POLIS

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O projeto nasce com foco no comportamento político nas sociedades contemporâneas e nos efeitos dos movimentos sociais e políticos atuais sobre as liberdades e processos emancipatórios, bem como seus impedimentos em escala local, nacional e global. Tem por objetivos o desenvolvimento de um campo interdisciplinar de reflexão e prática investigativa e divulgadora, reunindo debates em torno de questões como: preconceito, racismo, sexismo, xenofobia, movimentos sociais, violência coletiva social, relações de poder, movimentos emancipatórios de povos e nações, valores democráticos e autoritarismos, laicidade, análises de discursos e ideologias, de universos simbólicos e práticas institucionais. Nessa perspectiva, o Polis atua desde sua criação formal em 2013, como projeto de extensão e em 2015 como Blog para divulgação e atualização.

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

O INDESEJADO DOMÍNIO CHINÊS NO TIBETE: Tibetanos Exigem Liberdade e Verdade. (1)



 

        Bandeira do Tibete

Na prisão nós vivíamos de esperança: esperança de um Tibete livre, que o mundo enxergasse além da propaganda chinesa e que a política do Dalai Lama funcionasse — quando essa esperança diminuía ou nossa luta parecia impossível, isso era a pior coisa. Sabíamos que não apenas nós, que estávamos na prisão, sofríamos. Todos os nossos amigos e familiares lá fora também estavam sofrendo. A falta de comida, a tortura e o trabalho forçado não eram o que havia de pior para mim — mas sim a pressão psicológica constante de querer um Tibete livre e ter essa esperança esmagada. (2)



Este ano vê-se ao redor do mundo vários movimentos liderados pelo povo tibetano no exílio. Seja na Índia, Austrália, Suíça ou Estados Unidos, o sentimento de levar a sua nação consigo vem a público em cada encontro que esse povo valente organiza para expor aquilo que está acontecendo dentro de seu território que continua ocupado por um país estrangeiro, ou seja, pela China. 

Em 2 de julho de 2026, Lobga Rangzen, um desses exilados tibetanos, morreu após atear fogo ao próprio corpo em frente à sede das Nações Unidas, em Nova York. Na sua última mensagem, instou os tibetanos a não lamentarem sua morte, mas a continuarem a luta pela independência da sua pátria, o Tibete. A opressão chinesa sobre suas vidas e seu território foi por ele descrita como a raiz dos problemas enfrentados pelo povo tibetano. Sua luta nada mais foi do que uma afirmação de vários fatores:

— Representação de Liberdade e independência: Ele acreditava que os tibetanos deveriam ser capazes de determinar seu próprio futuro político. 

— Preservação da identidade tibetana: Sua mensagem enfatizava a proteção da religião, língua, cultura e identidade tibetanas.

— Unidade entre os tibetanos: Ele convocou tibetanos de diferentes regiões e tradições religiosas a priorizarem sua identidade tibetana comum e a trabalharem juntos para sua sobrevivência.

— Atenção internacional: Ao agir diante da ONU, buscou atrair a atenção do mundo para o que considerava a contínua negação dos direitos e da liberdade dos tibetanos e para o direito de autoafirmação do seu povo.

— Sacrifício pessoal: Para seus apoiadores, sua morte tornou-se um símbolo do sacrifício pessoal extremo que alguns tibetanos fizeram pela causa da independência. Sua família e organizações tibetanas descreveram-no como um defensor de longa data da liberdade do Tibete.

Lobga Rangzen e seus apoiadores caracterizavam o Tibete como um território ocupado e defendiam a independência, enquanto o governo chinês sustenta que o Tibete faz parte da China. Seu ato de atear fogo ao próprio corpo foi também uma forma de protesto que muitos governos e organizações não endossam como método de ação política.

Em suma, Pawo Lobga Rangzen representa, para seus apoiadores, a luta do povo tibetano para preservar sua identidade e reconquistar a liberdade e a autodeterminação que acreditam ter perdido. Seu apelo final foi, essencialmente, que sua morte não encerrasse o movimento, mas fortalecesse a luta contínua pela liberdade e autonomia do Tibete.


        Pawo Lobga Rangzen


No dia 1º de Agosto de 2026, mais um ato em memória de Lobga Rangzen ocorreu em Nova York. Desta feita com a presença de um dos grandes apoiadores da luta pela liberdade e autonomia dos tibetanos, o ator estadunidense Richard Gere. 

