POLIS

POLIS
O projeto nasce com foco no comportamento político nas sociedades contemporâneas e nos efeitos dos movimentos sociais e políticos atuais sobre as liberdades e processos emancipatórios, bem como seus impedimentos em escala local, nacional e global. Tem por objetivos o desenvolvimento de um campo interdisciplinar de reflexão e prática investigativa e divulgadora, reunindo debates em torno de questões como: preconceito, racismo, sexismo, xenofobia, movimentos sociais, violência coletiva social, relações de poder, movimentos emancipatórios de povos e nações, valores democráticos e autoritarismos, laicidade, análises de discursos e ideologias, de universos simbólicos e práticas institucionais. Nessa perspectiva, o Polis atua desde sua criação formal em 2013, como projeto de extensão e em 2015 como Blog para divulgação e atualização.

terça-feira, 6 de julho de 2021

Territórios não-autônomos e países que não existem.




Na verdade, o mapa político do mundo é uma ficção. Ele nunca foi organizado, e continua não sendo. 

Fiona McConnel


Em 1999, a Assembleia Geral da ONU aprovou uma resolução criando a Semana de Solidariedade com os Povos dos Territórios Não-Autônomos. Em maio de 2021 a Semana de Solidariedade buscou, dentre outras coisas, destacar “‘a necessidade de erradicação do colonialismo, bem como discriminação racial e violações básicas de direitos humanos’".(1)

Lembrar desse povo que ainda não conquistou seu autogoverno e cujos territórios continuam fora dos mapas que conhecemos e são estudados nas escolas é essencial para viabilizar sua autodeterminação ou protege-los de eventuais desmandos colonialistas. 

A ONU define como não-antônimo aquele território “cujo povo ainda não atingiu uma medida completa de autogoverno”. Geralmente esses Territórios Não-Autônomos (Non-Self-Governing Territories - NSGT) são administrados por outros países com assento na ONU que, portanto, deveriam reconhecer os interesses dos seus habitantes e ter por obrigação promover o bem-estar de toda a população que faz parte desses territórios. "A Declaração insta os poderes responsáveis a tomar medidas para salvaguardar e garantir os direitos inalienáveis dos povos desses territórios a seus recursos naturais e manter o controle sobre o desenvolvimento futuro desses recursos".(2)





Para que se possa considerar um país, uma região precisa ter um território definido, ser habitado com algum grau de permanência, ter instituições políticas e governo próprio, ter a independência reconhecida por outros Estados soberanos e interagir diplomaticamente com outros países”.(3)


Até 2002, 54 territórios alcançaram a independência ou governo próprio. Em 2021 ainda se conta um total de 17 NSGT. Há, contudo, outros territórios/países que não estão submetidos a um governo externo e tampouco possuem assento em órgãos internacionais como a ONU. Esses países que existem de fato mas não são reconhecidos por outros, quase nunca ocupam a agenda de discussões na cena internacional. Os denominados "países que não existem”, têm menores chances de reconhecimento internacional de sua existência e autonomia, se encontram em vários continentes dentro das próprias fronteiras de países dos quais se originaram e buscam sua independência.  "Em comum, eles têm o fato de terem sido formados após conflitos e crises políticas — e, apesar disso, são autônomos e relativamente estáveis”.(4) Países com governos que permitem seu funcionamento normal, inclusive com suas próprias instituições, forte identidade nacional e com aspiração de terem sua independência reconhecida. "[…] A ausência de reconhecimento oficial desses lugares é comumente compensada por uma rica produção de símbolos de Estado”.(5)

Diferentemente dos territórios não-autônomos esses países não são oficialmente dependentes de outros governos nacionais mas não preenchem todos os critérios que são exigidos para que uma determinada região seja considerada um país de fato e de direito. Ainda que tenham pouco ou nenhum apoio externo, eles declararam sua independência e conseguem funcionar como outros países que conhecemos e se encontram na lista da ONU; tudo isso apesar de continuarem sem reconhecimento da sua soberania. Às vezes esse reconhecimento se dá de forma muito limitada, por exemplo, por países que têm interesse político e estratégico na região e se tornam espécies de protetores ou pelos pares que como eles não têm reconhecimento na comunidade internacional. Levando-se em conta o princípio de autodeterminação "que confere aos povos o direito de autogoverno e de decidirem livremente a sua situação política, bem como aos Estados o direito de defender a sua existência e condição de independente”(6) os países que não existem e os Territórios Não-Autônomos têm o direito de lutar por sua emancipação política e autonomia, se essa for a vontade de seu povo. 

Como trouxemos no texto de Fiona McConnel em epígrafe, "o mapa político do mundo é uma ficção,” e seu desenho é feito não apenas respeitando princípios de convivência e autodeterminação estabelecidos e reconhecidos por órgãos internacionais. Fosse esse o fundamento das decisões sobre a emancipação de povos e países, já seriam inerentes a essas populações de Territórios Não-Autônomos e países que não existem oficialmente as condições de emancipação e, consequentemente, a aceitação da vontade de seu povo por autonomia.  O princípio nomeado que foi utilizado pela ONU no processo de descolonização e reconhecido como norma de Direito Internacional poderia ser estendido a muitas causas de lutas por independência e autonomia nos dias atuais. "Até a Declaração de 1970, prevalecia o entendimento de que a autodeterminação era exclusiva dos povos colonizados e aos que sofreram querelas na II Guerra Mundial, aceitando parte dos juristas, com a referida Declaração, a sua aplicabilidade a todos os povos".(7) Sabe-se que, apesar do significado que o principio de autodeterminação possa ter para justificar os pleitos de diferentes povos por autonomia, o que mais tem contado é a vontade política, o poder de nações protagonistas no cenário internacional e seus interesses para se decidir sobre o formato que devem tomar as fronteiras internacionais.


Antonio C. R. Tupinambá

Fortaleza, 6 de julho de 2021.

_____________________________

(1) ONU marca Semana de Solidariedade com Territórios Não-Autônomos. Disponível em: <https://news.un.org/pt/story/2021/05/1751612>. Acesso em: jul. 2021.

(2) idem.

(3) Costa, C. Quantos países existem – e por que é tão difícil responder a essa pergunta?. Disponível em: <https://www.bbc.com/portuguese/internacional-48207606>. Acesso em jul. 2021.

(4) A estranha normalidade da vida em um país que não existe oficialmente. Disponível em: <https://www.bbc.com/portuguese/internacional-46880167>. Acesso em: jul. 2021

(5) idem.

