POLIS

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O projeto nasce com foco no comportamento político nas sociedades contemporâneas e nos efeitos dos movimentos sociais e políticos atuais sobre as liberdades e processos emancipatórios, bem como seus impedimentos em escala local, nacional e global. Tem por objetivos o desenvolvimento de um campo interdisciplinar de reflexão e prática investigativa e divulgadora, reunindo debates em torno de questões como: preconceito, racismo, sexismo, xenofobia, movimentos sociais, violência coletiva social, relações de poder, movimentos emancipatórios de povos e nações, valores democráticos e autoritarismos, laicidade, análises de discursos e ideologias, de universos simbólicos e práticas institucionais. Nessa perspectiva, o Polis atua desde sua criação formal em 2013, como projeto de extensão e em 2015 como Blog para divulgação e atualização.

terça-feira, 16 de setembro de 2025

O conto "O quarto da Luz Brilhante" de Saadat Hasan Manto como exemplo de sua escrita em Bombaim.

 





Saadat Hasan Manto examinou as divisões físicas e morais da sociedade em seu estilo quase científico, ainda que sarcástico... Quando morreu em Lahore, em 1955, deixou para trás uma conquista incomparável, uma obra muito procurada como grande arte e como um marco da tradição liberal-humanista no Sul da Ásia.

Alamgir Hashm


Saadat Hasan Manto, um escritor à frente de seu tempo, raro em seu estilo, pôde captar o que havia de mais autêntico e essencial nas cidades em que viveu. Refiro-me aqui, em especial, à cidade de Bombaim, seu grande e inesquecível amor. Vejo-o captando os lados sombrios daquela metrópole da Índia, antes da divisão que ocorreu no subcontinente indiano em 1947. Escreveu sobre o que viveu, com grande intensidade. Apesar de ser originário do Punjab, passou muitos anos na cidade que adotou como sua, Bombaim, onde trabalhou como escritor, além de colaborar com o cinema local. Inegável que corpo e alma emergiam nos seus contos e que suas experiências pessoais faziam parte daquilo que escrevia. Histórias urbanas que traziam humor mas também seriedade, às vezes eram soturnas, satíricas e cheias de projeções do que ele próprio passava e sentia naqueles dias. Em constante movimento, foi cada vez mais se entregando ao vício do álcool para aguentar a dura realidade da vida naquela cidade ao mesmo tempo atraente e complicada para alguém que desejava viver do ofício da escrita. Uma cidade vítima dos muitos infortúnios do país em processo de divisão e das lutas que destruíam laços comunitários. Esse era o alto custo que todo um povo pagava para se libertar do jugo britânico.  


O mundo de Manto nem sempre foi agradável; porque era real. Quando as pessoas se opunham à obscenidade em suas histórias, ele dizia: ‘Se você não consegue suportar essas histórias, então a sociedade é insuportável. Quem sou eu para tirar as roupas desta sociedade, que já está nua? Eu nem tento vesti-la, porque não é meu trabalho, esse seria um trabalho de “costureiros”.(1) 


Um autodidata que causava desconforto com sua escrita e estilo de vida, com a verdade dita e praticada por ele. Na cara dos leitores confusos, chocados, decepcionados ou mesmo orgulhosos e admirados com seu texto inconfundível, jogava seus dois maiores vícios: a escrita e o álcool.


Tudo o que ele fez foi capturar a realidade ao seu redor sem perder nenhum detalhe. Alguns de nós tentamos ser politicamente corretos e deixar a feiura da realidade fora da escrita; Manto nunca fez isso. Quando via sangue, não desviava o olhar. Quando via qualquer sujeira, não se esquivava de falar sobre isso. É por isso que a peculiaridade está sempre presente no que escreve. Mesmo quando falava de política, ele não escolhia um lado, confortavelmente. Na verdade – como sempre faz – ele deixava você desconfortável com verdades não ditas.(2)


Em sua breve carreira Manto escreveu quase sem interrupção, apesar das dificuldades pelas quais passou antes durante e depois dos eventos da Partição no subcontinente indiano. Escrevia sempre em urdu, seu idioma materno, para o qual também traduziu várias obras inglesas, russas e francesas. Muitos dos seus escritos autorais foram traduzidos para o inglês, um dos quais traduzi livremente para o português a fim de introduzi-lo neste ensaio. A partir de certa altura da sua vida, ainda na Índia,   tratou de temas relacionados ao evento da Partição, que estão permeados pelas tragédias dela resultantes. A obra de Manto, como nos revelam os personagens do conto traduzido, mergulha na vida dos marginalizados da sociedade, acompanhando a trajetória de famílias desestruturadas, gangues, prostitutas e de outras vítimas em seus cotidianos, seja da exploração sexual ou de abusos ainda mais extremos como o estupro. Histórias sem rodeios, cheias de indignação que querem dar voz aos que eram obrigados a silenciar.