Richard Gere tem sido um dos mais conhecidos defensores da causa tibetana há mais de quatro décadas. Seu envolvimento vai além do simples apoio de uma celebridade; ele desempenha um papel ativo na defesa da causa, na arrecadação de fundos e em atividades políticas.

Ele começou a se interessar pelo budismo tibetano no início da década de 1980. Gere conheceu o 14º Dalai Lama e desenvolveu com ele uma relação pessoal e espiritual próxima. Gere descreveu a tradição budista tibetana como algo que exerceu profunda influência em sua vida.

Ele ajudou a fundar a Tibet House US em Nova York, em 1987, juntamente com o acadêmico Robert Thurman e o músico Philip Glass. A organização trabalha para preservar e divulgar o patrimônio cultural e religioso tibetano.

Em 1991, fundou a Gere Foundation, que apoia os direitos humanos, a educação e a preservação da cultura tibetana, entre outras causas humanitárias.

Desde 1995, atua como presidente da International Campaign for Tibet (ICT). Nessa função, discursou no Congresso dos EUA, no Parlamento Europeu e em fóruns ligados às Nações Unidas sobre direitos humanos, liberdade religiosa e a situação política no Tibete. Também ajudou a trazer o Dalai Lama aos Estados Unidos para visitas importantes e palestras públicas.

Gere apoia firmemente os direitos humanos dos tibetanos, a preservação cultural e religiosa, as liberdades democráticas e sua autodeterminação. Sua atuação foi, por vezes, associada ao movimento de independência do Tibete; no entanto, a posição política do próprio Dalai Lama é a abordagem do "Caminho do Meio", que busca uma autonomia genuína para os tibetanos dentro da República Popular da China, em vez da independência total. Gere tem apoiado a abordagem do Dalai Lama para resolver a questão de forma pacífica. Desse modo, Gere tornou-se uma importante voz internacional em prol do Tibete, utilizando sua fama para chamar a atenção para a situação do povo tibetano em locais como Washington e as Nações Unidas. Em 2025, a organização Human Rights First prestou-lhe uma homenagem justamente por seu compromisso de décadas com o Dalai Lama e com os direitos humanos, as liberdades democráticas e a autodeterminação dos tibetanos.

Seu envolvimento também é motivo de controvérsia sob a perspectiva da China. O governo chinês considera o Dalai Lama um separatista e opõe-se fortemente à defesa que Gere faz do Tibete. Consequentemente, Gere está impedido de entrar na China. Em termos simples: Richard Gere é, ao mesmo tempo, um estudioso de longa data do budismo tibetano e um importante defensor internacional dos direitos, da liberdade, da identidade cultural e da autodeterminação do povo tibetano. Em 1ª de agosto de 2026, Richard Gere reafirmou suas posições pro-Tibete na vírgilia pelo mártir Lobga Rangzen em Nova Iorque onde disse claramente: “O Tibete não está somente ocupado mas também corre o risco de ter seu povo e sua cultura destruídos”. (Vide: “Richard Gere/ Vigil for Martyr Lobga Rangzen/08-01-2026/Tibetan National Congress NYNJ.”


        Tibete


A China assumiu o controle do Tibete em 1950 como parte do que descreveu como uma claramente falsa outorga de liberdade à região, umalibertação pacífica” da região. O líder espiritual tibetano, o Dalai Lama, fugiu para o exílio na Índia depois de uma revolta fracassada contra o domínio chinês em 1959. Não sem razão, ele denominou o controle de Pequim de genocídio cultural”. Enquanto isso Pequim o chamava de “separatista perigoso” e, criou uma outra figura religiosa para substitui-lo. Em tese reconheceu um tal Panchen Lama como a mais alta figura religiosa do Tibete. Essa “entidade” político-religiosa, o Panchen Lama, foi, portanto, uma decisão arbitrária tomada pelo partido comunista chinês. Pode-se considerar que essas foram políticas coercivas para eliminar tradições linguísticas, culturais e religiosas do Tibete entre suas gerações mais jovens. Crianças tibetanas são levadas para internatos administrados pelo governo que fazem parte de políticas coercitivas e repressivas de assimilação. Isso não é feito somente com os tibetanos, pois também com a desculpa de suspeitas” de extremismo na sua minoria muçulmana, Pequim prende ou envia milhares deles para os chamados, eufemisticamente, centros de educação ideológica e treinamento profissional”, o que na realidade também não passam de novos campos de concentração e prisão política. Nesse caso específico, campos de internamento, que se tornam um “buraco negro” da repressão do regime chinês contra a etnia uigur formada por muçulmanos, visando a sua “transformação ideológica”. As Nações Unidas já manifestaram preocupação com o sistema de escolas residenciais no Tibete que agem como um “programa obrigatório em grande escala destinado a assimilar os tibetanos na cultura majoritariamente Han”.(3) Segundo a ONU, o sistema só se expande: escolas rurais sendo fechadas e cerca de 1 milhão de crianças separadas das suas famílias para frequentar essas instituições onde são forçadas a completar um currículo de educação obrigatória” na língua mandarim, ignorando completamente qualquer conhecimento da língua, história e cultura tibetanas, que não têm nada a ver com essa educação compulsória chinesa: Como resultado, as crianças tibetanas estão a perder a facilidade com a sua língua nativa e a capacidade de se comunicar facilmente com os seus pais e avós na língua tibetana, o que contribui para a sua assimilação e erosão da sua identidade”.(4)