(6) Hepp, C. O princípio da autodeterminação dos povos e sua aplicação aos palestinos. Disponível em:  <https://acervodigital.ufpr.br/handle/1884/40400>. Acesso em: jul. 2021.

(7) idem.



sábado, 3 de julho de 2021

O país onde os indígenas eram obrigados a enviar os filhos para o inferno.

 






Em 1898 já existiam 54 escolas no país dentro do modelo de “Escolas Residenciais”, o que no Brasil se assemelharia aos internatos. E era para esse tipo de escola que eram mandadas as crianças indígenas, num atentado sem limites contra suas crenças e seus costumes. Em 1946 foi registrado o número máximo de escolas: 74. E, segundo a lei, os pais que se recusassem a mandar os filhos eram punidos criminalmente. Não havia escapatória. Os indígenas eram obrigados a enviar os filhos para o inferno. (1)


Os corpos encontrados num terreno da Escola Residencial de Kamloops para Indígenas na província da Columbia Britânica trazem à tona a história colonial do país que se apresenta, atualmente, como modelo de democracia estável e exemplo para o mundo. O que custou às populações originárias do país, a construção do Canadá que se conhece hoje? O legado da colonização pode ser resumido no quadro divulgado pela imprensa e que choca o mundo: ossos de 215 crianças indígenas mortas encontrados no terreno da escola de Kamloops.  A escola foi aberta em 1890 pelo governo canadense e era dirigida pela Igreja Católica para “reeducar" crianças indígenas. Tratava-se, de fato, de um sistema oficial de sequestro de crianças para submete-las a uma educação forçada, não somente sequestrando seus corpos, mas roubando-lhes suas almas, histórias e culturas. Um processo que por um século e com requintes da mais cruel barbarie tirava as crianças de suas famílias, torturava, levando muitas delas a óbito e, aquelas que sobrevivessem, eram forçadas a abandonar completamente sua cultura original a mando de religiosos e colonizadores brancos europeus. Não se trata de algo perdido na história remota canadense. Muitas dessas escolas continuaram funcionando até 1990. A escola de Kamloops só foi fechada em 1970. Por todo o Canadá havia muitas outras, além da escola de Kamloops que desencadeou revoltas atuais na população local, havia outras, que eram também dirigidas por anglicanos, metodistas e presbiterianos.

A “educação" pela violência extrema era o método dos religiosos encarregados de cumprir, de bom grado, a missão de Estado de dizimar a cultura indígena em nome do poder branco central. Já foram documentadas cerca de 3.200 mortes de crianças nessas escolas, uma prática de genocídio pelas mãos de diferentes igrejas e do Estado.  Não bastasse isso, muitas dessas crianças eram submetidas a violências de toda a ordem, inclusive sexuais. 


Apesar da grande violação dos direitos humanos foi somente em 1996 que a última escola residencial foi fechada. Interessante destacar que esta última escola, "The Gordon Residencial School", em Saskatchewan ficou conhecida por ser uma das mais famosas em casos de abusos físicos e sexuais do Canadá. Willian Starr diretor desta escola entre 1968 e 1984 praticou crimes sexuais além de usar seu cargo para intimidação e punição para alunos que discordassem dele. Starr foi preso em 1992 confessando os crimes e cumpriu pena de apenas 4 anos e meio em prisão. (2)



A Comissão da Verdade e da Reconciliação, que trabalha no país para desvendar esses crimes, afirma que desde a invasão do Canadá "as igrejas realizavam uma sistemática ação de destruição da cultura, através da evangelização, mas a partir do ano de 1840, o estado oficialmente assume uma parceria ao criar as primeiras escolas para indígenas na cidade de Ontário".(3) Essa comissão, que trabalha para trazer à luz todos os crimes cometidos por igrejas e seus religiosos e que para isso contavam com forte apoio do Estado canadense, já credita as cerca de 3.200 mortes de crianças dentro dos seus muros, como decorrentes de maus tratos, doenças, desnutrição, abandono e suicídio: “O governo canadense manteve essa política de genocídio cultural porque queria se desvincular de suas obrigações legais e financeiras com os povos indígenas e assim poder controlar suas terras e seus recursos”, afirma a comissão. Talvez esse número seja bem maior, a Comissão presume que mais de 4.000 crianças indígenas morreram nesses internatos.

O que fazer para se reconciliar com esse tenebroso passado que ainda nos deixa perplexos nos dias atuais?  Será que...

 

[...]nunca aprendemos a fazer
o luto coletivo do que matou
e torturou muitos de nós, nunca
aprendemos a fazer a luta coletiva
contra nossa história de horror,
que permanece torturando e matando.(4)


    Ou será que o começo dessa pretensa reconciliação se deu com o pedido de perdão do Primeiro Ministro canadense?  Ele não conseguiria, mesmo que fosse essa sua intenção, ficar indiferente à onda de protestos em muitas cidades, gerada pela descoberta recente dos restos mortais de crianças na Columbia Britânica. O genocídio tem sido denunciado nas manifestações realizadas pelos movimentos sociais e por indígenas, que também, a exemplo do que ocorre em outras manifestações mundo a fora, derrubam estátuas de personagens da história ligados a atos de barbárie. No Canadá a estátua de Egerton Ryerson, localizada na Universidade Ryerson, um dos arquitetos responsáveis pela criação das escolas residenciais, foi ao chão pelas mãos dos ativistas. Mais outras duas estátuas, das rainhas Vitória e Elizabeth II, do Reino Unido, foram derrubadas na quinta-feira, dia 1º de julho.

Essas questões históricas e atuais de abusos aos povos originários das Américas atravessam as fronteiras dos países, fronteiras essas resultantes de desenhos artificiais do período colonial.  Desenhos que serviam ao colonizador europeu mas não às milhares de vidas que tinham na própria natureza suas fronteiras. Na América Latina a onda de luta dos e pelos povos indígenas que cresceu muito nos anos 1990 e visa à recuperação da memória, defesa da cultura e do direito à vida dos povos originários na região dentro de fronteiras autênticas e não políticas, está sendo frontalmente combatida. Essa ameaça vem principalmente do Brasil, cujo governo traça, abertamente, políticas genocidas e anti-indigenistas. A destruição de povos, nações e civilizações é um projeto do atual governo que o faz se aliando a invasores de terras protegidas para fins de exploração comercial. A empreitada para tomar territórios indígenas é agravada pela presença e ação de pastores neopentecostais em missão de dizimação das tradições e cultura desses povos. Como afirmam Silva e Rocha (2020) as comunidades indígenas, apesar de terem sido submetidas à catequização por jesuítas, conseguiram resistir e nos mais de 500 anos de práticas coloniais ainda é possível enxergar a multiculturalidade dessas relações, mas uma neocolonização dos povos indígenas por religiões neopentecostais ameaça esse legado. "Atualmente, as comunidades indígenas sofrem novas intervenções culturais, promovidas por religiões neopentecostais, que ocupam os territórios, apropriam-se dos espaços comunitários e impõem práticas religiosas incompatíveis com a convivência étnica e, por fim, provocam etnocídio[...]"(5)

