POLIS

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O projeto nasce com foco no comportamento político nas sociedades contemporâneas e nos efeitos dos movimentos sociais e políticos atuais sobre as liberdades e processos emancipatórios, bem como seus impedimentos em escala local, nacional e global. Tem por objetivos o desenvolvimento de um campo interdisciplinar de reflexão e prática investigativa e divulgadora, reunindo debates em torno de questões como: preconceito, racismo, sexismo, xenofobia, movimentos sociais, violência coletiva social, relações de poder, movimentos emancipatórios de povos e nações, valores democráticos e autoritarismos, laicidade, análises de discursos e ideologias, de universos simbólicos e práticas institucionais. Nessa perspectiva, o Polis atua desde sua criação formal em 2013, como projeto de extensão e em 2015 como Blog para divulgação e atualização.

sexta-feira, 19 de junho de 2020

Crise, caos e desgoverno



Pedrada1,
Chico Cesar

“Cães danados do fascismo
Babam e arreganham os dentes
Sai do ovo a serpente
Fruto podre do cinismo
Para oprimir as gentes
Nos manter no escravismo
Pra nos empurrar no abismo
E nos triturar com os dentes
Ê república de parentes pode crer
Na nova Babilônia eu e você
Somos só carne humana pra moer
E o amor não é pra nós
Mas nós temos a pedrada pra jogar
A bola incendiária está no ar (vai voar)
Fogo nos fascistas
Fogo, Jah!”
Fogo Jah! 


O povo é maior que seus governos. Assim foi em Timor Leste, quando superou a ditadura Suharto da Indonésia e proclamou sua vitória em forma de uma nova nação. O caminho que trilham os tibetanos em busca de autodeterminação é cheio de emboscadas e desvios, mas nada os tem detido rumo à superação dos desmandos dos algozes chineses, seus opressores.  O ultraje da discriminação de Estado que sofriam os sul-sudaneses foi superado pela separação definida em um referendo realizado em janeiro de 2011, quando 99% dos votantes foram favoráveis à divisão do país, marcado por conflitos sectários… Podíamos continuar mostrando que, mesmo sob a mira de ameaças e armas, populações em diferentes cantos da terra não abrem mão do sonho da autonomia e liberdade. 
É libertário o sentimento desses diferentes povos cujos movimentos acompanhamos ao redor do mundo, reivindicando um lugar ao sol que lhes vem sendo negado. As mais absurdas intervenções e os mais inaceitáveis desmandos não são capazes de destruir sua anima e desvirtuar seu desejo legítimo de autodeterminação. Tomar as rédeas do próprio destino é o que almejam. Ainda que se vejam perdas de rumo temporárias nas suas trajetórias, seguem inabaláveis em busca de seus objetivos. Tal não é uma exclusividade de povos em terras remotas ou em mundos desconhecidos. Em nossa casa-nação vivemos, em diferentes medidas e regiões, ataques de governos que remontam aos períodos mais obscuros do nosso passado. Tomemos como exemplo o Rio de Janeiro, símbolo de brasilidade. Na Cidade Maravilhosa se testemunhou uma das mais cruéis páginas de sua história. Banhada pelo sangue da vereadora executada Marielle Franco, engajada "com pessoas ameaçadas pelas 'políticas da morte' e pela 'lógica bélica e militarizada' de gestão das populações indesejadas pelos arautos do neoliberalismo e do fascismo”2, a cidade viveu uma intervenção militar patrocinada por um governo ilegítimo, que se utilizou de poderio bélico, uma vez não ter sido escolhido ou determinado pelo povo brasileiro para governar, apenas estabelecido para satisfazer as ganâncias políticas de governantes de mãos sujas e financeiras do Deus mercado. De Temer a Bolsonaro, apenas governos antidemocráticos continuados ou “irmãos siameses em termos de fomento da barbarie e do ódio, constituíram-se em verdadeiros vilões da destruição da democracia…”3. Um governo eleito e construído  sobre mentiras, as mesmas fake news que levaram o medíocre ex-deputado a ganhar as eleições, ainda imperam nas estratégias governamentais, sem as quais, seguramente, já teria caído e visto desmoronar o pérfido, injusto e hostil sustentáculo que ainda permite afrontar o Estado laico e a democracia: "A trama criminosa de Bolsonaro e de seus comparsas relegou à educação um papel de ‘mercadoria’, de banalidade; e ao trabalho, para sustento do direito dos ricos, atribuiu um caráter ‘escravagista’, supérfluo e precário. Nesse processo, os direitos humanos são cotidianamente desrespeitados e interpretados por meio de preceitos nazifascistas. A suposta laicidade do Estado vem sendo violada pela fusão entre o neopentecostalismo e a direita liberal, para o desmando falso e moralista das igrejas evangélicas"4. Mas o Rio e o Brasil são mais que isso; são luta e resistência, que crescem a cada dia e resultarão na queda da ditadura fascinazista que querem mas não vão conseguir instalar. Os gritos nas ruas já  se fazem ouvir e começaram a ecoar nos corações dos brasileiros, que em grande maioria, seus 70% não compartilham com esse governo do descaso, mentira e maldade. O Brasil atual, sem ministros da saúde, educação e cultura é uma fotografia do desgoverno. Mas o Brasil é bem maior que isso e tem força e desejo de mudança. Não por menos, desde sempre se prova uma terra inspiradora e com energia para se superar e mudar vidas, mesmo nas mais inusitadas situações. Por isso recorremos ao que nos relatou em 1985, o artista James Taylor sobre essa visão de um Brasil que é forte e reage. Atualizemos, em meio à implantação deliberada dessa desesperança,  a força que orgulhou Taylor e sempre nos orgulhará. James Taylor relata uma experiência bem "brasileira e carioca”, deslumbrante e “redentora”, quando passou pela cidade em 1985. A epifania do artista reforça um sentimento atual que emerge no caos: a ousadia de um povo que busca ser feliz a despeito de um lado da política suja e da exploração a que são submetidos. Há várias formas de insubmissão e essa é uma delas. Insubmissão que vale a pena e é vital, necessária; molda, contorna a vida em meio a desastres e desafios, é esperança e resistência, mesmo em cenários tão sombrios e desesperançosos. Continuemos, portanto, insubmissos, lutadores sem desânimo para nos redimir com a força que encontramos no nosso espírito guerreiro. Não é piegas a esperança na energia de um povo que pode se unir em nome de uma nobre causa que visa à preservação da liberdade e da democracia, conquistadas a duras penas.    