Apesar de todo o controle de Pequim sobre o Tibete não foi possível eliminar totalmente as expressões de insatisfação e inconformismo da população local contra as ações de dominação coercitiva dos invasores chineses na região. Muitos continuam pagando com a própria vida pelo direito de dizer não à presença indesejada do governo chinês que lhes querem roubar sua alma tibetana e substitui-la por uma alma chinesa. A imolação, ato extremo de desespero, infelizmente tem se repetido entre os tibetanos vítimas dessa crescente repressão chinesa sobre seu país. O acesso à região é restrito e os gritos finais dos imolados sempre se reduzem a duas palavras que simbolizam a luta de mais de 3 milhões de tibetanos: “Tibete livre”. A sobrevivência do Tibete está ameaçada. O poderio bélico e econômico da China tira de cena as nações que se declaram democráticas e defensoras da ordem mundial. Tumular é o silêncio dessas nações cúmplices da ameaça de desaparecimento de todo um povo, de uma cultura e de uma região sociopolítica diferenciada, em consequência de um trabalho destrutivo organizado pelos invasores chineses. Qualquer invasão de um país por outro pode parecer um absurdo, mas os chineses fazem algo pior do que isso no Tibete: não somente o invadem mas colaboram com o desaparecimento de uma cultura e, dessa forma, empobrecem a humanidade com a substituição do que sempre se teve naquele país em termos de autonomia e autenticidade cultural, que se apresenta como o oposto da “globalização”: uma expressão máxima do espiritual, uma simbologia a ser preservada, ora a ser esvaziada pela ganância de ditadores, a força bruta da nação imperialista invasora. Pode-se afirmar que a repressão religiosa no Tibete tem por meta enfraquecer o sistema tradicional tibetano que está no poder dos lamas e das instituições religiosas; o sentimento de independência e de unidade nacional do seu povo, bem como a identidade do Tibete como um país distinto da China: “assim, desde o início da ocupação, religião tem sido o principal alvo de repressão no Tibete. De acordo com estatísticas do próprio governo chinês, 80% dos 2.500 mosteiros da Região Autônoma do Tibete foram destruídos nos 15 primeiros anos da invasão, e os outros foram destruídos durante a Revolução Cultural”.(5) O roubo da alma de um povo começa com o assalto à sua língua. Quando a Indonésia invadiu o Timor Leste, adotou como providência primordial a proibição do idioma afetivo e sua substituição pelo idioma dos invasores. Assim, o português foi substituído pelo bahasa indonésio, no caso do Timor, uma fala estrangeira e identificada com a história de repressão e medo. Os chineses não agem diferentemente no Tibete. Há um decreto das autoridades da República Popular da China que introduz a língua chinesa nas escolas primárias tibetanas. Como já havia afirmado a jornalista Lia Diskin, “a linguagem é a maneira de estabelecer sua rede de comunicação, o instrumento pelo qual ocorre a entrada e saída da vida, análogo aos poros da pele, que possibilitam a alimentação e a retroalimentação — a linguagem é, para as culturas, a epiderme. Quando uma cultura é atacada em sua linguagem, simplesmente fecha-se essa epiderme, fecham-se seus poros e elimina-se qualquer possibilidade de manter aberturas de troca, para dentro e para fora. Não resta mais a essa cultura, então, nenhuma possibilidade de sobrevivência”. Para Diskin, trata-se de asfixia de sua expressão, um sinal perverso e carregado de sentimento hostil para com o povo e a cultura tibetanos, algo semelhante ao que se conhece na história dos povos originários na América Latina:  “O colonizador das terras já sabe o que é isso: a extinção dessa riqueza maravilhosa do continente latino-americano, das culturas extraordinárias que se deram neste continente e que hoje tentamos resgatar, de modo quase desesperado. A língua tupi-guarani, a língua ianomâmi, resgatar algo que hoje sabemos que é extremamente valioso. Repetir essa atitude com um povo nos dias de hoje, com o desenvolvimento da consciência que o mundo já obteve, é não estar à altura dos tempos”. O governo chinês não permite a entrada de qualquer pessoa que acredite possa estar ligada a movimentos de apoio ao povo tibetano ou mesmo de jornalistas credenciados, a exemplo do que ocorreu com a proibição da entrada do ator estadunidense Richard Gere, apoiador confesso do povo tibetano. Muitos deles, quando conseguem chegar por lá, não demoram a ser expulsos. No entanto, na atual situação somente a presença de diplomatas poderia permitir relatos mais atuais e testemunhos mais legítimos dessa tragédia. Nesses quarenta anos de exílio, o Dalai Lama fez com que o Ocidente olhasse para o Tibete, e muito do apoio que os tibetanos têm hoje se deve a seu trabalho e carisma. Ao mesmo tempo que o Tibete recebe o apoio da comunidade internacional, passa por um momento de crise, porque em termos de política externa nada mudou e entre os tibetanos existe um sentimento de apatia e desilusão. 