O descobrimento do Novo Mundo trouxe o sofrimento para os povos que aqui estavam antes da chegada dos invasores. O genocídio persiste na era moderna, por exemplo, com a contínua perseguição aos povos indígenas da região amazônica. Mais de 80 tribos indígenas foram destruídas entre 1900 e 1957, e a população indígena em geral diminuiu mais de oitenta por cento. É hora de uma união entre os povos indígenas e não indígenas para frear o genocídio iniciado com as invasões europeias e que nunca realmente foi estancado. Em Brasília parlamentares tentam dar um golpe na Constituição com a PEC 215, uma estratégia para acabar com a preservação do meio ambiente e a proteção aos povos indígenas, aos quilombolas e aos ribeirinhos agroextrativistas que são protegidos pela carta magna. A PEC 215 aprovada significaria a paralisação do processo de demarcação de terras indígenas e quilombolas, assim como a paralisação da criação de unidades de conservação, ameaçando também o direito fundamental de todos os brasileiros a um meio ambiente ecologicamente equilibrado e, por extensão, ameaça o direito à vida. A transferência  do Executivo para o Congresso do poder de demarcar terras indígenas, territórios quilombolas e unidades de conservação, ameaça o direito indígena a seu território ancestral, garantido pela Constituição. "A terra é parte essencial da vida dos índios e sem ela, estariam condenados à morte física (genocídio) e cultural (etnocídio)".(6) Para enfrentar essas ameaças de genocídio com a mudança constitucional os povos indígenas criaram o Parlamento Indígena, o ParlaÍndio que quer representar todas as nações indígenas em território nacional. Mais de um milhão de pessoas, dividas em 305 povos falantes de mais 180 línguas estariam representados. Esses são, portanto, os brasileiros que o recém-criado Parlamento Indígena, o ParlaÍndio, tem o potencial de representar: 


Sem vínculo formal com o estado brasileiro, a iniciativa se apresenta como uma nova via de articulação dos povos originários, mirando a superação dos crescentes ataques estimulados pelo governo Jair Bolsonaro (sem partido), como o Marco Temporal, tese jurídica, que restringe a demarcação de terras indígenas, e o Projeto de Lei (PL) 490, que abre áreas protegidas à mineração, ao agronegócio e à construção de hidrelétricas.  Como primeira deliberação, o Parlaíndio decidiu pedir na Justiça a exoneração do presidente da Fundação Nacional do Índio (Funai), Marcelo Xavier, visto por lideranças como um executor das políticas anti-indígenas de Bolsonaro. Com apoio da embaixada da França no Brasil e da Fundação Darcy Ribeiro, a organização é resultado da união de forças de lideranças de alcance mundial. Ainda em 2016, a ideia partiu do Cacique Raoni Metuktire, atual presidente de honra do Parlamento Indígena, mas saiu do papel só no final de maio deste ano. Entre os fundadores, também está Davi Kopenawa Yanomami, xamã e porta-voz do povo Yanomami. (7)

 


O cacique Almir Suruí, do povo Paiter de Rondônia é o coordenador executivo do ParlaÍndio. A experiência de resistência do povo Paiter vem desde seu contato oficial e aproximação com os não índios. As mudanças sociais daí advindas não os fizeram menos guerreiros, o que assegurou sua luta pelo reconhecimento e integridade de seu território. Apesar da grande pressão que sofrem de invasores de terra, o povo Paiter continua mantendo muitas das suas tradições. Para continuar nessa luta pela sobrevivência juntamente com outras etnias, o cacique Almir Suruí aposta em um crescimento rápido do parlamento indígena, de forma a aumentar a representatividade nacional: "'O Parlaíndio tem a missão de unificar essas lutas, defender políticas públicas para todos os indígenas, a demarcação de territórios e a proteção territorial', enuncia”.(8)

Já passa da hora para que sejam convocados os povos indígenas do mundo todo: POVOS INDÍGENAS, UNI-VOS! Somente através dessa resistência organizada nacional e internacionalmente, com a participação de todos os povos solidários, indígenas e não indígenas, se poderá construir um caminho para alcançar a tão almejada justiça, mesmo que tardiamente, para os povos originários oprimidos e evitar que novos genocídios aconteçam, a exemplo do que ocorreu no Canadá e, ainda que noutro formato, do que já está em curso no Brasil.


Antonio C. R. Tupinambá

Fortaleza, 3 de julho de 2021.

_________________________

1) Tavares, E. A tragédia indígena no Canadá. Disponível em: <https://iela.ufsc.br/povos-originarios/noticia/tragedia-indigena-no-canada>. Acesso em: 3 jul. 2021.

2) Freitas, R. Canadá: o horror se esconde no porão da escola. Disponível em: <https://esquerdaonline.com.br/2021/06/11/o-horror-se-esconde-no-porao-da-escola/>. Acesso em: 3 jul. 2021.

3) Tavares, E. A tragédia indígena no Canadá. Disponível em: <https://iela.ufsc.br/povos-originarios/noticia/tragedia-indigena-no-canada>. Acesso em: 3 jul. 2021.

4) Pucheu, A. Poema para a catástrofe do nosso tempo. Disponível em: <https://revistacult.uol.com.br/home/poema-para-catastrofe-do-nosso-tempo/>. Acesso em: 3 jul. 2021.

5) Silva, I. G. S.; Rocha M. M. da. Transmodernidade e socialização do poder: resistência cultural dos povos originários em face do neopentecostalismo no Brasil. Raído, Dourados, MS, v. 14, n. 34, jan./abr. 2020, p. 184-197, p. 185.

6) Os índios e o golpe na constituição. Disponível em: <https://www.frenteambientalista.com/os-indios-e-o-golpe-na-constituicao/>. Acesso em: 3 jul. 2021.

7) Pajolla, M. Lideranças criam Parlamento Indígena do Brasil e pedem saída do presidente da Funai. Disponível em: <https://www.brasildefato.com.br/2021/07/02/liderancas-criam-parlamento-indigena-do-brasil-e-pedem-saida-do-presidente-da-funai>. Acesso em: 3 jul. 2021.

