebestreit cria uma restrição diplomática ao dizer que se trata de uma decisão do sistema legal britânico e, portanto, o governo alemão não pode emitir opinião ou mudar a decisão. As esperanças que a família de Assange tem do governo alemão solicitar a Joe Biden a retirada das acusações contra si estão enfraquecidas, quando se constata uma relutância em se oficializar apoio público ou quando se observa a mudança de postura dos políticos ao longo do tempo. Tobias Schulze afirma que John Shipton, pai do australiano já vivenciou a mudança no apoio dos partidos políticos ao filho antes e depois de assumirem o poder: primeiro apoiam Assange, mas com o tempo, assim que passam a fazer parte do poder, a questão se torna algo “delicado" para eles. Na Alemanha, "antes de ingressar no governo federal, os Verdes eram muito mais expressivos em seu apoio a Assange do que são hoje".(7) O establishment e os interesses políticos imediatos mudam também as possibilidades de se agir com independência e determinação em casos como o de Assange. Some-se a isso o fato da Alemanha ter se tornado uma espécie de “colônia" moderna norte-americana, submissa e dependente. Sevim Dagdelen, presidente do Grupo de Esquerda na Comissão de Relações Exteriores e porta-voz da política internacional cobra uma ação mais direta do governo alemão no caso: "A ministra federal das Relações Exteriores Annalena Baerbock 'não pode mais e não deve se esconder atrás da referência à sua confiança no Estado de direito britânico'. A perseguição a Julian Assange é politicamente motivada e deve acabar. O governo de coalisão atual (Ampel-Regierung) deve 'oferecer asilo político ao dissidente do ocidente Julian Assange na Alemanha como um gesto concreto de solidariedade e assim deixar claro: jornalismo não é crime. Não são aqueles que revelam crimes de guerra que pertencem à prisão, mas aqueles que os cometem e são responsáveis ​​por eles”.(8) Em nota conjunta a Federação Internacional de Jornalistas e as Federações Europeias de Jornalistas afirmam: "Enviar Julian Assange para os Estados Unidos é um 'verdadeiro golpe' para a liberdade de imprensa” O comunicado ainda destaca que "Assange está detido em uma prisão de segurança máxima nos arredores de Londres por mais de três anos, 'apesar dos riscos à sua saúde mental e física'”.(9) Terão as manifestações populares força para que a descida de Assange ao inferno que lhe espera nos Estados Unidos não se consuma, conseguindo sobrevida para uma nova etapa de luta pela liberdade? Após a chancela do judiciário britânico e a ministra do Interior do Reino Unido, Priti Patel, autorizar a extradição só resta à defesa do jornalista tentar apelar novamente, apesar da iminente extradição. Nos Estados Unidos lhe espera uma sentença de reclusão por 175 anos. Como afirma o Wikileaks: "Um dia sombrio para a liberdade de imprensa e para a democracia britânica”. Pela revogação dessa decisão e para que a luta pela libertação de Assange continue, deve se expressar nosso engajamento. Cidadãos do mundo uni-vos e não nos deixemos convencer por pretextos frágeis, estratégias de propaganda norte-americana em uma guerra planejada, disfarçada de justa. Não podemos permitir que mais esse golpe à liberdade de expressão ocorra impunemente.  


Anexo: 

Carta aberta da mãe de Julian Assange (10)


Por CHRISTINE ASSANGE*

Muitas pessoas ficaram traumatizadas ao ver uma superpotência vingativa que usa os seus recursos ilimitados para intimidar e destruir um indivíduo indefeso

Não suporto que tudo fique parado diante de tanta injustiça.

Cinquenta anos atrás, quando dei à luz pela primeira vez, uma jovem mãe, pensei que não poderia haver dor maior do que a dor do parto, mas logo a esqueci quando segurei meu lindíssimo bebê entre os braços. Eu o chamei de Julian.

Agora percebo que me enganei. Há uma dor maior.

A dor incessante de ser mãe de um jornalista premiado que ousou publicar a verdade sobre crimes governamentais de alto escalão e sobre corrupção.

A dor de ver meu filho, que procurou publicar verdades importantes, infamado em todo o mundo.

A dor de ver meu filho, que arriscou a vida para denunciar a injustiça, preso e privado do direito a um processo justo repetidas vezes.

A dor de ver um filho saudável ir se  deteriorando lentamente porque lhe foram negados cuidados médicos e de saúde adequados em anos e anos de cárcere.

A angústia de ver meu filho submetido a cruéis torturas psicológica, na tentativa de quebrar o seu imenso espírito.

O pesadelo constante de que ele seja extraditado para os Estados Unidos e depois passar o resto de seus dias sepultado vivo em total isolamento.

O medo constante de que a CIA pudesse executar seus planos de matá-lo.

A onda de tristeza quando vi seu corpo frágil cair exausto por causa de um leve derrame na última audiência devido ao estresse crônico.

Muitas pessoas ficaram traumatizadas ao ver uma superpotência vingativa que usa os seus recursos ilimitados para intimidar e destruir um indivíduo indefeso.

Quero agradecer a todos os cidadãos honestos e solidários que protestam globalmente contra a brutal perseguição política que Julian padece.

Por favor, continuem a levantar a voz para os seus políticos até que isso seja tudo o que eles vão ouvir.

A sua vida está em suas mãos.

*Christine Assange é mãe do fundador de Wikileaks.

Tradução: Anselmo Pessoa Neto.