O conto que transcrevo foi, como toda sua produção literária, originalmente escrito em urdu. Trata-se de uma tradução livre a partir da versão em inglês de Khalid Hasan. O quarto da Luz Brilhante traz um sabor do que se pode esperar do cardápio literário desse gênio da literatura indo-paquistanesa e grande humanista.





O Quarto da Luz Brilhante


Ele ficou em silêncio perto de um poste de luz nos Jardins Qaiser, pensando em como tudo parecia tão desolado. Algumas tongas(4) aguardavam clientes que não apareciam nem estavam à vista.

Há alguns anos, este costumava ser um lugar tão alegre, cheio de homens e mulheres animados, felizes e despreocupados, mas tudo parecia ter ido por água abaixo. A área agora estava cheia de arruaceiros e vagabundos sem ter para onde ir. O bazar ainda estava lotado, mas havia perdido seu brilho. As lojas e prédios pareciam abandonados e sujos, olhando uns para os outros como viúvas de olhos vazios.

Ele ficou ali parado, imaginando o que havia transformado os outrora elegantes Jardins Qaiser em uma favela. Para onde tinham ido toda a vida e a agitação? Aquilo o fazia lembrar uma mulher de quem se havia retirado toda a maquiagem.

Recordou-se de que, há muitos anos antes, quando se mudara de Calcutá para Bombaim a trabalho, tentara em vão, durante semanas, encontrar um quarto naquela área. Não havia nada.

Como os tempos haviam mudado. A julgar pelo tipo de gente nas ruas, qualquer um podia alugar um local ali agora — tecelões, sapateiros, merceeiros.

Olhou ao redor novamente. O que costumava ser escritórios de empresas cinematográficas agora eram quartos com fogões, e onde as pessoas elegantes da cidade costumavam se reunir à noite passou a ser quintais com lavanderias.

Não foi nada menos que uma revolução, mas uma revolução que trouxe decadência. Nesse meio tempo, ele deixou a cidade, mas soube por meio de reportagens de jornais e amigos que ficaram para trás, o que aconteceu com Qaiser Gardens durante sua ausência.

Houve tumultos, acompanhados de massacres e estupros. A violência que Qaiser Gardens testemunhou deixou sua horrenda marca em tudo. Os outrora esplêndidos prédios comerciais e casas residenciais agora pareciam sórdidos e imundos.

Disseram-lhe que, durante os tumultos, mulheres foram despidas e seus seios decepados. Seria então surpreendente que tudo aqui parecesse nu e devastado?

Ele estava lá esta noite para buscar um amigo que havia prometido encontrar-lhe um lugar para morar.

Qaiser Gardens costumava ter alguns dos melhores restaurantes e hotéis da cidade. E se alguém se interessasse por isso, as melhores garotas de Bombaim podiam ser obtidas graças aos bons serviços dos cafetões de alta classe da cidade que costumavam frequentar o local.

Lembrou-se dos bons momentos que tivera ali naqueles dias. Pensava com nostalgia nas mulheres, na bebida, nos elegantes quartos de hotel! Por causa da guerra, era quase impossível conseguir uísque escocês, mas ele nunca tivera que passar uma noite sem beber. Qualquer quantidade de uísque escocês caro era sua, bastava pedir, desde que pudesse pagar.

Olhou para o relógio. Eram quase cinco horas. As sombras da noite de fevereiro começavam a se alongar. Amaldiçoou o amigo que o fizera esperar. Estava prestes a entrar em um lugar à beira da estrada para tomar uma xícara de chá quando um homem malvestido se aproximou dele.

'Quer alguma coisa?', perguntou ao estranho.

'Sim', respondeu em um tom conspiratório.

Ele o confundiu com um refugiado que estava passando por dificuldades e queria dinheiro. "O que você quer?", perguntou.

Não quero nada. Ele fez uma pausa, aproximou-se e disse: 'Precisa de alguma coisa?'

'O quê?'

'Uma garota, por exemplo?'

'Onde ela está?'

Seu tom não era nada encorajador para o estranho, que começou a se afastar. 'Parece que você não está realmente interessado.' 

Ele o interrompeu. Como sabe? O que você pode fornecer é algo de que os homens sempre precisam, mesmo na forca. Então, olhe, meu amigo, se não for muito longe, estou preparado para ir com você. Viu que eu estava esperando por alguém que não apareceu?' 

O homem sussurrou: 'É perto, muito perto, eu lhe asseguro.'