8) idem.

quinta-feira, 17 de junho de 2021

O perigo de ser mulher na Índia

 



                Protesto em Nova Deli, Índia, contra estupro de mulheres. @picture-alliance



    O segundo mais populoso país do mundo é também um dos mais perigosos para as mulheres.  A cada 15 minutos é reportado um novo ataque sexual ou estupro a uma mulher no país. Segundo  Sudarshan Varadhan(1), o estupro coletivo e o assassinato de uma mulher em um ônibus em Nova Delhi, em 2012, levou dezenas de milhares de pessoas às ruas em toda a Índia e estimulou o engajamento e ação de estrelas de cinema e políticos, para que se tivesse punições mais severas e novos tribunais agindo rapidamente frente a casos de violência sexual contra as mulheres. 

    No entanto o que se constata é que pouco mudou no decorrer dessa década e desde 2018 quando foram relatados quase 34.000 estupros. Naquele período, enquanto pouco mais de 85% resultaram em acusações formais, apenas 27% desses criminosos chegaram a ser condenados, de acordo com o relatório anual de crimes divulgado pelo Ministério do Interior; um quadro que parece não querer mudar. Grupos feministas afirmam que os crimes contra as mulheres costumam não ser levados a sério e geralmente são investigados por policiais sem muita sensibilidade. Talvez a única mudança atual mais significativa aconteça no quesito divulgação de informação sobre os acontecimentos nesse campo. Os muitos casos brutais de crimes sexuais começam a deixar o ambiente social, policial e familiar restritos para alcançar as manchetes, inclusive na mídia internacional. Esses crimes antes circunscritos aos locais em que ocorriam, muitas vezes negligenciados pela população e autoridades policiais, cada vez ecoam com mais intensidade dentro e fora da Índia, o que permite ampliar o debate para evitar a tradicional impunidade dos agressores e se deixar de culpabilizar as próprias vítimas pela desgraça que lhes é causada. Como reflexo dessa mudança, até mesmo o inerte governo indiano nessas questões de direitos e proteção às mulheres se viu obrigado a não mais ignora-las, vendo-se forçado a rever as leis para coibir abusos sexuais contra mulheres e garantir mais segurança a esse grupo altamente vulnerável e desprestigiado em uma sociedade patriarcal, machista e discriminatória. O perigo para as mulheres indianas reside na própria estrutura social, que ignora e, portanto, continua permitindo a exploração de mulheres através de práticas medievais como o tráfico para trabalhos domésticos, trabalhos forçados, casamentos forçados, e até mesmo para a escravidão sexual. O alto risco de violência sexual no país coloca a Índia à frente de um placar vergonhoso no quesito feminicídio e estupro de vulneráveis superando países como o Afeganistão e a Síria nesse ranking maldito, mesmo estando esses dois países devastados por guerras e conflitos internos, quando se sabe que nessas situações há muitos crimes de guerra que aumentam as chances das mulheres serem vítimas de abusos dessa natureza. Uma colocação mundial vergonhosa e reveladora da dimensão do problema na Índia e de sua dificuldade ou atraso em trabalhar para que possa mudar esse quadro desolador, o que demandaria vontade política e mudanças socioculturais profundas. “A Índia também foi o país mais perigoso do mundo por práticas culturais retrógradas que afetam as mulheres […] apontando para questões como mutilação genital feminina, ataques de ácido e casamento infantil”.(2)

    Algum otimismo para que seja lançado um novo olhar nessa realidade trágica para as mulheres indianas pode vir de mudanças políticas. A vitoria eleitoral que Mamata Banerjee e seu partido obtiveram em Bengala Ocidental, derrotando o partido nacionalista hindu Bharatiya Janata (BJP) do primeiro-ministro Narendra Modi, desafiando muitas previsões, foi um dia histórico para as mulheres na Índia. Com essa vitória, Mamata Banerjee assegurando seu mandato como ministra-chefe passa a ser a única mulher em uma posição tão importante na Índia. Banerjee fez alguns ajustes notáveis ​​em Bengala Ocidental, reservando 50% dos assentos em órgãos locais para mulheres, priorizou o enfoque nas eleitoras consolidando uma sólida base de apoio entre as eleitoras do estado. A vitória de Banerjee representou não apenas uma forte oposição a Modi, mas também a tornou uma mulher poderosa em um país patriarcal. Ninguém esqueceu do trágico ataque que sofreu uma estudante de 20 anos, conhecida apenas como Jana, encurralada por dois homens em uma vila localizada a cerca de 100 quilômetros a oeste de Calcutá, a principal cidade de Bengala Ocidental. O slogan da campanha de 2016 de Banerjee, ‘Maa, Maati, Manush (mãe, pátria, povo)’, priorizou as questões femininas. O brutal incidente de estupro e assassinato de uma mulher dalit em Hathras, Uttar Pradesh (UP), também continua vivo na memória coletiva da população; destaca-se o fato de que, "de acordo com o National Crime Records Bureau, o estado de Uttar Pradesh (UP) sozinho foi responsável por quase 15% de todos os crimes registrados contra mulheres na Índia em 2019. Outro estudo descobriu que entre 2017, quando Yogi Adityanath se tornou o ministro-chefe de UP em 2019, o estado registrou o maior aumento de crimes contra mulheres no país, chegando a 66,7% do total nacional. A imagem de Adityanath de um ministro-chefe que não pode controlar os crimes contra as mulheres não foi bem recebida pelas mulheres de Bengala. Uma jovem bengali observou com desprezo: 'Yogi deve tentar colocar sua própria casa em ordem antes de falar sobre outros estados'”.(3) Enfim, para as mulheres de Bengala Ocidental e para muitas outras na Índia, foi animador poder testemunhar a vitória histórica de Mamata Banerjee sobre o maior partido político do país, o Bharatiya Janata Party (BJP), nas eleições de 2021 para a assembleia do seu estado.