Alcançado pelos raios do sol nascente 
Fugindo da arma do soldado 
Gritando em voz alta da multidão enfurecida 
A criança branda, selvagem e faminta 
Vou te dizer que há mais do que um sonho no Rio 
Eu estava lá naquele dia 
E meu coração voltou vivo 
Havia mais, mais do que as vozes cantando 
Mais do que os rostos me olhando
E mais do que os olhos brilhantes
(Trecho da música Only a Dream in Rio - em português: somente um sonho no Rio - de James Taylor)


James Taylor retrata nessa música sua experiência incomparável que teve na Cidade Maravilhosa no Rock in Rio 1985; revela o amor fácil e inesperado que daí brotou e o redimiu da desesperança que assolava um homem perdido e sem perspectivas:

"Eu tinha entrado em outra reabilitação, para me livrar da metadona depois de um par de "jackpots" realmente desagradáveis, que é onde você se humilha e humilha também as pessoas que te amam. Tentei me desintoxicar em um lugar em Connecticut, mas recusei o tratamento e continuei a usá-la. Não deu certo até que [o saxofonista] Michael Brecker me envolveu com o método dos "Doze Passos” que consegui ficar sóbrio. Mas mesmo depois de estar limpo, não sabia
se havia vida do outro lado do vício para mim. Eu também não tinha certeza de que eu poderia voltar a compor.
Então eu fui ao Rio de Janeiro para tocar no festival Rock in Rio. [O compositor brasileiro] Gilberto Gil tinha deixado uma guitarra para que eu tocasse. Eu entrei no palco, e 300 mil pessoas conheciam minhas músicas. Eles têm essa tradição de cantar no Brasil, tão alto, tão forte e tão em sintonia e, no tempo certo, é como se pegassem uma música que eles conhecem e cantassem de volta para você, é extremamente poderoso. Então eu estava, como, com os dois pés acima do chão levitando no palco, realmente senti como se eu tivesse pousado em meus pés. Foi um ponto de virada na minha vida”6.