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(1) Pilger, J. A última chance de salvar Julian Assange. Diaponível em: https://outraspalavras.net/movimentoserebeldias/a-ultima-chance-de-salvar-julian-assange/. Acesso em: jun. 2022.

(2) idem

(3) Artigo: Pela liberdade de imprensa e pela verdade dizemos: Assange Livre já! Disponível em: https://mst.org.br/2022/04/11/artigo-pela-liberdade-de-imprensa-e-pela-verdade-dizemos-assange-livre-ja/. Acesso em: jun. 2022.

(4) Pilger, J. A última chance de salvar Julian Assange. Diaponível em: https://outraspalavras.net/movimentoserebeldias/a-ultima-chance-de-salvar-julian-assange/. Acesso em: jun. 2022.

(5) Artigo: Pela liberdade de imprensa e pela verdade dizemos: Assange Livre já! Disponível em: https://mst.org.br/2022/04/11/artigo-pela-liberdade-de-imprensa-e-pela-verdade-dizemos-assange-livre-ja/. Acesso em: jun. 2022.

(6) Wallraff, G. „Ein Tod auf Raten“. Disponível em: https://taz.de/Guenter-Wallraff-ueber-Julian-Assange/!5844317/. Acesso em: jun. 2022.

(7) Schulze, T. Hoffen auf Deutschlands Hilfe. Disponível em: https://taz.de/Auslieferungsantrag-fuer-Assange/!5859476/. Acesso em: jun. 2022.

(8) Maier, M. Assange mit dem Rücken zur Wand - und die Bundesregierung stammelt wirres Zeug. Disponível em: https://www.berliner-zeitung.de/welt-nationen/assange-mit-dem-ruecken-zur-wand-und-die-bundesregierung-stammelt-wirres-zeug-li.237528. Acesso em: jun. 2022.

(9) Schmidt, T. Extradição de Assange é "terrível precedente", diz Federação Internacional de Jornalistas. Disponível em: https://www.brasildefato.com.br/2022/06/17/extradicao-de-assange-e-terrivel-precedente-diz-federacao-internacional-de-jornalistas. Acesso em jun. 2022.

(10) Carta aberta da mãe de Julian Assange ao mundo: "Pesadelo constante". Disponível em: https://www.brasildefato.com.br/2021/12/30/carta-aberta-da-mae-de-julian-assange-ao-mundo-pesadelo-constante. Acesso em: jun. 2022.

sexta-feira, 15 de abril de 2022

De Nobel da Paz a Senhor da Guerra

 


Na região norte da Etiópia uma guerra civil está em curso há quase dois anos. À frente das ações bélicas, pasmem, o prêmio Nobel da Paz, Primeiro Ministro etíope Abiy Ahmed. No artigo  intitulado “Os impactos do conflito na Etiópia sobre populações civis da região”(1) de Luiza Batista Ferreira, uma análise sobre a desesperança dos que pensavam que a paz e a prosperidade econômica chegariam à Etiópia após o Primeiro Ministro assumir o cargo em 2018: "Embora a posse de Abiy tenha sido encarada como uma proposta de renovação para a Etiópia, o ministro já era membro do antigo governo, que ocupava o poder desde 1993, e realizava um papel de oposição interna no poder público. Suas principais promessas de campanha eram a soltura em massa de presos políticos do país, o aumento de liberdades para a sociedade civil e, principalmente, a realização de eleições livres e democráticas. Ainda que tenha cumprido algumas dessas propostas após tornar-se primeiro-ministro, como a libertação de presos políticos, Abiy não mudou consideravelmente sua posição em relação à sociedade civil e tampouco convocou eleições, adiando-as em razão da pandemia de COVID-19. O grande trunfo de Abiy foi pôr fim à guerra com Eritreia, questão que se alongava desde 1998, quando o conflito começou e deixou mais de 80 mil mortos em poucos anos. A assinatura do acordo de paz entre Abiy e o presidente da Eritreia,  Isaias Afwerki, levou o etíope a receber o Nobel da Paz de 2019 e o colocou em uma posição de destaque internacional como político promissor para o continente africano. Pouco tempo após receber o Nobel, os conflitos étnicos na Etiópia intensificaram-se novamente e ficou claro que esse seria o maior desafio de Abiy enquanto ministro: conciliar o seu próprio projeto de fortalecimento da unidade nacional com as demandas das dez principais etnias que vivem no país. É válido lembrar que Abiy faz parte do povo Oromo, maior grupo étnico do país, que há tempos luta por maior autonomia da região de Oromia e mais representatividade política no governo federal. Outro grupo étnico envolvido em conflitos são os Tigrés, que ocupam a região do norte da Etiópia - de nome Tigré ou Tigray. Os Tigrés não compõem uma grande parcela da população do país, embora tenham governado a Etiópia por mais de 20 anos, até fevereiro de 2018, quando o então primeiro ministro, Hailemariam Desalegn, demitiu-se. Após a saída de Desalegn, Tigrés passaram a ser sistematicamente exonerados de cargos públicos”.

