POLIS

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O projeto nasce com foco no comportamento político nas sociedades contemporâneas e nos efeitos dos movimentos sociais e políticos atuais sobre as liberdades e processos emancipatórios, bem como seus impedimentos em escala local, nacional e global. Tem por objetivos o desenvolvimento de um campo interdisciplinar de reflexão e prática investigativa e divulgadora, reunindo debates em torno de questões como: preconceito, racismo, sexismo, xenofobia, movimentos sociais, violência coletiva social, relações de poder, movimentos emancipatórios de povos e nações, valores democráticos e autoritarismos, laicidade, análises de discursos e ideologias, de universos simbólicos e práticas institucionais. Nessa perspectiva, o Polis atua desde sua criação formal em 2013, como projeto de extensão e em 2015 como Blog para divulgação e atualização.

domingo, 27 de setembro de 2026

K30+ (Kátia Freitas no Cineteatro São Luiz)

 











K30+

Cineteatro São Luiz

Fortaleza CE


Fui com quatro amigos: Orlando, Luiz, Miguel e David. Chamei outros e outras mas por motivos diversos declinaram do convite. Falo do show musical da Kátia Freitas, cantora cearense que mantém-se com brilhantismo na cena musical por mais de trinta anos. Não sei da sua idade, mas hoje a vejo dona da mesma beleza, vitalidade e doçura de há anos atrás, nos idos anos 1990, quando ainda iniciava no mundo da música e, ao mesmo tempo, transitava pela universidade, época de sua graduação. O K30+ é seu mais recente trabalho que tivemos a oportunidade de ver hoje, 27 de setembro de 2026 no palco do majestoso Cineteatro São Luíz em Fortaleza. Kátia é dona de uma qualidade rara entre artistas: a singeleza.  Não confunda isso com simplicidade oriunda de uma ausência de elaboração, mas de uma simplicidade consciente, capaz de colocar a canção, a palavra e a emoção no centro do espetáculo e da nossa experiência. Quando ouvi mais uma vez a música “Palavra” de sua autoria, constatei que mantém e, nesse show especialmente, esse "singelo" que creio tem permeado sua música e sua vida. Isso combina com a importância que a palavra tem em sua estética. Sei que alguma vez Katia citou, nada mais nada menos do que Clarice Lispector como uma de suas grandes influências na escrita e ainda mencionou como a palavra literária sempre esteve ligada à sua formação artística:

Palavra

Kátia Freitas

(1995)


A palavra é bela
Eu sinto a vida nela
A palavra soa
A palavra não não é a toa

A gente aprende a palavra
A palavra já estava
A palavra prende a gente
A palavra é o que nos salva

A palavra consciente mente
A palavra representa
A palavra só cala quem consente
A palavra orienta

A palavra mata o objeto
O objeto pode ser direto ou indireto
O adjetivo pode ser ingrato
A palavra é um substantivo abstrato

Bendita a palavra farta
no que falta o fato
Bendito o ponto
no que está pronto
no que está morto, parto.


Não se pode esquecer o que significa e qual a dimensão que tem essa “Palavra”. Para nossa querida cantora, “ a música ‘Palavra’ nasce no momento em que ela passa a ‘dizer coisas’ através das próprias canções. Ela resume esse processo ao afirmar que o disco acabou se tornando um trabalho em que apresentava sua próprias composições e começava a construir uma voz própria como cantora e compositora”.

Kátia celebrou, com seu show, 30 anos do álbum “K”, que havia sido lançado em 1995. Não ficou por aí, ela ainda nos brindou, ao mesmo tempo, com canções inéditas apontando para uma nova etapa de sua trajetória artística.

Singeleza também pode significar força, como ela nos deixou claro nessa noite que foi um presente aos presentes. 

Kátia não pretendeu transformar sua história em monumento para se olhar, admirar e simplesmente se passar ao largo… Há algo que vai muito além disso; algo particularmente bonito na proposta de K30+:  um retorno às canções para reencontrar seu público e novos públicos, que permite um diálogo no tempo entre o novo e o que foi criado há três décadas. Nesse diálogo eu encontrei o que chamo a força de uma singeleza. Canções como “Anjos”, “Um qualquer” e “Notícias boas”, ao lado da mais conhecida de todas “Coca-Colas e iguarias”, recuperam a memória de uma época, mas não aparecem apenas como peças históricas, pois se recolocam e ressurgem diante de um público que já a conhecia mas ainda assim não é o mesmo, pois mudou, mas também diante de um público novo que ainda não a conhecia, pelo menos tão de perto. Amei também ouvir suas músicas inéditas. Já havia assistido a parte de sua entrevista para a rádio FM Universitária, que me desvendou o segredo da música intitulada Eu e Tu, na qual ela traz uma história, um romance, adoçado por palavras em francês. Assim, as músicas inéditas, que ela teve o cuidado de nos informar antes ou após canta-las, foram fundamentais nesse processo, nesse diálogo com o tempo. Assim, a nostalgia passou longe nesse show. Ela olhou para trás sem esquecer de apontar os caminhos musicais que está trilhando, anos inconclusos, uma especie de rito de passagem para um próximo capítulo de sua criação que nos deixou feliz pelo que está por vir. Essa memória sem excessiva nostalgia não a impediu de homenagear Cristiano Pinho, apontando para um violão no palco e a ele se remetendo, fazendo-o presente como memória musical no show. Emocionante vê-la fazendo essa homenagem  com mais sentimento do que explicações.

O show que transitou entre o que passou e o que ainda está por vir é lindo e singelo desde o seu nome K30+, no qual há memória no K30, que deve representar os trinta anos de um trabalho que eu penso nos marcou como audiência mas também marcou um período da música cearense enquanto o + seria aquilo que ainda vem ou mesmo o que já veio de novidade neste show. Kátia não apenas revisitou-se com saudosismo mas pôs o que acumulou e guardou de experiência para ir adiante, criar e descobrir novas e boas músicas com a qualidade Katia Freitas de compositora que sempre nos traz belas surpresas. 

Seria injusto não falar aqui de sua banda (a que esteve no palco, hoje): Gabriel, Eduardo, Márcio, Edmundo e Kevin, que permitiram K30+ ter a qualidade que teve, a sonoridade que acompanhou a potente voz da protagonista, emoldurando-a. Um quadro musical lindo. Músicos que também reforçaram a ideia de um encontro entre tempos musicais diferentes, com um passado revisitado, atualizado e a modernidade fortalecida. Eu vi um show que respeitou esse tempo que passou sem levar as coisas embora; um tempo que transforma, consolida e permite que se dê novos significados a canções já ouvidas e traga novas canções ainda a serem ouvidas. Eu não a ouvi gritar lá do palco que sua trajetória já tinha 30 anos. Cantar foi suficiente. Bastou cantar: “A singeleza do gesto acaba revelando a dimensão da caminhada — e as músicas inéditas mostram que, depois de três décadas, ainda há muito por dizer”.

Parabéns Kátia. Nós amamos te ver e ouvir mais uma vez!

Antonio C. R. Tupinambá

Fortaleza, 27 de setembro de 2026.


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