O Brasil, o Rio provando-se especial e inspirador, resistente e capaz de superar os males imputados por seus carrascos internos e externos. O Brasil do Movimento “Ele Não”, que mesmo sob ameaça de armas foi à urna portando sim uma arma, mas contra a ignorância, um livro. O Brasil, como o próprio Rio, vitrine para as pedras que são lançadas maldosamente das mãos de sádicos que apostam no “quanto pior, melhor”, que produz um candidato, a partir de um doente expulso do quadro do exército, um fascista declarado. Esse Brasil e esse Rio, maiores que desmandos e corrupção encalacrados nos seus (des)governos. Infortúnios não detém o Rio, não detém o Brasil, pois sabem superar suas mazelas. Esse Brasil, é parte de um mundo cheio de ameaças semelhantes mas também de lutas que a elas correspondem. Infortúnios de igual dimensão ou maiores tentam mas não conseguem deter os povos em tão distintas plagas, que, assim como no Rio e no Brasil não desistem de lutar por autonomia e respeito, mostrando aquela força original que muito bem soube captar Taylor para o combate necessário, indispensável. Afinal de contas, são quase 500 anos de busca de alguma mudança nas forças hegemônicas e na perversa e predatória realidade compartilhada em capitanias e governos. Esforços valiosos que renderam poucas, irregulares mas significativas mudanças, interrompidos com o golpe político de 2016 contra a presidente Dilma Roussef, ratificado em 2018 pelo golpe das fake news contra a população que levou ao poder o já considerado, pior presidente da história do Brasil.  
Há uma certa ousadia em nossas palavras, qual seja, a prontidão para denunciar tantos desmandos: sua veiculação nesses momentos oportunos para que acontecimentos não caiam no esquecimento nem fiquem sem reação; para despertar a curiosidade e conquistar o engajamento nas lutas e também a participação na celebração de vitórias, pequenas que sejam, de brasileiros e de diferentes povos ao redor do mundo. 
Fazemos, portanto, o convite para que compartilhem conosco essas inquietações, que apesar de nascerem do medo e do desassossego apontam para um futuro que quer ser de dignidade e conquistas.  Uma certa vez foi perguntado a Chomsky se ainda se pode ser otimista sobre o futuro da humanidade, no que respondeu, a seu modo, querendo dizer que sim: “…podemos ser pessimistas, desistir e esperar que o pior aconteça. Outra opção é aproveitar as oportunidades que de fato existem e ajudar a fazer o mundo um lugar melhor para se viver. Assim como a raiva e a agressão são expressões da natureza humana, a simpatia, a solidariedade, a gentileza e preocupação com os outros também são. Há muita resistência contra a brutalidade humana e contra o autoritarismo. Tal resistência, segundo ele, precisa crescer e se tornar uma fonte de esperança para a nossa espécie"7.
Afirmamos isso, apesar de ter consciência do muito que sempre ainda haverá para ser feito em nome da iluminação das inúmeras nações encobertas pelas sombras da maldade, como a nossa. Essas nações sofrem constantes ataques, muitas vezes cíclicos: nós, por exemplo, mal despertamos do pesadelo de uma ditadura e já vivendo a iminência das trevas e do fascismo, em uma espécie de "retorno do recalcado". O nosso motor é a esperança e a certeza de sempre estarmos a buscar saídas, cultivarmos e implementarmos ideais antifascistas e pró-democracia. Deixem-se, portanto, levar por esses ares otimistas, pois mesmo que não tragam em si soluções imediatas, apontam caminhos e semeiam esperança. É com esse espírito que a gente segue na luta e contribui com a vitória da civilização sobre barbárie.8
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1) Chico César faz “crítica esperançosa” e enfrenta o fascismo. Consultado em junho de 2020: https://www.cartacapital.com.br/cultura/chico-cesar-faz-critica-esperancosa-e-enfrenta-o-fascismo/
2)VIANNA, Adriana. Políticas da morte e seus fantasmas. Le Monde Diplomatique, [S. l.], Ano 12, no 140, Dossiê Estado de Choque, mar. 2019, p. 20, apud Motrivivência, (Florianópolis), v. 31, n. 57, p. 01-16, janeiro/março, 2019. Universidade Federal de Santa Catarina. ISSN 2175-8042. DOI: https://doi.org/10.5007/2175-8042.2019e62751 , p. 3.
3) Motrivivência, (Florianópolis), v. 31, n. 57, p. 01-16, janeiro/março, 2019. Universidade Federal de Santa Catarina. ISSN 2175-8042. DOI: https://doi.org/10.5007/2175-8042.2019e62751 , p. 8.
4) Motrivivência, (Florianópolis), v. 31, n. 57, p. 01-16, janeiro/março, 2019. Universidade Federal de Santa Catarina. ISSN 2175-8042. DOI: https://doi.org/10.5007/2175-8042.2019e62751 , p. 8.
5) Link para o video no youtube: https://m.youtube.com/watch?v=JWRlaYkIKgM
6)Tradução livre do original em inglês consultado em
"Only a Dream in Rio" (1985).
7)‘Pinheiro-Machado, R. (2019) A esperança é o único antídoto contra o que nos sufoca’, consultado em junho de 2020: ttps://theintercept.com/2019/11/26/esperanca-antidoto-extrema-direita-amanha-vai-ser-maior/
8) Alusão ao livro de Viviane Fecher “Onde a humanidade vence a barbárie”. São Paulo: Paco Editorial, 2017.

sexta-feira, 29 de maio de 2020

O RACISMO DE CADA DIA*





                                                        Foto: Agustin Paullier/AFP




…Aqueles que professam favorecer a liberdade e, no entanto, depreciam a agitação, são homens que querem colheitas sem arar o solo, querem chuva sem trovões e raios. Eles querem o oceano sem o terrível rugido de suas muitas águas.
Essa luta pode ser moral, ou física, e pode ser moral e física, mas deve ser uma luta. O poder não concede nada sem uma demanda. Ele nunca fez e nunca fará. Descubra exatamente a que qualquer pessoa se submete silenciosamente e você descobriu a medida exata de injustiça e injustiça que lhes será imposta, e elas continuarão até que sofram resistência com palavras ou lutas, ou com ambos. Os limites dos tiranos são prescritos pela resistência daqueles a quem eles oprimem… Se algum dia nos libertarmos das opressões e dos erros cometidos sobre nós, devemos pagar por essa libertação. Devemos fazer isso pelo trabalho, pelo sofrimento, pelo sacrifício e, se necessário, com nossas vidas e com a vida dos outros. (Frederick Douglass, 1857. Emancipação na Índia Ocidental)1.