'Onde?'

'Aquele prédio a nossa frente.'

'Você quer dizer aquele?', perguntou ele.

'Sim.'

'Devo ir com você?'

'Sim, mas, por favor, ande atrás de mim.' Eles atravessaram a rua. Era um prédio decadente, com o gesso descascando das paredes e montes de lixo espalhados na entrada.

Atravessaram um pátio e depois um corredor escuro. Parecia que a construção havia sido abandonada em algum momento antes da conclusão. Os tijolos das paredes estavam sem reboco e havia pilhas de cal misturada com cimento no chão.

O homem começou a subir um lance de escadas em ruínas. "Por favor, espere aqui. Volto em um minuto", disse ele.

Ele olhou para cima e viu uma luz brilhante no final do patamar.

Esperou alguns minutos e então começou a subir as escadas. Ao chegar ao patamar, ouviu o homem que o havia trazido gritando: "Você vai se levantar ou não?" Uma voz de mulher respondeu: "Deixe-me dormir."

O homem gritou novamente: "Você me ouviu, vai se levantar ou não? Ou você sabe o que vou fazer com você."

A voz da mulher ecoou novamente: "Você pode me matar, mas eu não vou me levantar. Pelo amor de Deus, tenha misericórdia de mim.”

O homem mudou de tom: "Querida, não seja teimosa. Como vamos ganhar a vida se você não se levanta?"

"Que se dane a vida. Vou morrer de fome, mas, pelo amor de Deus, não me tire da cama. Estou com sono”, respondeu a mulher.

O homem começou a rugir de raiva: "Então você não vai sair da cama, sua vagabunda, sua vagabunda imunda...!" 

A mulher gritou de volta: "Não vou, não vou, não vou!”

O homem mudou de tom novamente: "Não grite assim. O mundo inteiro pode te ouvir. Vamos, levante-se. Poderíamos ganhar trinta, até quarenta rúpias."

A mulher começou a choramingar: "Eu imploro, não me faça ir. Você sabe quantos dias e noites eu fiquei sem dormir. Tenha pena de mim, por favor."

‘Não vai demorar muito,’ disse o homem, ‘só algumas horas e depois você pode dormir o quanto quiser. Olha, não me faça usar outros métodos para te persuadir.

Houve um breve silêncio. Ele atravessou o patamar na ponta dos pés e espiou o cômodo de onde vinha a luz muito forte. Não era um cômodo grande. Havia algumas panelas vazias no chão e uma mulher esticada no meio, com o homem com quem ele viera, agachado sobre ela. Ele apertava as pernas dela e dizia: "Seja uma boa menina agora. Prometo que voltaremos em duas horas e então você poderá dormir à vontade."

Ele a viu a se levantar de repente como um foguete no qual foi riscado um fósforo. "Tudo bem", disse ela, "eu vou." 

De repente, ele sentiu medo e desceu as escadas correndo. Queria se distanciar o máximo possível daquele lugar e de si mesmo, que se abrisse um grande espaço entre ele e aquela cidade.

Pensou na mulher que queria dormir. Quem era ela?

Por que estava sendo tratada com tanta desumanidade?

E quem era aquele homem? Por que o quarto era tão incessantemente iluminado? Os dois moravam lá? Por que moravam ali?

Seus olhos ainda estavam parcialmente ofuscados pela luz forte que vinha da lâmpada naquele quarto horrível lá em cima. Não conseguia enxergar direito. Será que não podiam ter colocado uma iluminação mais suave naquele quarto? Por que uma luz tão nua e impiedosamente brilhante?

Houve um barulho no escuro e um movimento. Tudo o que ele conseguia ver eram duas silhuetas, uma delas obviamente a do homem que ele havia seguido até aquele lugar horrível.

'Dê uma olhada', disse o homem.

'Sim', respondeu ele.

‘O que acha dela?'

'Está bem.'

'São quarenta rúpias.'

'Tudo bem.'

'Posso ficar com o dinheiro?'

Ele não conseguia mais pensar com clareza. Colocou a mão no bolso, tirou um punhado de notas e as entregou.

'Conte-as', disse.

'Tem cinquenta aí.'

‘Pode ficar.'

‘Obrigado.’

Ele sentiu vontade de pegar uma pedra bem grande e esmagar sua cabeça.

Por favor, leve-a, mas seja gentil com ela e traga-a de volta em algumas horas.

‘Certo.’

Ele saiu do prédio com a mulher e encontrou uma tonga esperando do lado de fora. Pulou rapidamente para o banco da frente. A mulher sentou no banco de trás.

