POLIS

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O projeto nasce com foco no comportamento político nas sociedades contemporâneas e nos efeitos dos movimentos sociais e políticos atuais sobre as liberdades e processos emancipatórios, bem como seus impedimentos em escala local, nacional e global. Tem por objetivos o desenvolvimento de um campo interdisciplinar de reflexão e prática investigativa e divulgadora, reunindo debates em torno de questões como: preconceito, racismo, sexismo, xenofobia, movimentos sociais, violência coletiva social, relações de poder, movimentos emancipatórios de povos e nações, valores democráticos e autoritarismos, laicidade, análises de discursos e ideologias, de universos simbólicos e práticas institucionais. Nessa perspectiva, o Polis atua desde sua criação formal em 2013, como projeto de extensão e em 2015 como Blog para divulgação e atualização.

terça-feira, 25 de agosto de 2026

Honestino: a memória de um tempo que ainda não passou.





Hoje tive a oportunidade de assistir ao filme Honestino, dirigido por Aurélio Michiles, documentário que combina depoimentos, imagens de arquivo, cartas, poemas e cenas dramatizadas por Bruno Gagliasso para reconstruir a trajetória de Honestino Guimarães, líder estudantil da Universidade de Brasília e presidente da UNE, desaparecido em 1973, aos 26 anos, durante a ditadura militar. Filme de estréia recente (13 de agosto de 2026) tem tido sua exibição limitada a cinemas que primam por obras fora do circuito comercial, como o cinema onde estive, o do Centro Cultural Dragão do Mar em Fortaleza.

O filme tem muitos méritos. Um dos seus principais está na oportunidade que tem de transformar a memória de Honestino em um verdadeiro tratado e numa reflexão pertinente e atual sobre autoritarismo, resistência e preservação da história. Não apresenta, com a excelente atuação de Bruno Gagliasso, o personagem Honestino somente como um símbolo político, pois ali se procura recuperar também sua dimensão humana: o estudante, o amigo, o pai e o jovem que teve sua vida pessoal interrompida pela repressão e o sadismo dos militares no maior regime de excessão que o país já viveu. 

A beleza das cartas e poemas (deixa a vontade de ir buscar e ler tudo o que escreveu), a relação com o singelo, o amor saindo em direção às pessoas e ao mundo mesmo nas condições mais adversas em que se encontrou, contribuem bastante para essa humanização.

Há também uma estrutura documental bem estruturada e inserida no contexto que se torna, provavelmente, um dos aspectos mais fortes do filme. Depoimentos de familiares e companheiros de militância, associados a registros históricos, dão legitimidade e autenticidade à narrativa. Apesar da própria ausência de imagens de Honestino que pudessem se fazer suficientes  para contar sua história — consequência, em parte, do contexto de perseguição que viveu — observa-se um elemento significativo: o filme precisa reconstruir aquilo que a ditadura tentou apagar. 

Honestino foi preso repetidas vezes por sua militância. Em 1973, aos 26 anos, foi capturado no Rio de Janeiro e nunca mais voltou. Seu corpo não foi localizado, e o Estado brasileiro passou décadas negando à família até mesmo o direito elementar de conhecer as circunstâncias de sua morte. [O sofrimento imensurável da mãe desesperada por não ter notícias do filho que ama pode levar às lágrimas quem assiste]. Em 1996, seus familiares receberam um atestado de óbito que nem sequer informava a causa. Somente em 2013, quarenta anos depois de seu desaparecimento, Honestino foi reconhecido como anistiado político post mortem, com o registro da responsabilidade estatal pela violência que interrompeu sua vida. Em 2025, o Brasil deu um novo passo nessa política de reparação ao determinar a retificação das certidões de centenas de mortos e desaparecidos políticos. Onde antes havia omissões, eufemismos e mentiras oficiais, os documentos passaram a registrar que aquelas mortes foram “não naturais, violentas, causadas pelo Estado brasileiro”, no contexto da perseguição sistemática promovida pelo regime ditatorial instaurado em 1964. Não se trata de uma simples alteração cartorial. É o reconhecimento de que o Estado não pode continuar escondendo, em seus próprios registros, os crimes cometidos por seus agentes. (1)




As cenas dramatizadas com Bruno Gagliasso têm sido alvo de elogios e críticas de vários lados. Para mim cumprem seu papel. Trazem aquilo que os algozes quiseram apagar: seus movimentos, sua sensibilidade, amor pela pátria, provando mais uma vez que os verdadeiros patriotas eram aqueles estudantes que lutavam pela emancipação do país, por sua liberdade e os entreguistas, os destruidores da nação eram os políticos e militares, bem como parte da população civil que tinham o sangue dos jovens estudantes nas sua mãos de sádicos assassinos. Como em algumas críticas, também vi sua atuação (Bruno Gagliasso) expressiva e devidamente adequada à proposta, especialmente porque ele funciona como uma espécie de ponte entre o personagem histórico e o espectador contemporâneo, entre o vazio da informação que queriam deixar os torturadores e a recuperação do jovem e sua vida. Assim, as reconstituições que são feitas com a atuação do Bruno em determinados momentos do documentário, apesar de ter um impacto distinto daquele dos documentos, depoimentos reais e imagens de arquivo, complementam a força emocional da narrativa. Para mim, aquilo atualizou o documentário, tornando-o mais vívido e dando ares de filme à proposta documentária.

Uma questão pode trazer certa diferença imagética: quanto mais o filme se aproxima dos documentos reais, mais realista,  tocante e poderoso ele parece e quando tenta reproduzir cinematograficamente aquilo que não foi registrado, torna a história mais próxima de um filme longa metragem deixando de ser puramente documental. É uma decisão para ser tomada pela audiência dizer o que achou da justaposição das duas formas de narrar a história. Para mim, a escolha de misturar documentário e ficção foi legítima, interessante e não é restrita a esse filme. Não houve perda por isso, pelo contrário, ao trazer as cenas “cinematográficas" à riqueza que se apreendeu do material histórico colhido com tanta dificuldade, foi feita uma atualização da história, trouxe-a aos dias atuais.

E como o filme é mesmo atual. Impressionante! Na situação hodierna do país, que corre permanente rico de perder sua frágil democracia, há um outro ponto que não pode deixar de ser considerado: Honestino não se limita ao passado. Trata-se de uma grande obra de atualização que estabelece uma relação clara entre a experiência da ditadura e os riscos contemporâneos do autoritarismo. Dessa forma, o filme funciona não apenas como biografia, mas como reavivamento da lembrança, uma advertência política: compreender como a repressão começa, como a violência estatal se intensifica e como o silêncio contribui para o apagamento da memória. Essa dimensão de atualidade foi destacada por críticas que enxergam a obra quase como um “filme-aviso”. Por isso o recomendo e digo sem receio: Não deixe para amanhã se você puder assistir a ele ainda hoje. Ao recuperar Honestino, o filme recupera também a importância da democracia, da liberdade de expressão e do direito à memória. Vale a pena mencionar a bela cena na qual Honestino é diplomado post mortem em Geologia pela Universidade de Brasília em julho de 2024, recebendo o título que lhe subtraíram os sádicos ditadores. 

SEM ANISTIA PARA GOLPISTAS!





Antonio C. R. Tupinambá

Fortaleza, 25 de agosto de 2026.

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(1) Bianca Borges, “Honestino”: memória não é passado, é compromisso com o futuro. Blog da BoitempoPublicado em 13/08/2026.


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