Ruby Bridges nasceu em 1954, ano em que o Tribunal Constitucional norte-americano  determinou oficialmente o fim da discriminação escolar baseada na raça. A partir daí, negros e brancos deveriam ter acesso ao estudo nas mesmas escolas. A menina Ruby parece ter nascido nesse ano para se incumbir da hercúlea tarefa que se avizinhava: mostrar aos seus compatriotas que era possível negros e brancos viverem juntos, em pé de igualdade. No entanto,  protegida por policiais, sua histórica escalada  às escadarias da escola só para brancos, a William Frantz Elementary School em 1960 para frequentá-la como primeira menina negra não resultou, como se esperava, em passos firmes em direção ao fim do famigerado racismo que ainda hoje grassa na sociedade norteamericana.
Louisiana, anos 1960 experimentava o início do processo de “dessegregação”, juntamente com vários outros eventos e movimentos de luta por direitos civis dos negros estadunidenses. A recusa de Rosa Parks em 1955 de ceder seu lugar em um coletivo para uma mulher branca resultou em sua prisão, mas seu gesto havia sido marcante para a sociedade norte-americana conservadora e segregacionista. Não esqueçamos dos discursos inflamados de um dos mais influentes líderes para o combate ao racismo e pela garantia de direitos civis, Martin Luther King. Tampouco podemos esquecer a saga de Malcom X com seus discursos inflamados e radicais que despertavam na audiência a autoestima do afroamericano, pondo abaixo o conceito de supremacia branca, dominante em várias regiões naqueles anos de chumbo do racismo e do poderio branco.
Malcom X foi responsável ou inspiração para o posterior surgimento de novos grupos e lideranças que lutavam, sem concessões, para que a causa dos direitos civis dos negros continuasse na pauta do dia, mantendo a mesma ideia em despertar autoestima e continuar sua recusa visceral  do conceito e das práticas funestas da supremacia branca que dominava várias regiões entre os anos 1950 e 1960, inclusive com a volta de manifestações da Ku Klux Klan. Foi após a promulgação da lei contra a segregação nas escolas públicas que permitiu Ruby subir as escadarias de uma delas, que surgiram novas ações violentas da organização criminosa pró-supremacia branca. 
O programa radical de Stokely Carmichael, ativista do Black Power2 e porta-voz dos Panteras Negras3, foi inspirado, sobretudo, pelo nacionalismo negro de Malcolm X:  Carmichael foi representante de uma militância afro-americana em meados da década de 1960 e recusava qualquer luta pela integração do negro à sociedade norte-americana (branca), dando prioridade ao cumprimento de agendas político-identitárias negras radicais cada vez mais transnacionais. Não compactuava com o reformismo de Martin Luther King a favor da inclusão dos negros nos marcos da cidadania norteamericana. "Carmichael e o Black Power voltaram-se, então, às reivindicações separatistas de Malcolm X por autodeterminação e poder político para os afroamericanos e suas comunidades por 'quaisquer meios necessários’.4”

O racismo nunca erradicado, e desde então  recrudescente e recorrente no cotidiano dos EUA  já não se deixa esconder facilmente. As diferentes mídias registram barbaridades que se pensava esgotadas, uma vez inadmissíveis na, dita, maior  "democracia" do planeta. Os episódios extremos de racismo que se acumulam nos mais diversos setores da vida norteamericana são revelados a seco pelas mídias sociais e se espalham rapidamente pelo mundo causando perplexidade e revelando a face brutal e vergonhosa do Tio Sam, que se queria oculta para  continuar agindo de forma truculenta. Nem mesmo a eleição de Barack Obama em novembro de 2008, o primeiro presidente negro de toda a história dos EUA, representou o fim de um longo e árduo processo de luta  por emancipação dos afroamericanos; representou apenas um  passo conjuntural em direção a uma sonhada igualdade racial que ainda não chegou.

Entretanto, a história que se quer avivar hoje não se passou nos já distantes anos de 1950 ou 1960. George Floyd, de 40 anos, morreu asfixiado por um policial branco pressionando o joelho sobre seu pescoço. As imagens da barbárie são do dia 25 deste mês de maio de 2020 e são aviltantes, causando indignação por todo lado do planeta. Apesar dos apelos de George, sentindo que sua vida se esvaía ao ser completamente sufocado; o policial branco, impávido,  cumpriu sua sórdida tarefa de racista e  homicida: matou George. Seria o policial um membro da Ku Kux Klan ou apenas mais um policial eleitor de Trump que se considera investido da missão de tirar a vida de um semelhante?  A súplica de George para não ser morto, "Não consigo respirar” (I can’t breath), teve o mesmo som daquela em 2014 de Eric Gardner em Nova York, outro homem negro assassinado por um policial branco que não recebeu qualquer punição pelo crime. Ações dessa natureza são parte de um sistema de justiça racializado e que tem alvo certo. A violência policial é uma das principais causas de morte entre jovens nos Estados Unidos, onde, segundo estudos do Mapping Police Violence (Mapeando a violência policial), os negros têm três vezes mais chances de serem mortos pela polícia do que os brancos. No Brasil, uma sociedade ainda mais violenta, temos um total de 75,4% de mortos de negros que representam 55% do total da população em decorrência de intervenção policial. No caso do Rio de Janeiro, os "negros contam com 23,5% mais chances de serem mortos do que o restante da população - número que salta para 147% se for considerada apenas a idade de 21 anos, quando há o pico de probabilidade.6"

A pandemia da covid-19 que impera no país não impediu que multidões saíssem às ruas de Minneapolis, cidade em que ocorreu o homicídio de Estado, para mostrar sua indignação face a essa cena explicita de racismo e brutalidade policial. Uma reafirmação da violência do Estado contra negros assente no discurso supremacista de  Donald Trump,  replicada nas ferozes atitudes  de seus eleitores segregacionistas, em um país que tem 40% de negros entre seus prisioneiros, ainda que representem apenas 13% da sua população total.

Quero dizer, senhor governador Wilson Witzel, que a sua polícia não matou só um jovem de 14 anos com um sonho e projetos, a sua política matou uma família completa, matou um pai, uma mãe e o João Pedro. Foi isso que a sua polícia fez com a minha vida.