Os ataques violentos na região separatista nasceram de uma campanha militar bem articulada muito antes de que a guerra eclodisse. Movimentos clandestinos de tropas, meses de preparação silenciosa para uma guerra que segundo os planos de Ahmed deveria ser rápida e sem repercussão negativa internacional. O ditador da vizinha Eritréia que já tinha um "longo e amargo rancor" contra a Frente de Libertação do Povo Tigray, grupo revolucionário que luta pela autonomia regional, viu na guerra uma oportunidade de vencer seus rivais. Atualmente, vários bloqueios impedem o acesso de ajuda humanitária para os mais de sete milhões de tigrés, muitos impedidos de deixar a região, sofrendo ataques indiscriminados, assassinatos, expulsão de suas casas, além de violência sexual. "A população da região de Tigray, no extremo norte da Etiópia, enfrenta fome, falta de água potável, medicamentos, saneamento básico e atrocidades sexuais em massa, alerta o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). Informes do último mês apontam que a região estaria à beira da fome e do genocídio. […] 'Vivendo em acampamentos lotados, crianças e famílias precisam urgentemente de comida, abrigo e água potável (...). Imunizações foram paralisadas, instalações de saúde e água foram danificadas ou destruídas e suprimentos essenciais foram saqueados', disse o comunicado do Unicef”.(2) É como se houvesse uma aprovação oficial vinda de Adis Abeba, sede do governo do país, para que forças ligadas ao regime promovam uma campanha de limpeza étnica no Tigray. Ataques organizados por grupos paramilitares oriundos da região vizinha, Amhara, são levados a cabo com aval do governo, que não quer negociar com lideranças locais. Milícias de Amhara se uniram às forças armadas etíopes e a outros aliados para forçar a rendição incondicional do Tigray, e submete-lo sem negociação ao poder central em Addis Abeba. União Africana, governos de países vizinhos e representantes da ONU  devem pelo menos tentar, conjuntamente, dar uma chance às negociações, exercer alguma influência sobre Addis Abeba para conter essa campanha de limpeza étnica e de extermínio do povo tigré. Esse povo tem o direito de regressar a suas casas com segurança e obter uma resposta firme para os crimes hediondos que têm sido cometidos, impossibilitando uma negociação justa sobre o status político da região. Em vez disso, testemunha-se a negativa de grupos paramilitares e autoridades constituídas de Amhara a pelo menos permitir a entrada de ajuda humanitária a civis do Tigray. O fechamento de estradas impossibilita que suprimentos e combustível cheguem à região, o que obriga as diferentes organizações de ajuda humanitária a interromper seu trabalho. Também em Mekelle, capital do Tigray, os efeitos macabros das ações paramilitares, a escassez de víveres, medicamentos e até mesmo de água potável vem, como em toda a região, trazendo o aumento da fome e do desespero na população. Parece que o abuso dos civis, maiores vítimas no fogo cruzado dessa guerra insólita que continua a se desenrolar na Etiópia, não vem sensibilizado a comunidade internacional que atualmente tem seus olhos voltados quase exclusivamente para a invasão russa na Ucrânia. 



Fortaleza, 15 de abril de 2022.
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(1) FERREIRA, L. B.Os impactos do conflito na Etiópia sobre populações civis da região.  Disponível em: <http://petrel.unb.br/destaques/117-os-impactos-do-conflito-na-etiopia-sobre-populacoes-civis-da-regiao>. Acesso em 15 abr. 2022.
(2) Conflito na Etiópia deslocou 220 mil pessoas e pode levar a genocídio. Disponível em: <https://www.brasildefato.com.br/2021/02/19/conflito-na-etiopia-deslocou-220-mil-pessoas-e-pode-levar-a-genocidio.> Acesso em: 15 abr. 2022.



terça-feira, 12 de abril de 2022

Na Palestina, a questão LGBT+ é sinônimo de rejeição, hostilidade e violência física

  

                                    Foto: cartaz do filme “Os homens invisíveis” de Yariv Mozer (2012).