    Vitórias dessa natureza são significativas para que se construam oportunidades concretas das mulheres combaterem eficazmente os crimes sexuais que assolam suas vidas e para que possam encontrar meios de se sentirem valorizadas. Outra estratégia da qual as mulheres têm lançado mão para efetivar essa luta tem sido sair às ruas e exigir das diferentes autoridades no país maior atenção a suas demandas legítimas de respeito e proteção. "Vrinda Grover, advogada da Suprema Corte especializada em casos de agressão sexual, disse que a disposição das mulheres em denunciar crimes sexuais cresceu ‘milagrosamente' […] 'As mulheres estão lutando contra muitas adversidades e não estão desistindo’ […] 'Mesmo que tenham que sair de casa ou deixar suas famílias, elas buscam justiça. O sistema agora está sendo mais desafiado’. Muitos juízes e policiais também surgiram como líderes na 'tentativa de fazer o sistema funcionar.’”(4)

    Mudanças no sistema político e de justiça e principalmente respostas positivas da sociedade a essas mudanças são necessárias para que a Índia deixe de ocupar este triste posto no pódio das campeãs em violência sexual e discriminação contra as mulheres. Sequer um programa de proteção a vítimas de estupro e de suas testemunhas ou treinamento adequado dos funcionários envolvidos com os procedimentos de promoção de justiça e combate a esses crimes existem no país ou, quando previstos não funcionam adequadamente. Há uma grande dificuldade cultural na sociedade indiana em lidar com essa realidade misógina e defender de fato mudanças para que ela seja substituída por respeito às mulheres.  “Leva tempo para mudar a mentalidade, mas o governo indiano deve garantir assistência médica, aconselhamento e apoio jurídico às vítimas e suas famílias e, ao mesmo tempo, fazer mais para sensibilizar os policiais, oficiais do judiciário e profissionais médicos sobre o tratamento adequado de casos de violência sexual’, afirma Meenakshi Ganguly, diretora da HRW para o sul da Ásia.”(5) 

O governo não pode continuar fechando os olhos para o problema e maquiando as estatísticas oficiais, subestimando o número de estupros, por ainda ser considerado um tabu, bem como dificultando sua simples denuncia, transformando-os em assassinatos(6) comuns em nome da hipocrisia política e da manutenção de uma cultura de violência e misoginia.


Antonio C. R. Tupinambá

Fortaleza, 17 de junho de 2021.

______________________________

(1) Varadhan, S. One woman reports a rape every 15 minutes in India. Disponível em: <https://www.reuters.com/article/us-india-crime-women-idUSKBN1Z821W>. Acesso em: 17 jun. 2021.

(2) Segundo pesquisa realizada pela Fundação Thomson Reuters. 

Is India the worst place in the world to be a woman? Disponível em: <https://www.dw.com/en/is-india-the-worst-place-in-the-world-to-be-a-woman/a-44406279>. Acesso em: 17 jun. 2021.

(3) Kazim, R. How the Women of Bengal Carried Mamata Banerjee to Victory. Disponível em: <https://thewire.in/politics/west-bengal-women-voters-mamata-banerjee>. Acesso em: 17 jun. 2021.

(4) Indian women still unprotected five years after gang-rape that rocked nation. Disponível em: <https://www.theguardian.com/world/2017/nov/08/indian-women-still-unprotected-five-years-after-gang-rape-that-rocked-nation>. Acesso em: 17 jun. 2021.

(5)idem.

(6) Varadhan, S. One woman reports a rape every 15 minutes in India. Disponível em: <https://www.reuters.com/article/us-india-crime-women-idUSKBN1Z821W>. Acesso em: 17 jun. 2021.


quarta-feira, 16 de junho de 2021

7 x 1

                 Torcedora senta na chuva após a derrota do Brasil contra a Alemanha - Jorge Silva/AP




    2014 foi o ano da goleada histórica da Alemanha sobre o Brasil. Na partida que decidiria um dos finalistas da 20a Copa do Mundo da FIFA no Brasil, a seleção canarinha foi humilhada pelo time alemão, perdendo o jogo por 7 a 1.

    A derrota massacrante no último jogo disputado pelo Brasil na semi-final dessa copa no Estádio Mineirão, em Belo Horizonte (MG), o famoso 7x1 se estendeu pelo país e poderia representar sete derrotas nacionais que também tivemos naquele ano.

    A merecida goleada tomada pela nação de chuteiras foi apenas o coroamento de sucessivas goleadas que a população brasileira levaria ao longo do ano de 2014. 

    O primeiro gol contra o Brasil veio do Maranhão. Um vídeo divulgava rebeliões, fugas e mortes por decapitação com requintes de barbárie no Complexo Penitenciário de Pedrinhas. Retrato da falência do sistema prisional com superlotação, falta de eficiência do poder judiciário, de medidas sócio-educativas e de reabilitação etc. além da má administração prisional com seus muitos vícios. 

Em fevereiro o segundo gol revela, simbolicamente, uma involução social que se aprofundava no país: um adolescente que teria tentado fazer um assalto foi espancado e preso nu a um poste na zona sul do Rio de Janeiro. Os justiceiros se sentiram bem representados pela jornalista do SBT, Rachel Sheherazade, que afirmou em rede nacional ser compreensível a atitude dos vingadores. Os monstros da TV e da mídia começavam a por as garras de fora e mostrar a que vieram. 

    Um terceiro gol de placa veio também com a abertura em 17 de março da Operação Lava Jato, que não só quis desestabilizar esquemas de corrupção na Petrobrás mas fez um pacto com o lado podre da nação, tornando-se uma farsa e levando o país ao caos atual.

O quarto gol, de não menor repercussão, gerando incredulidade e perplexidade na platéia se espalhou pelas ruas em um movimento crescente que havia começado em 2013. Começaram a dividir esse país perplexo e manipulado, agora também pelas forças da internet e seus recursos midiáticos. O fundamento para um futuro golpe político estava sendo plantado e regado.

    No gol de número cinco, cinco dificuldades que representam e impediram Dilma Rousseff, presidente reeleita, a tomar as rédeas em Brasília e viabilizar seu novo mandato. As circunstâncias econômicas e políticas dificultavam o anúncio de um comandante para a área econômica, a de maior expectativa do mercado; continuou sua saga com o imbroglio na “manobra fiscal” para que o governo pudesse cumprir a meta de superávit primário estabelecida em 2013; as repercussões da Lava Jato e o escândalo de corrupção na Petrobrás continuariam em pauta por um longo tempo, minando suas bases de apoio e seus planos de governabilidade; o início e intensificação de protestos a favor da implementação de um impeachment contra a presidente recém reeleita, inclusive com acenos para a “volta do regime militar” seguido por suas dificuldades face a uma iminente derrocada na economia, que a candidata Dilma havia se esforçado para esconder durante o período eleitoral. 

    O sexto gol também reverberante no estádio e fora dele, o gol que antecipou o fiasco brasileiro no campo também refletiu o estado geral da nação insatisfeita, frustrada, manipulável e, portanto, favorável à idéia de impeachment. Forças ocultas posteriormente catalisadas por um PMDB traidor e ardiloso, que maquiavelicamente desembarcou do projeto de governo do qual fazia parte  mantendo, na surdina e com o aval do vice-presidente Temer, um algoz para Dilma Rousseff: o corrupto, inescrupuloso e agressivo deputado Eduardo Cunha.