Esses atos cruéis praticados contra minorias e grupos de cidadãos pobres em diferentes países não ocorrem como casualidade. Os fatos cotidianos de violência se repetem e guardam semelhanças nas novas formas de governo constituídas para destruir o que resta de humano e democrático nas nações. Qualquer semelhança não é mera coincidência. Governos com viés fascista que pregam sua ideologia para as instituições e acolhem atitudes de igual tendência. Certamente não são todos os seus membros que se submetem a esse tipo de lavagem cerebral. As instituições são complexas e não se deixam homogeneizar facilmente, tampouco todo seu contingente precisa desenvolver traços perversos como querem seus mandatários. Mandatários esses que terminam por desenvolver tendências de repúdio a práticas que respeitem os direitos humanos, mesmo que isso signifique um processo de autossabotagem e autodestruição a longo prazo; difundir uma ideologia da indiferença, do ser anti-tudo que signifique respeito a diferenças, promoção de igualdade, fraternidade ou diminuição do profundo fosso social entre pobres e ricos, brancos (ou que se dizem brancos) e não brancos.
 Nos Estados Unidos, George Floyd, homem negro de 40 anos; no Brasil, João Pedro, menino negro de 14 anos. George  não foi acusado de qualquer crime , mas era negro. João Pedro  brincava em casa, dentro de sua casa; mas era pobre, negro e morava em uma favela.  No Complexo do Salgueiro no município fluminense de São Gonçalo foi atingido no peito, dentro de casa,  por um tiro de arma de fogo.  A repercussão internacional do caso Floyd reforça também no Brasil a luta local por justiça para casos como o de João Pedro. Em Minneapolis as ruas são ocupadas, prédios incendiados e milhares de cidadãos, não somente negros, reivindicam justiça, exigindo a prisão dos culpados pela tragédia que resultou na morte de George Floyd. A frase de George suplicando para que não o matassem “I can’t breathe” (Eu não consigo respirar) está sendo agora usada repetidamente nos protestos de rua em diferentes cidades. Em função do crescimento dos protestos, no dia 29, sexta-feira, Derek Chauvin, o policial que sufocou sua vitima até a morte foi detido, mas seus três colegas que participaram com ele da ação desastrosa continuam soltos. As manifestações atuais vêm mostrando outras cores. A multidão é composta por tons diferentes e em muitos casos compostas por maioria branca, o que quase não se via nos protestos da década de 1960 a que nos referíamos anteriormente.
No trilho dos crescentes eventos antirracismo nos Estados Unidos começaram a ocorrer noutros países, a exemplo do Brasil, manifestações mais organizadas em protesto pelos jovens negros mortos por policiais. No dia 31 de maio de 2020 a sede do governo do estado do Rio de Janeiro, o Palácio Guanabara, foi palco de uma delas. Vale lembrar que uma semana antes dos protestos do dia 31 já aconteciam manifestações em forma de ato online de dimensão nacional nas redes sociais. A esses atos virtuais organizados pela Coalizão Negra Por Direitos, participaram 800 entidades. Neilson Costa Pinto, pai de João Pedro participou da abertura desses atos destacando a importância da luta por justiça: "'É um momento que eu não desejo para ninguém, perder um filho é como perder a própria vida. O Estado é falido e sem responsabilidade nenhuma. Fazer o que fizeram com o meu filho e com outros filhos também, entrar no seu próprio lar e tirar a vida de um menino de 14 anos significa que o Estado é falido. E vamos lutar por justiça, é isso que esperamos, que a justiça venha a ser feita em nosso país', destacou.8” 
Esse é o resultado de uma necropolítica instituída pelo governador do Rio de Janeiro, o genocida Wilson Witzel. Apesar de circunstancial desafeto político de Bolsonaro,  é seu par na macabra escalada do fascismo no Brasil.  A pandemia da covid-19 não freou o aumento da violência institucional e o modus operandi racista que tem lugar no estado e na cidade do Rio de Janeiro e no país. Pior ainda nesses estados que copiam as linhas de um governo central militarista e fascista, com estratégias e arreganhos ditatoriais e onde não se pode esperar uma polícia que vise, como deveria, a proteção da população. Os paralelos entre países tão diferentes só podem ser feitos porque guardam entre si semelhanças em sua necropolítica e no abissal autoritarismo nas figuras estultas  dos seus presidentes. 






                                         
                                        João Pedro. Foto: Brasil de Fato.


Um estudante de 14 anos foi morto durante uma operação da Polícia Federal (PF) e da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core) no Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo, na região metropolitana do Rio de Janeiro, na tarde da última segunda-feira (18). João Pedro Mattos Pinto foi atingido na barriga enquanto brincava no quintal de casa. O adolescente foi levado em um helicóptero da Polícia Civil após ser baleado. Até a manhã desta terça-feira (19), a família estava sem informações sobre o jovem. Segundo o Corpo de Bombeiros, o corpo da vítima foi deixado na última segunda (18), às 15h, no Grupamento de Operações Aéreas (GOA), na zona sul do Rio. Na manhã desta terça-feira (19), familiares do adolescente estiveram no Instituto Médico Legal (IML) de São Gonçalo e reconheceram seu corpo. João Pedro foi descrito por amigos e familiares como um menino calmo e que frequentava a igreja. (Eduardo Miranda, Brasil de Fato, Rio de Janeiro (RJ), 19 de Maio de 2020).(9)