Já a atuação da comunidade internacional em relação à emancipação do Tibete é considerada tímida devido à forte dependência econômica global e à influência geopolítica da China. Embora existam manifestações diplomáticas em defesa dos direitos humanos, o apoio prático à independência ou autonomia significativa da região enfrenta sérios limites pragmáticos. A China é uma potência comercial central para a maioria das nações ocidentais e asiáticas. Reduzir laços econômicos com Pequim para defender a soberania tibetana geraria custos políticos e financeiros considerados proibitivos pelos governos. A esmagadora maioria dos países do mundo, incluindo os Estados Unidos e membros da União Europeia, adota formalmente a política de que o Tibete é parte integrante do território chinês. As ações governamentais estrangeiras costumam se limitar a resoluções de condenação, relatórios anuais de direitos humanos e recepções informais ao Dalai Lama, sem aplicação de sanções econômicas ou pressões diplomáticas significativas. Os Estados Unidos possuem uma das legislações mais ativas sobre o tema, como o Tibetan Policy and Support Act, que prevê sanções a oficiais chineses que interfiram na sucessão do Dalai Lama. O foco, contudo, permanece na preservação cultural e nos direitos humanos, e não na independência formal. A Índia abriga o governo tibetano no exílio em Dharamshala e milhares de refugiados desde 1959. Apesar de fornecer o suporte humanitário e geográfico essencial para a sobrevivência do movimento, Nova Deli evita chancelar oficialmente a independência do Tibete para gerenciar as tensas relações fronteiriças com a China. A União Europeia manifesta frequentes preocupações com a liberdade religiosa e cultural na região em fóruns da ONU, mas as decisões unânimes do bloco travam diante do receio de represálias comerciais por parte de Pequim. Porém a ideia de que a resistência ou o desejo de emancipação no Tibete ocorre quase exclusivamente no exílio não é verdadeira, pois há persistência e resistência internamente, a despeito da repressão severa que sofrem por parte do governo da China. Essa luta interna é majoritariamente pacífica, e mesmo assim sob grande repressão. As atividades dos tibetanos no exílio conseguem maior visibilidade mundo afora mas a população local busca implementar estratégias e táticas de resistência  de forma a contornar o forte controle de Pequim no Tibete.

Muitos veem o Tibete como uma causa perdida, o que implicaria afirmar que a China é totalmente imune à pressão internacional, e isso não é verdade. Para que haja uma medida efetiva com relação à libertação do país é preciso que os interesses humanos superem os interesses comerciais. E, no momento, o mundo continua dando prioridade aos interesses econômicos. “Além das formas tradicionais de luta a favor dos tibetanos, pode-se contar, nos nossos dias, com novos recursos na internet para que sejam ativados os alarmes necessários e possa surgir alguma maneira de pressão que venha a ecoar em Pequim. Um exemplo desses novos modelos de luta foi criado pelo grupo intitulado Students for a Free Tibet (SFT), que já atua há anos em solidariedade ao povo tibetano em sua luta pela liberdade e independência. “Por meio da educação, da organização de base e da ação direta não violenta, fazemos campanha pelo direito fundamental dos tibetanos à liberdade política”.(6) Trata-se, portanto, de uma rede de jovens ativistas que atua em diferentes regiões do planeta.