Os britânicos deixaram um rastro de discórdia, miséria moral e insensatez por onde passaram como colonizadores. “Donos do Mundo” por muito tempo, levaram seus costumes e hipocrisia moral para implantar em terras estrangeiras, destruindo culturas locais e escrevendo leis ancrônicas e perversas. Deixaram para trás um legado maldito que repercute até os dias de hoje, mesmo em territórios sobre os quais há muito tempo já não têm poder de colonizador ou qualquer relação de mando político ou diplomático. Quando eram senhores da Palestina, importaram do próprio código penal do Reino Unido a condenação à atividade sexual entre pessoas do mesmo sexo. Na legislação palestina atribuíram uma pena máxima de dez anos de prisão a esses casos. A lei é até hoje mantida em vigor em Gaza, ainda que noutras partes do território palestino não tenha a mesma valia. A notícia mais evidente de que tal lei seja aplicada traz o caso de um escritor que no ano de 2017 foi ameçado por publicar um romance que incluia temas LGBT+: "Em fevereiro, o procurador-geral palestino decidiu processar  o escritor Abbad Yahya, proibindo seu romance Crime em Ramallah e acusando-o de ameaçar a moralidade e a decência pública”.(1) O romance explora temas de política, religião e homossexualidade através de seus protagonistas. No entanto, sabe-se que ainda hoje a Palestina pode se tornar um inferno para quem se assuma gay em seus domínios. A perseguição vai além se suas fronteiras e se estende a pessoas que consigam fugir para Israel, onde continuam vulneráveis e sob ameaça de deportação e retorno à sua região de origem, quando lhe esperam, na maioria das vezes, se não a fúria da justiça local, aquela de parentes raivosos que querem se livrar do “mal" que se abate sobre a família na figura do “pervertido" fugitivo. Essa punição pode resultar na morte da vítima de homofobia, muitas vezes pelas mãos de parentes próximos, sem necessitar chegar a uma punição formal pelas autoridades locais. A exemplo do que se vê em outros países muçulmanos onde a criminalização de conduta sexual entre pessoas do mesmo sexo, ainda que entre maiores e consensual, leva sempre a reações violentas, discriminação, culminando com assassinato. No Irã testemunhou-se em 2021 o caso revoltante do sequestro de Alireza Fazeli Monfared pelos próprios parentes na cidade de Ahvaz para a seguir ser morto e ter seu corpo abandonado em uma rua qualquer. Num círculo vicioso, o assédio que Alireza Monfared sofria já há vários anos não foi por ele e outros companheiros denunciado por medo de enfrentar maior violência por parte das autoridades que deveriam protege-los. Segundo a Anistia Internacional, "pessoas LGBT+ no Irã enfrentam discriminação generalizada, vivem com medo constante de assédio, prisão e processo criminal e permanecem vulneráveis à violência e perseguição com base em sua orientação sexual e identidade de gênero reais ou percebidas. De acordo com o Código Penal Islâmico do Irã, a conduta sexual consensual entre pessoas do mesmo sexo é criminalizada e punida com penas que vão do açoitamento à pena de morte”.(2) Apenas por ser percebida, baseada em estereótipos e preconceitos, uma pessoa pode correr risco de morte nessas sociedades que se deterioraram com o passar dos anos, tornando-se um exemplo de intolerância e antidemocracia, um perigo para qualquer pessoa que não reze na cartilha dos fundamentalistas intolerantes e seus seguidores. Os horrores continuam atuais nas teocracias muçulmanas. Ainda no Irã, Mehrdad Kaimpour e Farid Mohammadi, ambos com 32 anos haviam sido preso há seis anos, acusados de prática de relações homossexuais, sendo por isso condenados à morte por enforcamento no mês de janeiro de 2020. Conforme afirma Peter Tatchell(3), ativista LGBT+ e de direitos humanos, o Irã, juntamente com outros onze países de maioria muçulmana, aplica a lei da Sharia e impõe a pena de morte para pessoas LGBT+. Na Palestina essas pessoas têm direitos básicos negados e quando conseguem fugir para Israel vivem na clandestinidade e, em regra, têm seus pedidos de asilo rejeitados. Essa realidade para gays em Israel e na Palestina os torna pessoas inexistentes nos dois Estados. Resta, se conseguirem chegar a Israel, solicitar por meio de ONGs de apoio, asilo humanitário em terceiros países, na maioria das vezes no continente europeu. Localizada em Jerusalém, a organização de direitos humanos "alQaws for Sexual & Gender Diversity in Palestinian Society", é uma organização da sociedade civil  que tenta contribuir "para a construção de uma sociedade palestina vibrante e justa que celebre as diversas sexualidades, orientações sexuais e gêneros”. Uma missão nobre mas de difícil realização face à realidade homofóbica e extremista da sociedade palestina. Não por menos, apesar de tratar exclusivamente dos direitos dos palestinos LGBT+, a organização se localiza em Israel e não na Palestina. Para os burocratas e extremistas locais, uma organização como a alQaws não passa de um alvo a ser combatido em nome da preservação de “ideais e valores da sociedade palestina”. A negação da existência de pessoas gays palestinas e o combate aos que insistam em protege-los ou evidenciar sua existência, seja assumindo-se publicamente gay ou apoiando aqueles que ousem “sair do armário” e fugir ao código heterossexual, são práticas comuns e aceitas pelas autoridades e famílias palestinas. Negar o óbvio em nome da hipocrisia, manutenção de costumes e leis draconianas fazem parte do dia a dia da sociedade palestina. Como afirmou a alQaws em nota contra as intimidações e ameaças da polícia a seus membros, a polícia e a sociedade palestina em geral deveriam "se concentrar no combate à ocupação e outras formas de violência que destroem o tecido sensível de nossa sociedade [palestina] e valores, em vez de processar ativistas que trabalham incansavelmente para acabar com todas as formas de violência”.(4) Forçados a procurar abrigo em Israel e tendo consequentemente a permanência recusada por serem considerados estrangeiros, palestinos que são submetidos a tortura e ameaçados de morte por sua sexualidade em sua terra natal continuam sendo muitas vezes perseguidos e chantageados também em solo israelense: Se você é gay e conhece alguém que conhece uma pessoa procurada pela polícia israelense, ela tratará de tornar sua vida miserável até que obtenham o que creem você poder informar, quer seja possível ou não. Enfim, fugir para Israel pode ser interpretado como uma traição à causa palestina, enquanto permanecer em território palestino não significa, necessariamente, uma garantia de sobrevida, pois continuarão catalogando quem for gay como pessoa suspeita. Os homens gays palestinos arriscam suas vidas na tentativa de cruzar a fronteira para Israel, onde, apesar de todos os riscos, alegam se sentirem mais seguros entre os israelenses do que com seu próprio povo. No meio da rivalidade dos dois Estados há um fosso no qual os gays palestinos se precipitam em busca de uma liberdade que dificilmente conquistarão.


Fortaleza, 12 de abril de 2022.

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(1) Palestine.Disponível em: <https://www.humandignitytrust.org/country-profile/palestine/>. Acesso em: abr. 2022.

(2 )rã: Assassinato de homem gay destaca perigos de abusos sancionados pelo Estado contra pessoas LGBTI. Disponível em: <https://www.amnesty.org/en/latest/news/2021/05/iran-murder-of-gay-man-highlights-dangers-of-state-sanctioned-abuses-against-lgbti-people/>. Acesso em: 31 jan. 2022.

(3)  Weinthal, B. O regime do Irã executou dois homens com base em acusações anti-gay. Disponível em: <https://www.jpost.com/breaking-news/article-695006>. Acesso em: 31 jan. 2022.