    O sétimo gol, o tiro de misericórdia efetuado pela Alemanha contra o Brasil no jogo que tiraria a pátria verde e amarela da disputa final, foi também o gol que desmoralizou a nação do futebol, e deixou-a sem chuteiras, ajoelhada frente à nova potência internacional do esporte, o time de Toni Kroos. A seguir, restou ao Brasil assistir à Alemanha consolidar sua prestigiosa campanha na 20a Copa do Mundo da FIFA, ao vencer a Argentina na partida final, quando levantaria a taça, merecidamente, de campeã em 2014.

    Em dezembro o Prêmio de consolação para o Brasil e para Dilma Roussef, o único gol, foi a finalização do relatório da Comissão da Verdade, que havia investigado os crimes cometidos durante a ditadura. O documento apontou 377 pessoas como responsáveis pela tortura e assassinatos entre 1964 e 1985. Dilma, que também foi presa política e participou da luta contra o regime militar afirmou na ocasião:  “Estou certa de que os trabalhos produzidos pela comissão resultam do esforço pela procura da verdade, respeito da verdade histórica e estímulo da reconciliação do país consigo mesmo, por meio da verdade e do conhecimento”. O que poderia ser o início de um necessária prestação de contas histórica para que o país se redimisse de seu passado recente sanguinário e cruel foi ofuscado pela política suja com seu crescente estímulo à adesão a atos antidemocráticos que culminou com o golpe de 2016 contra a presidente. 

terça-feira, 15 de junho de 2021

Em Lima se instala o Peru rural!




                        Pedro Castillo, vencedor das eleições presidenciais no Peru em 2021.



O fujimorismo, que nasceu com o autogolpe político-militar do ex-presidente peruano Alberto Fujimori insiste em querer se perpetuar no país andino, nosso vizinho. Naquela altura ouviu-se falar de mais de duzentos mil mulheres sendo esterilizadas compulsivamente, além de um acordo escuso com o Fundo Monetário Internacional (FMI), que foi a base de uma ditadura de sustentação a uma elite para dominar o país e permitir a permanência de Fujimori por dez anos no poder.  Condenado em 2009 a 25 anos de prisão por massacres sucessivos a membros do grupo guerrilheiro Sendero Luminoso e do Movimento Revolucionário Tupac Amaru; envolvido em escândalos de corrupção e fugitivo da justiça  o ex-presidente deve permanecer preso até 2032. Fujimori também foi considerado culpado pelos assassinatos ocorridos em La Cantuta, região serrana próxima a Lima. Ainda entram para sua conta nove estudantes e um professor da Universidade Nacional Enrique Guzmán y Valle que foram sequestrados e mortos. Na sua longa lista de crimes não podem ser esquecidos os sequestros do jornalista Gustavo Gorriti e do empresário Samuel Dyer, mantidos reféns no porão do Serviço de Inteligência do Exército. O grande sonho da filha candidata ao posto mais alto no Peru, Keiko Fujimori, seria indultar o pai condenado. O país se livrou deste destino cruel com a vitória do seu opositor, o esquerdista  Pedro Castillo, que venceu as eleições presidenciais com menos de 1% de diferença de votos. A Força Popular, partido liderado por Keiko, também perdeu representatividade no parlamento. Com apenas 7,1% dos votos, o seu partido deve chegar a somente 12 das 130 cadeiras, o que aponta para a perda de influência do fujimorismo no país. Resistências em setores da sociedade com lembranças ruins dos tempos de desrespeito aos direitos humanos e alta corrupção  se misturam à simpatia dos que relatam sobre os anos de terrorismo e seu combate pelo pai de Keiko, levando os eleitores a uma grande polarização. A posição de Castillo, professor rural e sindicalista, em favor à renegociação das condições de exploração das empresas de gás e mineração, custaram-lhe falsas acusações de querer implementar o comunismo no Peru. Por essa posição o candidato recebeu os maiores ataques de seus adversários durante a campanha. A comparação mais comum é a de que Castillo vai transformar o Peru em outra Venezuela. Não por menos, o político que faz oposição ao governo naquele país Leopoldo López foi ao Peru para se engajar na campanha em favor de Keiko Fujimori. Essa falsa afirmativa foi amplamente explorada pela imprensa, televisão e viralizada nas redes sociais.


Nascido há 51 anos em uma minúscula aldeia da serra de Cajamarca, nos Andes, Castillo entrou na política depois de protagonizar uma greve sindical de professores que o tornou popular em 2017. Tentou formar seu próprio partido de professores, mas não conseguiu coletar assinaturas, pois o processo coincidiu com o início da pandemia. Acabou aderindo, mais por conveniência do que por convicção, ao Peru Livre, uma formação regional, a primeira que pode chegar à presidência vinda da periferia.(1) O chefe do partido é Vladimir Cerrón, um político de esquerda dogmático e populista. A influência de Cerrón no gabinete de Castillo é outro mistério. O professor negou-o em público várias vezes, sabendo que Cerrón é muito impopular na esquerda mais centrada e urbana. Por aí vieram muitos dos ataques do fujimorismo. Por exemplo, o temor de não respeitar as instituições.(2)


A vitória, mesmo que apertada de Pedro Castilho sobre Keiko Fujimori nessas eleições, estanca o fortalecimento e crescimento do malfadado fujimorismo, apesar de não trazer em seu bojo uma promessa clara de evolução nos temas sociais. Ao contrário, já no início de sua campanha apresentou-se com propostas bastante retrógradas nesse campo. Afirmou abertamente ser afeito a valores cristãos conservadores e que, por exemplo, não apoiaria o casamento gay, apesar de que poderia propo-lo em uma nova constituição.  


Revolucionário na economia, mas conservador nos costumes, o candidato tem posições controversas sobre direitos das mulheres e minorias. Contrário ao matrimônio igualitário e à educação com perspectiva de gênero, Castillo é criticado por movimentos sociais progressistas por essa postura. Ao contrário de Keiko Fujimori, ele afirma que não está fechado ao avanço desse debate[…] Mendoza [candidata da esquerda alternativa urbana] afirma que há um caminho para o diálogo nesses temas. Essa foi a principal cobrança dela quando saiu o resultado do primeiro turno e gerou um pacto de 10 pontos em que o professor se compromete a aprofundar a democracia e a respeitar as minorias, os povos originários e os direitos humanos.(3)


O apoio da esquerda moderada, representada por Verónika Mendoza veio em 5 de maio, após as votações de primeiro turno.  Isso levou Castillo a rever suas posturas, declarando que iria refundar o Estado, aprofundando a democracia, garantindo o exercício dos direitos para todos, em plena igualdade e sem nenhum tipo de discriminação. Ainda que não seja um representante autêntico de esquerda e, em alguns aspectos, retrógrado, principalmente em relação a determinadas políticas sociais e morais, é um passo inicial para evitar a escalada da peste fujimorista e para que ocorram as esperadas mudanças no conturbado cenário político do Peru. 