Em 2026, o movimento pró-Tibete está vivenciando uma onda massiva de mobilização global, desencadeada principalmente pela implementação, pela China, de uma nova lei controversa e por um ato trágico e de grande repercussão como protesto. Severas restrições de segurança e vigilância digital avançada tornam praticamente impossível a realização de protestos de rua públicos e em larga escala dentro do Tibete sem repressão imediata por parte do Estado, mas a diáspora tibetana global e aliados internacionais lançaram manifestações generalizadas, greves de fome e campanhas de lobby político em vários continentes este ano. 

A "Lei de Unidade Étnica e Progresso” é uma legislação, que entrou em vigor em 1º de julho de 2026, e desencadeou protestos globais. Grupos de direitos humanos, como a Campanha Internacional pelo Tibete (ICT), condenam a lei como um instrumento legal para o “apagamento cultural” e a assimilação forçada. A lei obriga escolas, famílias e organizações a priorizarem uma identidade nacional chinesa singular, ameaçando a preservação da língua tibetana, da fé budista e dos estilos de vida nômades tradicionais. A autoimolação de Lobga Rangzen em 2 de julho de 2026 — apenas um dia após a entrada em vigor da lei — ativista tibetano,  que morreu após atear fogo ao próprio corpo em frente à sede das Nações Unidas, na cidade de Nova York reacendeu vários protestos virtuais e presenciais. Em memória a Lobga Rangzen foi realizado o "Dia do Mártir" em Nova Iorque com a presença de Richard Gere. A trágica morte do tibetano se tornou um catalisador imediato, reacendendo a indignação internacional e fornecendo um ponto focal sombrio para subsequentes homenagens e protestos globais. Após a morte de Rangzen e a entrada em vigor da lei de assimilação, protestos coordenados espalharam-se rapidamente por toda a diáspora. Na Índia (Nova Délhi, Dharamshala, Mumbai, Sikkim) registraram-se diversas manifestações: Em Nova Délhi, centenas de exilados tibetanos realizaram grandes manifestações em frente à Embaixada da China. Alguns manifestantes rasparam a cabeça em um gesto simbólico de luto e desafio ao Partido Comunista Chinês (PCC). Em Dharamshala (sede da Administração Central Tibetana), o Congresso da Juventude Tibetana (TYC) iniciou uma greve de fome global e contínua, em sistema de revezamento e com duração de várias semanas, para exigir a intervenção da ONU. Manifestações pacíficas de solidariedade também ocorreram em outras grandes regiões, incluindo Mumbai e Sikkim. Em frente à sede das Nações Unidas (Nova York), ativistas e famílias lotaram Manhattan e a Times Square, agitando bandeiras tibetanas e marchando até o Consulado da China para exigir que líderes mundiais pressionassem Pequim a revogar a lei. Na Europa, especialmente em Genebra, Berna, Bruxelas e Londres tibetanos no exílio e outros apoiadores marcharam em meados de agosto de 2026, (mais de 200 manifestantes) até o Parlamento Suíço, em Berna. Mobilizações em massa concentraram-se em Genebra, com a organização de uma marcha de grande repercussão do Palais Wilson até o Palais des Nations (sede da ONU), culminando em uma vigília de oração à luz de velas. Protestos coordenados também ocorreram em frente às embaixadas da China na Bélgica, nos Países Baixos e na Espanha. Além desse ativismo de rua, o movimento pró-Tibete tem concentrado esforços significativos na defesa de causas em nível estrutural e institucional. Delegações organizadas reuniram-se diretamente com legisladores nas principais capitais de países do Ocidente. Em junho, o Grupo Voluntário de Defesa do Tibete (V-TAG) liderou uma iniciativa de lobby no Parlamento do Reino Unido. Esforços semelhantes ocorreram em Washington, D.C., onde ativistas instaram membros do Congresso dos EUA a aprovarem a lei “Assuring the Future of Tibet Act”, ou seja, uma lei para Assegurar o Futuro do Tibete.

No início deste ano, jovens ativistas tibetanos de oito países europeus reuniram-se no Tirol do Sul, na Itália, para estabelecer novas estratégias de defesa de causas, impulsionadas pela tecnologia, para o restante de 2026. Isso significa uma defesa de causas para as próximas gerações e para manter o ímpeto do movimento, fazendo com que as gerações mais jovens assumam papéis de liderança.