(4) Palestine.Disponível em: <https://www.humandignitytrust.org/country-profile/palestine/>. Acesso em: abr. 2022.

terça-feira, 15 de março de 2022

Taiwan: a próxima vítima?

        Taipei (Taipé). Capital de Taiwan.


    Os portugueses foram os primeiros europeus a chegarem a Taiwan, ilha no Oceano Pacífico localizada a sul da China, hoje uma república e uma das poucas democracias consolidadas naquela região. Ao chegarem à ilha cheia de belezas naturais, não por acaso batizaram-na de Formosa. A região despertou, posteirormente, o interesse de outras nações estrangeiras desde que os portugueses anunciaram ao mundo a sua "descoberta": holandeses, britânicos, norte-americanos, japoneses e chineses. Hoje Taiwan se constitui uma nação moderna, com economia e governo sólidos, um bem sucedido modelo sócio-econômico, não por menos denominado “modelo Taiwan”, almejado por muitos países da região. Não só a natureza deslumbrante da ilha, mas também seu modelo de urbanização e os polos tecnológicos extremamente desenvolvidos com altos investimentos em educação tornam o país um lugar atrativo para investidores estrangeiros. Ademais, os “formosinos”, como em português são denominados seus habitantes, terminaram, por conta de sua posição estratégica, tanto geográfica quanto política, servindo de ponte para o comércio e o investimento proveniente da China, além de facilitar a grande expansão comercial e cultural para o lado do Ocidente, o que lhes trouxe grande benefício econômico. Apesar de continuar demonstrando características admiráveis, Taiwan já não é hoje uma ilha tão formosa como aquela que despertou a curiosidade e a admiração dos primeiros europeus que lá aportaram. No entanto sua economia continua apresentando sólido desempenho, a causar  emulação  a países da Ásia-Pacífico. O sistema político local tem seu lastro numa apregoada democracia eleitoral e imprensa livre, forjando um modelo taiwanês como fonte de inspiração junto a setores dos países em desenvolvimento, tanto no que diz respeito à organização do mercado, quanto à forma de governança. 

    Como bem assinala Paulo Pereira Pinto, autor do livro "Taiwan - um Futuro Formoso para a Ilha?”, há vários condicionantes para se pensar que futuro pode estar reservado a Taiwan. Os nacionalistas de Chiang Kai-shek se refugiaram na ilha e tomaram seu controle deixando morrer o sonho de Mao Tsé-Tung de reunificacão com o continente. O país ilhéu de 23 milhões de habitantes situa-se a cerca de 200 km da costa sudeste da China, o gigante imperialista que o considera apenas mais uma de suas províncias que com ele divide "cultura, valores, hábitos e até laços familiares”, sem esquecer de uma "crescente integração econômica, que fortalece a tendência no sentido da formação de uma grande China”. Como afirmou  Luis Cunha em matéria para o Jornal Diário de Notícias de 24 de outubro de 2021, o atual presidente chinês, Xi Jinping,  que não tem data-limite para abandonar o poder, "já deixou claro que a resolução da 'questão de Taiwan', herdada da guerra civil chinesa, deverá ser resolvida até ao fim do seu mandato. Por via negocial, preferencialmente, mas em último caso por 'meios não pacíficos', um eufemismo para a intervenção armada, como estipulado na lei antissecessão de 2005. A recusa da República Popular da China (RPC) em renunciar ao uso da força para resolver definitivamente a 'questão de Taiwan' transforma aquela região do globo num potencial foco para um conflito entre a China e os Estados Unidos, o incontornável aliado de Taipé”. 

    A palavra do ditador chinês é de pouca ou nenhuma valia, haja vista o que ocorreu em Macau e Hong Kong. Os ex-territórios, respectivamente, português e britânico, foram vítimas de burla quando proposta por Pequim a solução de seu retorno à China mantendo-se um status político diferenciado: “um país, dois sistemas”. Hoje a luta pela recuperação da liberdade e justiça, em suma, a luta pela democracia em Hong Kong faz ecoar em Pequim as vozes de protesto que vêm não só dos milhões de jovens nas ruas da cidade/Estado, mas também de muitos apoiadores ao redor do mundo. Essa luta por democracia, por autonomia no modelo de "um país e dois sistemas" como negociado e que já havia sido consolidado e aceito pela população local é alvo de ataques e desrespeito por parte dos ditadores chineses. Os ativistas mascarados nas ruas de Hong Kong gritam e confrontam as tropas policiais armadas mas terminam por cair na rede lançada pelos ditadores de Pequim, se tornando vítimas da draconiana Lei de Segurança Nacional, criada para acabar com o Estado de Direito no território. A imprensa e os políticos que ainda ousem desafiar as investidas e os ataques impiedosos a mando da máquina totalitária chinesa sobre Hong Kong sentem a força da opressão e do poderio desigual que vem do continente para massacrar qualquer um que grite por liberdade ou peça respeito às leis locais. A máquina liderada pelo presidente Xi Jinping com a ambivalência e cinismo político de quem não quer ser criticado ou observado de fora, age com a truculência característica de seu regime como já o faz em outras regiões, nomeadamente o Tibete, a região autônoma de Xinjiang, no noroeste da China dos uigures e onde quer que seja questionado seu poder absoluto. Com esses meios querem calar e retirar das ruas os estudantes e seus protestos, bem como reescrever leis a sua maneira mesmo que para isso tenham que manobrar os governantes locais, substitui-los e aniquilar a oposição política. 