Antonio. C. R. Tupinambá

Fortaleza, 15 de maio de 2021.


_____________________________

(1) Grifo nosso!

(2) Quesada, J. D.; Fowks, J. O Peru que o vencedor das urnas Pedro Castillo tem em mente. Disponível em: <https://brasil.elpais.com/internacional/2021-06-13/o-peru-que-o-vencedor-das-urnas-pedro-castillo-tem-em-mente.html>. Acesso em: jun. 2021.

(3) Rocha, L. Quem é Pedro Castillo, o sindicalista que se aproxima da vitória no Peru. Disponível em: <https://revistaforum.com.br/global/quem-e-pedro-castillo-o-sindicalista-que-se-aproxima-da-vitoria-no-peru/>. Acesso em: jun. 2021.

segunda-feira, 10 de maio de 2021

A quem pertence Jerusalém?

 


    A "Cidade Santa” é cenário de um antigo conflito que se atualiza com as intermináveis disputas por sua posse. Jerusalém é dos judeus ou dos árabes? A cidade localizada em um planalto nas montanhas da Judeia entre o mar Mediterrâneo e o mar Morto, uma das mais antigas do mundo, capital de facto e metrópole israelense, é acima de tudo o lar de dois povos que lutam para ter seu domínio e controle. No entanto, sabe-se que somente com um verdadeiro e aberto diálogo entre israelenses e palestinos se superaria a história de ódio dos dois povos e se retomaria a esperança de reconciliação. O controle que hoje exerce Israel sobre Jerusalém não impede que a cidade também siga sendo reivindicada por muçulmanos, que sonham em transformá-la na capital de um Estado palestino livre e soberano. O status legal da cidade é internacionalmente confuso; Jerusalém deveria ser administrada pelas Nações Unidas, conforme decidido em 1947 pela Assembleia Geral da ONU. A Resolução 181 da ONU é clara sobre a divisão da Palestina em dois Estados, um judeu e outro árabe, e também previa sua manutenção sob tutela da ONU, desmilitarizada, sob controle internacional e servindo de capital aos dois novos Estados. O projeto sempre foi objeto de discórdia dos dois lados, o que incitou muita violência entre os dois grupos envolvidos no pretenso acordo, nomeadamente judeu e árabe. "Após a declaração de independência de Israel em 14 de maio de 1948, os exércitos da Jordânia, Egito, Síria, Iraque e Líbano atacaram o Estado recém-proclamado. Como resultado da guerra, Jerusalém foi dividida em uma parte oriental controlada pela Jordânia e uma parte ocidental controlada por Israel”,(1) que na Guerra dos Seis Dias, em 1967, capturou da Jordânia a parte oriental. Em 1980, o parlamento israelense, o Knesset, declarou que toda a área da cidade era a capital inseparável de Israel. O Conselho de Segurança da ONU considerou essa anexação nula e sem efeito na Resolução 478 e desde então vem confirmando a decisão. 


A Organização para a Libertação da Palestina, OLP, proclamou o Estado da Palestina em 1988 e declarou Jerusalém sua capital. A Jordânia já havia desistido de sua reivindicação de Jerusalém Oriental e dos territórios palestinos mais amplos. No decorrer da reaproximação entre israelenses e palestinos, a questão do status final de Jerusalém foi deixada de lado. O tratado de paz de Oslo de 1993 estipulou que deveria haver um tratado separado sobre isso mais tarde. 136 de 193 membros da ONU reconheceram um Estado da Palestina com Jerusalém como sua capital.(2)


No governo Trump, a definição do status de capital para ambos os Estados ficou ainda mais distante de ser conseguida, pois o nomeado presidente aprovou a transferência da Embaixada estadunidense para Jerusalém, o que indiretamente significou o reconhecimento da cidade como legítima capital de Israel. Um acordo israelita-palestino sobre Jerusalem continua sendo  fundamental para a solução da criação de dois Estados soberanos e para tentar resolver o conflito no Oriente Médio. No entanto, com a decisão unilateral do governo estadunidense de reconhecer Jerusalém como a capital de Israel, cidade que está na alma e no coração dos dois povos, os ânimos se acirraram e foi reacendida a disputa pela cidade, trazendo desesperança sobre a possibilidade de uma reconciliação internacionalmente almejada e contribuindo para o acirramento dos conflitos locais com a escalada da violência que torna a vida da população ainda mais dura.

Em 10 de maio de 2021, registraram-se distúrbios violentos em Jerusalém. Trata-se de um confronto no Monte do Templo, que para Israel é o Har Habayt (Monte do Templo) e para os árabes é a Esplanada das Mesquitas (Haram esh-Sharif). A organização governante da Faixa de Gaza retaliou o que chamou de agressão aos árabes de Jerusalém disparando foguetes em direção à Cidade Santa, que logo foram reivindicados pelo Hamas como uma reação ao "crime e agressão" israelenses. Os confrontos entre palestinos e forças de segurança israelenses desde a manhã dessa segunda-feira já causaram ferimentos em mais de 300 pessoas, segundo a organização humanitária Crescente Vermelho Palestino. Mais de 200 pessoas foram levadas ao hospital. De acordo com a polícia israelense, 21 policiais ficaram feridos nos confrontos.