Antonio C. R. Tupinambá
Fortaleza, junho de 2020.
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* Publicado originalmente no “Memórias de quarentena – Adufc”. Disponível em: <http://adufc.org.br/2020/06/10/memorias-de-quarentena-23-o-racismo-nosso-de-cada-dia/>. Acesso em: 10 jun.  2020.
1  Traduzido do original em inglês de Frederick Douglass. EMANCIPAÇÃO NA ÍNDIA OCIDENTAL, discurso proferido em Nova York, em 3 de agosto de 1857. Consultado em maio de 2020: https://rbscp.lib.rochester.edu/4398 :
Those who profess to favor freedom and yet deprecate agitation, are men who want crops without plowing up the ground, they want rain without thunder and lightning. They want the ocean without the awful roar of its many waters.
This struggle may be a moral one, or it may be a physical one, and it may be both moral and physical, but it must be a struggle. Power concedes nothing without a demand. It never did and it never will. Find out just what any people will quietly submit to and you have found out the exact measure of injustice and wrong which will be imposed upon them, and these will continue till they are resisted with either words or blows, or with both. The limits of tyrants are prescribed by the endurance of those whom they oppress... If we ever get free from the oppressions and wrongs heaped upon us, we must pay for their removal. We must do this by labor, by suffering, by sacrifice, and if needs be, by our lives and the lives of others.
2 Expressão criada por Stockley black power (poder negro) após sua 27ª detenção, em 1966: ““Estamos gritando liberdade há seis anos… O que vamos começar a dizer agora é poder negro.” 
3 Os Panteras Negras (Black Panther Party for Self-Defense) foi criado em 1966 pela comunidade negra para a sua proteção em face das arbitrariedades a que eram submetida  na sociedade racista e segregacionista norteamericana.
4 Goulart, H. R. de P. (2019). Entre os Estados Unidos e o Atlântico Negro: o Black Power de Stokely Carmichael (1966-1971).  Dissertação (Mestrado)- Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, p. 15.
5  O banco de dados americano mais compreensivo sobre assassinatos por policiais.
6 Sakamoto, L. (2020). Nos EUA, protestos contra o racismo. No Brasil, um ato com tochas acesas. UOL. Consultado em maio de 2020: https://noticias.uol.com.br/colunas/leonardo-sakamoto/2020/05/31/nos-eua-protestos-contra-o-racismo-no-brasil-um-ato-com-tochas-acesas.htm?cmpid=copiaecola.
7 Dito por Neilton Pinto, pai do garoto João Pedro, assassinado pela polícia do Rio de Janeiro.
8 Deister, J. (2020). Em memória de João Pedro: 800 organizações denunciam violência do Estado nas favelas. Brasil de Fato: Rio de Janeiro (RJ), 27 de Maio de 2020. Consultado em maio de 2020: https://www.brasildefato.com.br/2020/05/27/em-memoria-de-joao-pedro-800-organizacoes-denunciam-violencia-do-estado-nas-favelas.
9 Miranda, E. (2020). Procura-se João Pedro: jovem desaparecido em ação policial é encontrado morto no Rio. Rio de Janeiro: Brasil de Fato, 19 de maio de 2020. Consultado em maio de 2020:  https://www.brasildefatorj.com.br/2020/05/19/procura-se-joao-pedro-jovem-desaparecido-em-acao-policial-no-rio-e-encontrado-morto