    Taiwan assiste ao desenrolar dos desmandos chineses em Hong Kong e oferece apoio aos que queiram se abrigar dentro de suas fronteiras, sinal claro de que os taiwaneses não querem nem aceitam a mesma falácia chinesa de “um país, dois sistemas” para seu país. Trata-se da fórmula original de Deng Xiaoping (um país, dois sistemas) que também já havia sido pensada para se chegar a uma resolução pacífica da nomeada "questão de Taiwan”: "Na cerimónia da transição de Macau para a China, Jiang Zemin considerou que essa fórmula 'desempenha e desempenhará um papel exemplar de grande relevância para a solução definitiva da questão de Taiwan'. A maioria da população taiwanesa discorda dessa avaliação. Sondagens recentes revelam que mais de 80 por cento dos taiwaneses continuam a preferir a manutenção do statu quo - nem reunificação, nem independência. Numa tentativa de atrair Taiwan para a sua órbita, Pequim promete um elevado grau de autonomia, incluindo a conservação do governo local e até das forças armadas. Mas a decisiva intervenção do governo chinês em Hong Kong, impondo uma rígida lei de segurança nacional, deixou evidente que Pequim acelerou a transição para 'um país, um sistema'. Essa decisão poderá ter implicado a impossibilidade definitiva de uma reunificação pacífica com Taiwan”.(Cunha, Diário de Notícia, 24 out. 2021). Depois da invasão da Rússia à Ucrânia, comenta-se a possiblidade da China voltar-se a Taiwan e torná-la um alvo de reconquista. Não é impossível, dada a tradição ditatorial e imperialista de Pequim, que já invadiu o Tibete e oprime os uigures na província separatista de Xinjiang, além de desrespeitar os acordos assinados com os britânicos para a manutenção do sistema de governo em Hong Kong após seu retorno à China. Resta saber se ainda hoje haveria espaço no mundo, para a realização de um projeto megalômano de reconstrução de um grande império, mesmo que, como é previsível, ao custo da destruição do povo e da ilha formosa.    


        Mapa de Taiwan (Formosa)

quinta-feira, 3 de março de 2022

FUGINDO DA GUERRA, A COR DA PELE FAZ A DIFERENÇA / AUF DER FLUCHT MACHT DIE HAUTFARBEN DEN UNTERSCHIED*



Foto: AP Photo/Petr David Josek. Refugiados da Ucrânia a caminho da Polônia no fim de semana. Diz-se que aos negros, em particular, é dificultada a travessia das fronteiras.


Cada tanque russo destruído e cada soldado russo morto aumenta a coragem dos ucranianos para resistir. E cada ucraniano morto aprofunda o ódio dos ucranianos pelos invasores. O ódio é a mais feia das emoções. Mas para as nações oprimidas, o ódio é um tesouro escondido. Enterrado no fundo do coração, pode sustentar a resistência por gerações. Para restabelecer o império russo, Putin precisa de uma vitória relativamente sem derramamento de sangue que levará a uma ocupação relativamente sem ódio. Ao derramar cada vez mais sangue ucraniano, Putin garante que seu sonho nunca será realizado. Não será o nome de Mikhail Gorbachev escrito na certidão de óbito do império russo: será o de Putin. Gorbachev deixou russos e ucranianos se sentindo como irmãos; Putin os transformou em inimigos. (Yuval Noah Harari, The Guardian, 28.02.2022)


A independência da Ucrânia veio em 1991 e com ela o direito de autodeterminação e a soberania nacional. Com a revolução de 2013/2014 foi ratificada a escolha pela democracia e o distanciamento dos algozes russos, com uma clara rejeição ao paradigma soviético de submissão e colonialismo. Internamente isso não significou a conquista de respeito, liberdade e igualdade tais quais vivenciados pela Europa; muito foi mantido do modelo russo de intolerância, desrespeito e perseguição aos cidadãos, segundo suas características e grupos a que pertencem. Como em muitos países sem estabilidade e tradição democrática, as pessoas continuaram vítimas de violência de natureza diversa, seja antissemita, xenófoba ou de extrema direita. Baseados na etnia, cor da pele, religião ou orientação sexual, os conhecidos crimes de ódio prosperaram e integraram o discurso político, midiático e social. Nas novas repúblicas que se formaram a partir do desmembramento do bloco soviético ou ainda naquelas que integravam o bloco, pouco existe em estruturas civis de apoio a vítimas desse ódio discriminatório. Muito disso explica porque países como Hungria, Polônia etc. resistem a projetos que se comprometam em combater esses crimes e promover igualdade entre os distintos grupos étnicos e sociais. A prática de direitos humanos, combate a crimes de ódio e proteção de minorias ameaçadas bem como o desenvolvimento de estratégias que criem um ambiente respeitoso nunca foi amplamente discutido ou particularmente desejado nas políticas locais, a exemplo do governo da Ucrânia. Para que se pense em um novo conceito de país, os projetos deveriam, a longo prazo, "ajudar a reduzir o número de crimes de ódio e proteger os direitos humanos de minorias ameaçadas, aumentando a conscientização no ambiente social e ostracizando os perpetradores. Por um lado, isso requer uma base sólida na sociedade civil. No entanto, tais iniciativas só podem ter sucesso no longo prazo se os órgãos governamentais também estiverem envolvidos no debate, pois é uma tarefa genuína do respectivo estado (também em nível municipal) garantir a proteção de seus cidadãos contra violência, assaltos e discriminação de terceiros”.(1) Considerado o período pós-independência, o novo país ainda cultivava, aparentemente, alguns traços de tolerância e respeito ao diferente, apresentando-se como uma sociedade relativamente aberta em face de questões étnicas e de minorias, contrapondo-se aos vizinhos do leste, principalmente à Rússia com sua vocação racista, xenófoba e homofóbica. "A autopercepção tradicional dos ucranianos é a de um povo tolerante e de mente aberta em relação às minorias étnicas e sociais. Em contraste com essa autoavaliação, no entanto, os estudos sociológicos e a observação dos desenvolvimentos sociais nos últimos anos mostram uma tendência contrária. De acordo com os estudos disponíveis, o grau de tolerância social na Ucrânia diminuiu significativamente desde a independência em 1991 e também desde a Revolução Laranja em 2004”.(2)