A escalada da violência já vem ocorrendo há semanas. Além dos feridos, há registo de várias mortes em ataques. No foco do conflito também a disputa por terras no distrito de Sheikh Jarrah em Jerusalém Oriental. Para muitos, essa disputa simboliza uma expulsão contínua dos árabes da cidade. O Monte do Templo abriga a Cúpula da Rocha, a Mesquita de Al-Aqsa e o Muro das Lamentações e desempenha importância central no islã e no judaísmo. Para Israel, os ataques feitos pela Hamas a partir da Faixa de Gaza se configuram como uma  justificativa para sua reação com ataques aéreos contra posições do grupo militante palestino. “De acordo com as autoridades na Faixa de Gaza, nove pessoas foram mortas durante os ataques de retaliação israelenses, entre eles, um comandante de alto escalão do Hamas e seus três filhos. Grandes incêndios no Monte do Templo em Jerusalém foram relatados anteriormente ao ataque, o que se diz ter ocorrido durante novos confrontos entre as forças de segurança israelenses e combatentes palestinos.”(3)

Tudo isso ocorre no mês de jejum do Ramadã, quando dezenas de milhares de muçulmanos se reúnem no Monte do Templo para orar. Na manhã de segunda-feira dia 10 de maio, de acordo com a polícia israelense, alguns ativistas atiraram pedras do Monte do Templo em direção a uma rua; ao mesmo tempo uma posição policial também foi atacada, o que levou as forças de segurança a invadir a área imediatamente após esses eventos. “Muitos muçulmanos em todo o mundo mostram solidariedade com o lado palestino. Muitas fotos e vídeos são espalhados nas redes sociais sob a hashtag al-Quds tantafid, que significa ‘Intifada de Jerusalém’. Vários governos estão alimentando ativamente o conflito, especialmente a Turquia: ‘Israel deve parar de atacar os palestinos em Jerusalém’, disse um porta-voz do governo na segunda-feira”.(4)

Uma marcha de milhares de israelenses de direita por ocasião do Dia de Jerusalém de Israel, no qual se festeja a captura de Jerusalém Oriental em 1967, para a tarde de segunda-feira foi   cancelada no último minuto. Vale lembrar que tudo isso ocorre no momento em que a oposição israelense está tentando formar um novo governo e que, caso consiga, levará o partido Likud do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu para a oposição.   

Diferentemente de seu antecessor, Donald Trump, o presidente Joe Biden, mais crítico da direita israelense com seus laços estreitos com o movimento dos colonos, vem expressando “sérias preocupações sobre os possíveis despejos de famílias palestinas de suas casas no distrito de Sheikh Jarrah”.

O mundo volta suas atenções para o que ocorre em Jerusalém. Além das preocupações expostas pelo presidente Biden, outros governantes se mobilizam e reagem aos acontecimentos na cidade pomo da discórdia entre judeus e árabes. Por razão do conflito atual que assola as ruas da cidade, o Ministério das Relações Exteriores da Jordânia convocou o encarregado de negócios de Israel no país. O secretário-geral da ONU, António Guterres exortou Israel a exercer “o máximo de contenção”. Segundo reportagem do jornal Times of Israel, o Conselho de Segurança da ONU tratará da situação em Jerusalém. Em Berlim, o porta-voz do governo de Angela Merkel, Steffen Seibert, afirma que o governo alemão também convocou todos os envolvidos a exercer o senso de proporção e moderação. Em sua típica postura de interventor, o chefe do Estado turco, Recep Tayyip Erdogan, descreveu Israel como um "Estado terrorista cruel”, afirmando que as ações de Israel são um ataque a todos os muçulmanos, contudo sem apresentar qualquer recurso ou desejo de negociação, apenas justificando e apelando para a retaliação muçulmana.

“Estou com raiva e triste”, diz um jovem palestino. “Este é o meu bairro. Não o deles. E agora eles vêm e querem tomar nossas casas.”(5) Judeus e muçulmanos vivem no bairro árabe de Sheikh Jarrah, em Jerusalém Oriental, a que se refere o jovem palestino. A rua Othman-Ben-Afan é um exemplo dessa convivência nada pacífica. Nela veem-se casas de famílias palestinas às vezes intercaladas por outras de famílias judias. De um lado da rua, palestinos que se postam em frente a uma casa prestes a ser despejada, do outro lado colonos nacionalistas de direita em frente a outra, onde antes viviam palestinos e agora está ocupada por israelenses.  Ambos reivindicam o bairro para si e se dizem prontos a lutar por ele. Há precedentes para despertar a cobiça dos judeus de um lado e o ódio palestino do outro, uma vez que o tribunal distrital de Jerusalém havia decidido que as casas das famílias palestinas pertencem legitimamente a famílias judias. “De acordo com a lei israelense, os judeus israelenses podem reivindicar a propriedade de casas em Jerusalém Oriental no tribunal se seus ancestrais possuíssem terras lá antes da Guerra Árabe-Israelense (1948-49).”(6) Uma afronta aos palestinos, que também perderam suas propriedades como resultado da guerra e para quem não há nenhuma lei semelhante ou correspondente. As Nações Unidas também questionam essa legislação ao afirmar que os despejos não se justificam e devem ser cancelados. 

Toda a revolta que se registra nesse mês do Ramadã eclode a apenas um quilômetro de Sheikh Jarrah, na cidade velha de Jerusalém. Sheikh  Jarrah não é qualquer bairro, é para muitos um símbolo da expulsão dos muçulmanos de Jerusalém. Palestinos são expulsos de suas casas, onde vivem com suas famílias sob permanente ameaça de despejo.(7) A lei israelense de reivindicação de propriedade é, para grupos de direitos humanos, discriminatória, pois falta aos palestinos que perderam suas propriedades no que hoje corresponde ao território israelense uma legislação que lhes proporcione direitos semelhantes.   


Antonio Caubi Ribeiro Tupinambá

Fortaleza, 10 de maio de 2021


____________________________

(1) Wem gehört die Heilige Stadt? Sechs Fragen zum Status Jerusalems. Disonível em: <https://www.dw.com/de/wem-geh%C3%B6rt-die-heilige-stadt-sechs-fragen-zum-status-jerusalems/a-41673866>. Acesso em: 10 mai. 2021.

(2) idem

(3) Schimid, M.: Kathe, S. Mindestens 20 Tote bei Vergeltungsschlag – Israel tötet drei Aktivisten der Hamas. Disponível em: <https://www.fr.de/politik/konflikt-israel-palaestina-ost-jerusalem-polizei-blendgaranaten-steine-90529677.html#>. Acesso em: 10 mai. 2021.

(4) Lage in Nahost spitzt sich zu. Disponível em: <https://taz.de/Israel-Palaestina-Konflikt/!5766296/>. Acesso em: 10 mai. 2021.

(5) Hammer, B.  "Das ist meine Nachbarschaft". Disponível em: <https://www.tagesschau.de/ausland/ost-jerusalem-sheikh-jarrah-101.html>. Acesso em 10 mai. 2021.

(6) Unruhen erschüttern Tempelberg in Jerusalem. Disponível em: <https://www.dw.com/de/unruhen-erschüttern-tempelberg-in-jerusalem/a-57468130>. Acesso em: 10 mai. 2021.

(7) Häuserkampf in Jerusalem. Disponível em:  <https://taz.de/Auseinandersetzungen-in-Israel/!5766297/>. Acesso em: 10 mai. 2021.