Dentro da Região Autônoma do Tibete (RAT), protestos abertos continuam sendo fortemente reprimidos. Pequim reagiu mobilizando mais de 22.000 membros de suas forças policiais e de segurança  diretamente nas aldeias tibetanas para impor lealdade política, monitorar canais de comunicação e restringir a liberdade de movimento. Jornalistas e observadores independentes relatam que o número de tibetanos que conseguem escapar para o exílio caiu para níveis historicamente mais baixos devido à intensa segurança nas fronteiras, transformando a região em um dos “buracos negros” de informação mais fechados e rigorosamente monitorados do planeta comparando-se ao que ocorre nas fronteiras da ditadura norte-coreana. 



Tibetanos Exigem Liberdade e Verdade: Um Grito pela Libertação


Noite sobre o Tibete

Nossa bandeira ainda vive

não na terra,

mas na memória,

em sussurros levados através das montanhas

que fronteiras não conseguem silenciar.

A China chegou

não como convidada,

mas como uma sombra —

intrusa,

sem fim —

e chamou isso de “libertação”.

Tomaram nossa terra,

tomaram nossa voz,

tiraram o céu de nossas orações

e o substituíram por fios,

câmeras em cada esquina,

olhos que nunca dormem —

observando como corujas na escuridão,

caçando o silêncio.

O Tibete tornou-se noite.

Não porque o sol nos esqueceu,

mas porque a verdade foi trancafiada,

a mídia cortada,

histórias enterradas sob estradas de concreto

construídas para transportar o controle.

Dentro do Tibete,

um sussurro é perigoso.

Uma oração é resistência.

Um idioma é rebelião.

Fora do Tibete,

o mundo ouve pouco —

ou escolhe não ouvir.

As Nações Unidas viram suas páginas,

líderes mundiais polem seus discursos,

e a justiça espera

em um corredor longo e silencioso.

Enquanto isso,

os tibetanos queimam —

não de raiva,

mas de uma luz final e desesperada.

Chamas que se erguem

onde vozes são negadas,

corpos tornando-se mensagens

que o mundo não pode ignorar —

mas que ainda ignora.

Não somos violentos.

Não somos silenciosos.

Ainda estamos aqui.

Não pedimos pena,

mas verdade —

o direito de respirar

como quem somos.

Somos tibetanos.

Diferentes na história,

diferentes na cultura,

diferentes na comida que compartilhamos,

nas orações que entoamos,

no sangue que se lembra das montanhas.

Nenhuma lei pode apagar isso.

Nenhuma ocupação pode se apropriar disso.

Não pedimos —

declaramos:

Queremos nossa liberdade.

Queremos nosso país.

Queremos nosso céu de volta.

E mesmo nesta longa noite,

permanecemos —

“inconquistados”

em espírito.

Por Tenga Rangzen @rangzen pelo Tibete




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Antonio C. R. Tupinambá

20 de agosto de 2026.


_________________________________________________________
(1) Baseado no artigos escritos originalmente em 2011 e do texto da brochura lançada em evento pelos 100 anos de proclamação da restauração da independência do TIbete: TUPINAMBÁ, A. C. R. Tibete independente: ecos de uma luta. Fortaleza: Polis-UFC, 2013.
(2) Dawa Kyizom. Presa política em 1990. Centro Tibetano para os Direitos Humanos e Democracia, 1998 apud WIEDEMANN, J. P. Tibet: um país sob o jugo e a opressão. Monografia. Universidade Federal de Uberlândia, abril, 2002.
(3) A etnia Han é o maior grupo étnico da China. Por ser amplamente majoritária, a cultura Han é frequentemente confundida com a própria identidade cultural do país.
(4) Afirmação de um grupo de espertos das Nações Unidas. Disponível em: https://www.aljazeera.com/news/2023/8/23/us-imposes-new-china-visa-curbs-over-alleged-forced-assimilation-in-tibet. Acesso em: maio de 2024. 
(5) WIEDEMANN,J. P. Tibet: um país sob o jugo e a opressão. Monografia. Universidade Federal de Uberlândia, abril, 2002, p. 52.
(6) Students for a Free Tibet. Amplifying the voices of Tibetans in Tibet. Disponível em:  <https://studentsforafreetibet.org>.  Acesso em: 2019.

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