Não é, portanto, surpresa, quando se constata por meio das diferentes mídias que cobrem a invasão russa e a atual guerra no país, relatos de racismo durante as tentativas de diferentes grupos populacionais fugir através das fronteiras terrestres. 

Aquele mantra vergonhoso de determinados grupos políticos e sociais alemães que teria sido utilizado durante a campanha eleitoral sobre a política de refugiados “2015 não deve ser repetido”, já não se aplica nos dias de hoje "— porque quem está pedindo para entrar são os europeus, não os afegãos como no final do verão de 2021, os sírios como em 2015 ou os africanos como em todos os anos —".(3) A ativa defesa das vítimas da mais brutal guerra de agressão na Europa desde 1945 une o continente e seu povo de maneira impressionante. O povo da Ucrânia não está sendo excluído, mas calorosamente recebido e saudado, ao contrário dos sírios depois de superar a rota dos Balcãs no outono de 2015. Em 2015, os sírios que fugiram para a Hungria foram recebidos com cassetetes e arame farpado. Em 2022, os refugiados ucranianos na Hungria podem viajar de trem gratuitamente".(4)

        A guerra que ora vitima o país com as "invasões bárbaras" russas também revela o lado racista e xenófobo não tão oculto na Europa e muito evidente na Ucrânia. Nas diferentes mídias sociais o racismo na guerra é abertamente exposto e atualizado. Quando os trens param e neles tentam entrar os milhares de fugitivos das cidades em batalha, os seguranças têm a última palavra para selecionar quem pode ou não neles embarcar. Na cidade de Lviv, a oeste do país, multidões se formam em frente às portas dos vagões mas enquanto os refugiados ucranianos podem embarcar, pessoas não-europeias são deixadas de fora ou até mesmo expulsas dos vagões. Ouve-se dos seguranças: “Primeiro os ucranianos!" Nem ao fugir de uma guerra somos todos iguais. As portas da Europa estão abertas mas de forma seletiva. A cor da pele pode determinar a quem é permitida a entrada.


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(1)Schiffer, S.; Katsbert, T.; Roßmann, S. Hate Crime in der Ukraine Opfergruppen und Beratungsangebote zivilgesellschaftlicher Akteure. Disponível em: <https://www.stiftung-evz.de/assets/4_Service/Infothek/Publikationen/EVZ-Studie-Hate-Crime-Ukraine-DE.pdf>. Acesso em: mar. 2022.

(2) idem.

(3) Compare:  Gänsler, K.Dunkle Haut kann Flucht erschweren.Disponível em: <https://taz.de/Flucht-aus-der-Ukraine/!5837996/>. Acesso em: mar. 2022.

(4)Johnson, D. Auf der Flucht sind nicht alle gleich. Disponível em:  <https://taz.de/Europas-Fluechtlingspolitik/!5835227/>. Acesso em: mar. 2022.



