Lula e Zohran em N.Y.
Hoje, 21 de setembro de 2026, é um dia para celebrar justiça e paz entre os povos. Não exagero, apenas contraponho ao que ocorre em outras datas nas quais um dos maiores vilões do mundo, Donald Trump se encontra com líderes mundiais para destilar seu “veneno bélico”. A data de 21 de setembro em Nova York ficará marcada pela singeleza e simbolismo do encontro entre dois líderes, que emana cordialidade e justiça. Levaram-me a um outro patamar, onde imaginei o ressurgimento de uma utopia por muitos já abandonada e esquecida. No entanto, entrever o ressurgimento dessa utopia sinalizou o fato de que as grandes ideias nunca morrem de verdade; elas apenas hibernam.
Esse encontro entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o prefeito de Nova York, Zohran Mamdani tem, portanto, um forte significado político e simbólico. Encontro que ocorreu na residência do representante do Brasil junto à ONU, solicitado pelo próprio Mamdani. Às vésperas da abertura da 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas, a última sob o comando do português António Guterres, um acontecimento que ultrapassa os limites de Nova York e até mesmo as fronteiras dos Estados Unidos.
Mamdani assumiu a prefeitura de Nova York recentemente, em janeiro de 2026. Como Lula teve o cuidado de dizer durante a reunião, o jovem de apenas 34 anos terá uma vida pela frente para levar a cabo uma liderança essencial e ir adiante com a missão de cumprir suas promessas de campanha, especialmente em torno do bem estar das novaiorquinas e dos novaiorquinos. O primeiro prefeito muçulmano de Nova York e o mais jovem a comandar a cidade em mais de um século não economizou palavras elogiosas ao presidente Lula, a quem considera como uma inspiração na defesa dos trabalhadores e das pessoas mais pobres.
Ele é muito jovem. E deve ter uma causa muito forte que o levou a ser prefeito. Ele não pode perder em nenhum momento o discurso que ele fez para ganhar as eleições. Nesse momento histórico, a minha luta é para ver se conseguimos dignificar a humanidade contra o desprezo e o esquecimento que as lideranças do mundo têm contra o povo pobre, disse Lula.
O simbolismo desse encontro histórico pode ser visto justamente no contraste entre as trajetórias e, ao mesmo tempo, na convergência de algumas preocupações que ambos têm com a pobreza, o custo de vida, a desigualdade, a proteção dos trabalhadores e a defesa da democracia. Temas que fizeram parte das conversas entre os dois que também giraram em torno de políticas destinadas às populações mais vulneráveis e sobre o enfrentamento do extremismo político.
É um encontro de duas almas preocupadas com problemas que extrapolam os limites de suas regiões e pertencem ao mundo. Isso acontece em um momento em que a Assembleia Geral da ONU procura discutir, exatamente, como recuperar a confiança nas instituições internacionais e enfrentar transformações globais. Uma agenda de discussões entre nações que inclui guerras, mudanças climáticas, inteligência artificial, desigualdade e tensões geopolíticas. Lula e Mamdani conversaram:
Sobre a proposta de redução da jornada de trabalho que tramita no Congresso Brasileiro, para garantir o fim da escala 6x1, possibilitando que os trabalhadores possam usufruir de dois dias livres por semana. Discutimos, ainda, a importância da defesa da democracia e do enfrentamento do extremismo e da desinformação no mundo todo. (palavras do próprio presidente!)
A conversa Lula–Mamdani pode, em um contexto tão complexo, ser vista como um símbolo da tentativa de recolocar a questão social no centro do debate político internacional: problemas como moradia cara, perda de poder de compra, precarização do trabalho e desigualdade atravessam diferentes sociedades.
Ao ver Lula e Mamdani discursando em um mesmo pódio, na cidade de Nova Iorque à margem da reunião da ONU, no país liderado pela besta fera trumpista, o que me vem à cabeça é uma certa imagem para descrever esse encontro: dois homens de tão diversa dimensão e origem confluindo para reacender a esperança, naquele sentido utópico que nos move e nos mostra novamente uma luz no fim do túnel. Algo que pode ter uma leitura política e simbólica que transcende qualquer conclusão objetiva sobre seus resultados. O que está acontecendo é a prova da existência de líderes, nesse confuso quadro político mundial, que enfatizam temas relacionados à redução das desigualdades, à democracia e à proteção dos mais vulneráveis em contrapartida à sede de guerra, acumulação de riqueza e desprezo pelos demais; tônica do governo estadunidense atual, sob a segunda presidência de Donald Trump (iniciada em janeiro de 2025), estruturada pela doutrina "America First" (América Primeiro). Uma administração que foca em uma postura fortemente nacionalista, de desregulamentação agressiva, controle estrito de fronteiras e uma política externa violenta baseada no conceito de “conquistar a paz (sic!) através da força.
O tête-à-tête Lula-Zohran também evidenciou uma importante dimensão geracional sempre muito bem enfatizada por Lula ao se reportar a seu parceiro. Lula, nos altos dos seus 80 anos e Mamdani com apenas 34 se encontram num marco temporal para buscar o bem para o planeta e para a humanidade. Lula, com sua longa trajetória política, encontra uma jovem liderança que chegou à prefeitura da maior cidade dos Estados Unidos defendendo políticas voltadas ao custo de vida e à justiça social. A imagem dos dois conversando descontraidamente, inclusive com a troca simbólica de presentes (camisas de futebol de times de Nova York e do Corínthians), acrescentou um elemento de proximidade afetiva e humana ao encontro.
Troca de presentes
Em uma época marcada por guerras, polarização e desconfiança nas instituições, o encontro colocou no centro da conversa questões bastante concretas da vida das pessoas — comida, moradia, trabalho, renda, democracia e dignidade, trazendo à baila preocupações comuns e autênticas aos dois líderes e humanistas.
Muito mais do que um encontro entre dois governantes, nele se vê um momento simbólico de diálogo entre gerações, mundos e ideais, nos quais política social, redução de desigualdades e defesa da democracia aparecem como temas capazes de aproximar experiências, gerações e universos tão distintos. A esperança surge não na promessa de, em um único encontro resolver todos os problemas do mundo, mas em deixar claro que é possível fazer com que grandes lideranças voltem a conversar sobre o enfrentamento de problemas reais, para tornar a vida das pessoas mais digna e menos desigual.
Antonio C R Tupinambá
Fortaleza, 21 de setembro de 2026.
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