sexta-feira, 22 de maio de 2020

O MUNDO DE JOHNNY E GHEORGHE


Antonio Caubi Ribeiro Tupinambá






A frieza britânica, a distância européia divergem da falsa espontaneidade estadunidense e permitem criar dramas que, mesmo tratando temas tabu trazem desfechos implacáveis e pouco óbvios. A pobre vida psíquica dos ianques se contrapõe à riqueza existencial europeia. Foi no velho mundo que se descobriu o inconsciente, foi no novo mundo que se tentou negocia-lo. Dessas negociações surgiu a sua negação e rejeições que originaram delirantes abordagens do psiquismo humano à sombra da psicanálise, tratando-a como rival a ser destruída, parcialmente destruída, desidratada ou substituída por esquemas simples que explicassem a natureza humana a serviço do seu controle: deveria servir ao controle do psíquico para se tornar americana. “Pseudo-evoluções teóricas” acerca do psiquismo humano com práticas correspondentes obtiveram êxito na sociedade do imediatismo e consumismo. A mesma sociedade que gera Trumps, movimentos neo-pentecostais fundamentalistas, KKK e outras aberrações bem conhecidas. Quase tudo, exceto a psicanálise poderia vingar nessas condições culturais e sociais, e nesse modo de vida onde não cabe a existência de um "inconsciente".
"Não sabem que estamos lhes trazendo a peste!1” dizia Freud ao  chegar em solo norte-americano em 1909.  De fato garantiu que se espalhasse no Novo Mundo a sua disciplina, contudo sem garantir a sua autenticidade, por motivos óbvios. Para Jacques Lacan, que diz ter ouvido essa frase de Jung, companheiro de Freud na viagem, "ele havia acreditado que a psicanálise seria uma revolução para a América, e, na realidade, a América é que tinha devorado sua doutrina.2” 
Apesar das conferencias de Freud terem viabilizado a difusão da psicanálise pelo mundo, ele, que ficara pouco mais de um mês nos Estados Unidos nunca mais mostrou interesse em retornar ao país e, até morrer, guardou sempre certo cepticismo com as ideias e as ações originadas naquele país.
Ferenczi, que também acompanhou Freud em sua viagem à América o havia perguntado se deveria levar consigo uma cartola (símbolo do Tio Sam), no que Freud, presume-se porque, respondeu que planejava comprar uma in loco e, que na viagem de volta, a jogaria ao mar3.
Sem dúvida a recepção que teve no país anfitrião deixou Freud feliz e enaltecido. Gênio inegável mas destratado na própria casa; saindo de uma Europa hostil e vendo a psicanálise abrir novos horizontes: "Na Europa, sentia-me como um proscrito, enquanto na América os melhores recebiam-me como um de seus pares”… mas deixa claro sua alegria pelo retorno ao Velho Mundo, à sua velha Viena: "Estou muito feliz por estar de volta e ainda mais feliz por não ter que viver na América”. Afinal de contas "A América é o mais gigantesco experimento que o mundo já viu, mas temo que não seja destinado ao sucesso".  E diz a seguir: "Sim, a América é colossal, um erro colossal.4”
Nada poderia ser mais premonitório e conclusivo. A América como um erro colossal, que teria seu apogeu na fabricação de governos que massacram e inquietam o mundo até nossos dias.
O pragmatismo norte-americano quis destruiu a psicanálise tornando-a um instrumento de adaptação do homem à sociedade. A transformação da psicanálise em uma terapia inserida em um compêndio de psicologia ou psiquiatria, sua visão terapêutica com poder de cura tornou-a em um novo ideal de felicidade “…capaz de dar solução à moral sexual da sociedade democrática e liberal: o homem não estava condenado ao inferno de suas neuroses e de suas paixões. Pelo contrário, podia curar-se delas.5”
Tudo passando pelo triturador moral e do pragmatismo estadunidenses perdendo plasticidade e complexidade. Assim como a psicanálise sofreu para agradar o "way of life norte-americano, com as simplificações e as distorções que disso derivam” vê-se perdido no atual engodo dessa nova civilização que não deu certo, qualquer história de abordagem complexa do humano, na vida, nas teorias ou no cinema, como a que vamos relatar a seguir. Facilmente teria tido um fim trágico, seja perdendo sua natureza plástica, seu intimismo; da mesma forma e perspectiva, para atingir esse enquadramento, agradar à moral vigente e caber nessa ordinária “way of life” que tenta reduzir tudo a um molde, uma explicação simples e digerível.  
Os alcances limitados dos significados ou a falta deles, característicos de uma cultura massificada, se contrapõem à riqueza imagética, detalhes da vida inconsciente que é assumida pelo “europeu”. Sem implicar em conflitos morais ou exigir adaptações fáceis e previsíveis  possibilita na arte desfechos humanos para questões humanas. Até mesmo um “happy end” em um filme de temática “gay” num contexto inusitado, incomum entra no campo dessas possibilidades, como nos trouxe Lee; mas esse possível, do lado de cá imitando a vida, não é necessariamente o mesmo por lá, na terra da eterna ficção moral ianque: “Então é como num filme americano, um filme americano bem ruim”, diz Liar antes de morrer sem realizar o sonho de abrir seu relacionamento com Yossi no drama israelense “Yossi and Jagger6”, referindo-se aos sempre reservados finais infelizes para casais gays de Hollywood.
Assistindo a Gods Own Country7 percebi que esse roteiro não poderia, portanto, ser de um filme concebido e rodado para as plateias estadunidenses, pois não  atende a uma banalização da história em nome da sua way of Life, a uma falta de reconhecimento de uma vida “inconsciente”, a uma carência de soluções que humanizam.  Essa é uma das características da cinematografia gay dos Estados Unidos; há de se ter um final infeliz para que aquilo  fora do padrão, que ameace o status quo, que se mantém fora da norma, não cause um desespero no “pré-consciente” coletivo. Não por menos, filmes de Hollywood de sucesso neste espectro têm um apelo à desgraça infinita, ao castigo e  à punição, bem ao modo behaviorista, trade mark da psicologia americana antipsicanalítica. Citando apenas três de cada lado do Atlântico: "O segredo de Brokeback Mountain”; "Boys don't cry" (meninos não choram)"  e Philadelphia8 contra "Beautiful thing (Delicada atração)”; "Maurice" e o título motivo mor do nosso texto atual, o belo "Gods own country”.
 A localidade que abriga sua história, ou seja a história do inglês Johnny e do romeno Gheorghe fica em Yorkshire no Norte da Inglaterra, sim, na terra de Charlotte Brontë, sendo que nossa história se passa nos tempos atuais. Uma cidadezinha nada metropolitana, com personagens pitorescos, muitos deles agarrando qualquer oportunidade para fugir do tédio local, por exemplo, uma bolsa de estudos para uma escola em qualquer centro urbano. Outros, habituados à vida rural, não pensariam nisso, é para eles natural o ciclo de vida com seus limites demarcados por cercas de pedras toscas e sendas estreitas. 
Não parece uma história contada por alguém que faz pela primeira vez um longa-metragem do gênero, no caso seu diretor, Francis Lee. Realmente um trabalho notável e vale ressaltar, trata-se sim de seu primeiro filme.  Lee escolheu ambienta-lo no que há de mais rural no Norte da Inglaterra: uma fazenda que nas proximidades conta com um único local onde os poucos habitantes do vilarejo podem tomar sua cerveja e mudar de ares nas noites sem opções. Muitas cervejas no caso do nosso Johnny. Há uma criativa solução para desencadear o intrigante enredo que vai fixar nossos olhares e criar mil expectativas. Como terminará tudo isso? Ocorrerá o tradicional desfecho hollywoodiano da tragédia gay ou será reservada alguma solução mais poética, diferentemente de histórias que passam pelo crivo da censura moralista estadunidense? Mas estamos falando de um filme europeu, portanto podemos pensar em um pouco mais de vida humana habitando a terra e a tela. A implacável solidão de Johnny, a vida absolutamente monótona numa família com dois membros a mais: pai e avó, ambos, aparentemente amargos e secos, apegados a uma rotina de fazendeiros ingleses esquecidos pelo mundo e vítimas de uma natureza gélida e agressiva. Para Johnny sobra a cerveja em demasia e o sexo limitado, não falado, que vem depois e não pode ter continuidade. 