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AUF DER FLUCHT MACHT DIE HAUTFARBEN DEN UNTERSCHIED*


    1991 erlangte die Ukraine ihre Unabhängigkeit und damit auch das Recht auf Selbstbestimmung und nationale Souveränität. Die Revolution 2013/2014 bestätigte die Entscheidung für die Demokratie und die Loslösung von den russischen Folterknechten und erteilte dem sowjetischen Paradigma der Unterwerfung und des Kolonialismus eine klare Absage. Im Inneren bedeutete dies nicht die Verwirklichung von Respekt, Freiheit und Gleichheit, wie sie Europa erfahren hat; vieles blieb vom russischen Modell der Intoleranz, der Missachtung und der Verfolgung von Bürgern aufgrund ihrer Eigenschaften und der Gruppen, denen sie angehören, übrig. Wie in vielen Ländern ohne Stabilität und demokratische Tradition wurden die Menschen weiterhin Opfer verschiedener Arten von Gewalt, sei sie nun antisemitisch, fremdenfeindlich oder rechtsextremistisch. Die bekannten Hassverbrechen aufgrund von ethnischer Zugehörigkeit, Hautfarbe, Religion oder sexueller Orientierung florierten und wurden Teil des politischen, medialen und gesellschaftlichen Diskurses. In den neuen Republiken, die nach dem Zusammenbruch des Sowjetblocks entstanden sind, oder sogar in denen, die Teil des Blocks waren, gibt es kaum zivile Hilfsstrukturen für die Opfer dieses diskriminierenden Hasses. Dies erklärt zu einem großen Teil, warum Länder wie Ungarn, Polen usw. sich Projekten widersetzen, die sich für die Bekämpfung dieser Verbrechen und die Förderung der Gleichheit zwischen den verschiedenen ethnischen und sozialen Gruppen einsetzen. Die Einhaltung der Menschenrechte, die Bekämpfung von Hassverbrechen und der Schutz bedrohter Minderheiten sowie die Entwicklung von Strategien zur Schaffung eines respektvollen Umfelds wurden in der lokalen Politik nie breit diskutiert oder besonders gewünscht, in den Regierungen, wie die Regierung der Ukraine. Um ein neues Konzept für das Land zu entwickeln, sollten die Projekte langfristig dazu beitragen, „die Zahl der Hassverbrechen zu verringern und die Menschenrechte bedrohter Minderheiten zu schützen, indem das soziale Umfeld sensibilisiert und die Täter geächtet werden. Dies erfordert zum einen eine solide Grundlage in der Zivilgesellschaft. Solche Initiativen können aber nur dann auf Dauer erfolgreich sein, wenn auch staatliche Stellen in die Debatte einbezogen werden, denn es ist eine genuine Aufgabe des jeweiligen Staates (auch auf kommunaler Ebene), den Schutz seiner Bürgerinnen und Bürger vor Gewalt, Übergriffen und Diskriminierung durch Dritte zu gewährleisten." (1) In der Zeit nach der Unabhängigkeit kultivierte das neue Land offenbar noch einige Züge von Toleranz und Respekt vor dem anderen und präsentierte sich als relativ offene Gesellschaft in Bezug auf ethnische und Minderheitenfragen, im Gegensatz zu seinen östlichen Nachbarn, vor allem Russland mit seiner rassistischen, fremdenfeindlichen und homophoben Ausrichtung. „Das traditionelle Selbstverständnis der Ukrainer ist das eines toleranten und aufgeschlossenen Volkes gegenüber ethnischen und sozialen Minderheiten. Im Gegensatz zu dieser Selbsteinschätzung zeigen soziologische Studien und die Beobachtung der gesellschaftlichen Entwicklungen der letzten Jahre jedoch einen gegenteiligen Trend. Den vorliegenden Studien zufolge ist das Maß an sozialer Toleranz in der Ukraine seit der Unabhängigkeit 1991 und auch seit der Orangenen Revolution 2004 deutlich zurückgegangen"(2).

Es ist daher nicht verwunderlich, wenn man in den verschiedenen Medien, die über die russische Invasion und den derzeitigen Krieg im Land berichten, Berichte über Rassismus bei den Versuchen verschiedener Bevölkerungsgruppen, über die Landgrenzen zu fliehen, findet. 

Das beschämende Mantra bestimmter Deutscher aus dem Wahlkampf zur Flüchtlingspolitik „2015 darf sich nicht wiederholen" gilt heute nicht mehr - denn diejenigen, die um Einreise bitten, sind die Europäer, nicht die Afghanen wie im Spätsommer 2021, die Syrer wie 2015 oder die Afrikaner wie in jedem Jahr -"(3) Das aktive Eintreten für die Opfer des brutalsten Angriffskrieges in Europa seit 1945 eint den Kontinent und seine Menschen auf beeindruckende Weise. Die Menschen in der Ukraine werden nicht ausgegrenzt, sondern herzlich aufgenommen und begrüßt, anders als die Syrer nach der Überwindung der Balkanroute im Herbst 2015. Im Jahr 2015 wurden Syrer, die nach Ungarn flohen, mit Schlagstöcken und Stacheldraht empfangen. Im Jahr 2022 können ukrainische Flüchtlinge in Ungarn kostenlos mit dem Zug reisen."(4)

Der Krieg, dem das Land jetzt durch die russische „barbarische Invasionen" zum Opfer fällt, offenbart auch die nicht so sehr verborgene rassistische und fremdenfeindliche Seite Europas, die in der Ukraine ganz offensichtlich ist. In den verschiedenen sozialen Medien wird der Rassismus im Krieg offen zur Schau gestellt und aktualisiert. Wenn die Züge anhalten und Tausende von Flüchtlingen aus den umkämpften Städten versuchen, in die Züge einzusteigen, haben die Sicherheitskräfte das letzte Wort bei der Entscheidung, wer einsteigen darf und wer nicht. In der westlichen Stadt Lviv bilden sich Menschenmengen vor den Waggontüren, aber während ukrainische Flüchtlinge an Bord gelassen werden, werden nichteuropäische Personen ausgeschlossen oder sogar aus den Wagen geworfen. Man hört vom Sicherheitspersonal: "Ukrainische Amerikaner zuerst!" Nicht einmal auf der Flucht vor einem Krieg sind wir alle gleich. Die Türen Europas sind offen, aber selektiv. Die Hautfarbe kann darüber entscheiden, wer eingelassen wird.


Literatur


* Deutsche Version von Regine Rehaag.

(1)Schiffer, S.; Katsbert, T.; Roßmann, S. Hate Crime in der Ukraine. Opfergruppen und Beratungsangebote zivilgesellschaftlicher Akteure. Verfügbar unter: <https://www.stiftung-evz.de/assets/4_Service/Infothek/Publikationen/EVZ-Studie-Hate-Crime-Ukraine-DE.pdf>. Aufgerufen März 2022.

(2) idem.

(3) Compare:  Gänsler, K.Dunkle Haut kann Flucht erschweren. Verfügbar unter: <https://taz.de/Flucht-aus-der-Ukraine/!5837996/>. Aufgerufen März 2022.

(4) Johnson, D. Auf der Flucht sind nicht alle gleich. Verfügbar unter: <https://taz.de/Europas-Fluechtlingspolitik/!5835227/>. Aufgerufen März 2022.