A vinda do imigrante romeno Gheorghe, um desconhecido que deve passar uma semana ajudando o jovem Johnny, para os familiares pouco responsável, pouco competente e pouco capaz de tocar sozinho o duro trabalho diário. Uma solução que gera desconforto e protesto será também redenção e autodescoberta. Quer no círculo existencial limitado em que vive no pequeno povoado, quer nos estranhos sentimentos que lhe perturbam, não adentram quaisquer resquícios de felicidade ou prazer. Há o seco das relações familiares, a ausência das relações sociais, a fuga na noite, no álcool e nas formas insólitas e insatisfatórias de prazer sexual. Quem esperava tragédia ou humilhação nas condições afastadas do urbano e distante das constituições familiares londrinas mais tolerantes se enganou. Lee nos traz para um campo de diferentes e inusitadas sensações olfativas, táteis, visuais… que vão se descortinando à medida que a gélida relação imaginariamente competitiva do lado de Johnny esbarra na caliente e inesperada atitude de humanismo de Gheorghe, um fazendeiro desconhecido, “fugido” das agruras e problemas de seu país, rejeitado como um "cigano" qualquer. Tantos símbolos de dureza e prisão em que se acerca Johnny vão sendo aos poucos substituídos por libertação e descobertas. A amplitude e leveza da vida que Gheorghe mostra ao aprisionado Johnny. O contraponto do amor desprendido, despretensiosamente, oferecido. O confronto desse amor e dessa vida com o sofrimento eletivo do inglês. A abertura de horizontes ao leva-lo às alturas de onde se avista até o infinito até então desconhecido pelo dono da terra, na própria terra. O gesto simples de fazê-lo sentir leveza na pele dura e maltratada que cultiva em sinal de desprezo pessoal… Todos são caminhos que revelam doçura e humanidade de alguém como ele, um fazendeiro longe de suas terras e da terra natal, um estrangeiro qualquer, que pode se oferecer, sem receios ou medo. O efeito transcende os dois e recai sobre o que Johnny vive (ou não vive) em família. Há cenas e desfechos impossíveis de se pensar na cinematografia gay americana, limitada e previsível. Mesmo com a delicadeza com que é tratado o tema não vejo como pode dar certo naquele sociedade que não deu certo, como já previa Freud em 1909. Há aqui o humano, o complexo, a vida inconsciente e seus efeitos que é reconhecida e atualizada sem boicotes, negações ou falsas adaptações. Como disse Ernest Jones, biógrafo de Freud: há por ali [na sociedade americana] uma ignorância monumental! 9 
E é essa ignorância que quer nos reger e que devemos combater e não imitar!
Vivas às artes e ao cinema!
Parabéns Francis Lee, Alec Secăreanu e Josh O’Cornner (diretor e atores).

Fortaleza 21 de maio de 2020.


1 Roudinesco (1998) apud Myriam Chinalli (2010). A chegada da peste: cem anos da viagem de Freud aos EUA (1909-2009). Arquivo Maaravi: Revista Digital de Estudos Judaicos da UFMG. Belo Horizonte, v. 4, n. 7, out. 2010. 
2 Idem.
3 Worcester e As cinco lições de psicanálise apud Myriam Chinalli (2010).  A chegada da peste: cem anos da viagem de Freud aos EUA (1909-2009). Arquivo Maaravi: Revista Digital de Estudos Judaicos da UFMG. Belo Horizonte, v. 4, n. 7, out. 2010. 
4 Todas as citações deste parágrafo: .(Ricci 2005 apud Myriam Chinalli (2010). A chegada da peste: cem anos da viagem de Freud aos EUA (1909-2009). Arquivo Maaravi: Revista Digital de Estudos Judaicos da UFMG. Belo Horizonte, v. 4, n. 7, out. 2010. 
5 Roudinesco & Plon, 1998 , apud Myriam Chinalli (2010). A chegada da peste: cem anos da viagem de Freud aos EUA (1909-2009). Arquivo Maaravi: Revista Digital de Estudos Judaicos da UFMG. Belo Horizonte, v. 4, n. 7, out. 2010. 
6 Yossi & Jagger (Delicada Relação). Filme israelense de 2002, dirigido por Eytan Fox, sobre a rotina diária de soldados na fronteira entre Israel e Líbano e o romance secreto entre o sargento, Lior (Yehuda Levi), cujo apelidado é "Jagger" por seu estilo de astro do rock e Yossi, reservado e taciturno.
7 Apesar de ser traduzido por “Reino de Deus”, prefiro a tradução literal “País de Deus” porque livra desse pejo religioso que agradaria aos fundamentalistas norte-americanos. Talvez para nós “português-hablantes” melhor seria traduzido (livremente) como “Terra de Ninguém”.
8 “Filadélfia” foi absolutamente dessexualizado seguindo um padrão hipócrita hollywoodiano, onde tudo acontece por debaixo dos panos, mas na tela tudo tem que ser “limpinho” — uma cena na cama com os personagens de Hanks e Banderas fora inclusive cortada. Para Hanks  cenas como aquela poderiam tirar o foco da empatia que a produção queria promover junto ao [ridículo e obtuso] público norte-americano.
9 Ricci, 2005 apus Myriam Chinalli (2010). A chegada da peste: cem anos da viagem de Freud aos EUA (1909-2009). Arquivo Maaravi: Revista Digital de Estudos Judaicos da UFMG. Belo Horizonte, v. 4, n. 7, out. 2010.