A tonga começou a se mover. Pediu que o condutor parasse em frente a um hotel decadente e vazio. Eles entraram. Primeiramente olhou para a mulher. Os olhos dela estavam vermelhos e inchados. Ela parecia tão cansada que temeu que ela caísse no chão.

'Levante a cabeça', disse ele.

'O quê?', ela respondeu assustada.

'Nada, tudo o que eu disse foi para levantar a cabeça.'

Ela olhou para cima. Seus olhos eram como buracos vazios cobertos com pimenta moída.

'Qual é o seu nome?', perguntou.

‘Deixa pra lá.’ Seu tom era ácido.

‘De onde você é?’

‘O que isso importa?’

'Por que você é tão hostil?’

A mulher agora estava bem desperta. Ela o encarou com seus olhos vermelho-sangue e disse: ‘Termine seus negócios porque eu preciso ir?’

‘Para onde?’

‘Para onde você me pegou.’ Respondeu indiferente.

‘Você está livre para ir.’

‘Por que você não faz logo o que tem que fazer? Por que está tentando me ridicularizar?’

‘Não estou tentando ridicularizar você. Na verdade, sinto pena de você’, disse-lhe com uma voz simpática.

Não preciso de sua simpatia. Faça o que quer fazer, o motivo pelo qual tenha me trazido aqui e depois me deixe ir’, disse quase gritando.

Ele tentou colocar a mão em seu ombro, mas ela a afastou rudemente.

'Me deixe em paz. Não durmo há dias. Estou acordada desde que cheguei àquele lugar.'

'Você pode dormir aqui.'

'Eu não vim aqui para dormir. Esta não é a minha casa.'

'Aquele quarto é a sua casa?'

Essa pergunta pareceu enfurecê-la ainda mais.

'Pare com essa bobagem. Eu não tenho casa. Faça o seu trabalho ou me leve de volta. Você pode ter seu dinheiro devolvido por não ter feito nada, por isso...'

'Tudo bem, eu levo você de volta', disse ele.

No dia seguinte, ele contou sobre o ocorrido ao amigo que não tinha comparecido ao encontro. Ele ficou bastante comovido. 'Ela era jovem?', perguntou.

'Não sei', respondeu. 'O fato é que eu realmente quase nem olhei para ela. Eu só tive um desejo selvagem de matar aquele homem que me levou até ela.'

Os dois se separaram porque o amigo dele precisava ir a algum outro lugar. Ele ficou se sentindo morbidamente deprimido.

Caminhou em direção aos Jardins Qaiser, vasculhando atentamente a área, procurando por aquele homem, mas ele não se encontrava em lugar algum. Já era noite. Do outro lado da rua, podia ver o prédio. Involuntariamente, começou a caminhar em sua direção.

Atravessou o pátio e se viu ao pé da escada em ruínas. Olhou para cima. Havia uma luz forte no quarto no topo do patamar. Começou a subir, um degrau de cada vez. Tudo estava muito silencioso. Nenhuma voz, nada.

A porta estava aberta. Ele espiou. A primeira coisa que o atingiu foi a luz ofuscante da lâmpada nua. Virou o rosto abruptamente para afastar aquele brilho dos olhos.

Protegendo-os com a mão, olhou pela porta aberta novamente. Uma mulher dormia no chão, com o rosto coberto por um lençol fino, o peito subindo e descendo suavemente enquanto respirava ritmicamente. Ele deu um passo para dentro do quarto e quase gritou.

Ao lado da mulher, no chão descoberto, jazia um homem, com a cabeça esmagada com um tijolo ensanguentado.

Ele saiu correndo, escorregou e caiu escada abaixo. Mas não parou para examinar os ferimentos. Como um louco, continuou correndo pátio afora e entrou na rua escura.


Fortaleza (CE) setembro de 2025

Antonio C. R. Tupinambá

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(1) Rana, D.  Inside Saadat Hasan Mantos World. Disponível em:  <https://kalampedia.org/2020/12/10/inside-saadat-hasan-mantos-world/>. Acesso em: set. 2025.

(2) idem.

(3) Manto, S. H. A. The room with the Bright Light. In: A Wet Afternoon. Translated by Khalid Hasan. Islamabad (Pakistan): Alhamara, p. 173-179.

(4)  Veículo de duas rodas com tração animal.

quarta-feira, 10 de setembro de 2025

O que se passa no “reino” do Nepal?





    Foi em grande velocidade que se deram as negociações entre o governo do Nepal e os maoístas responsáveis pelos violentos protestos contra o regime monárquico no início de 2006. Com poucos dias após a escalada dos conflitos foi selado um acordo entre os dois grupos divergentes para superar mais de dez anos de guerra e por em cheque uma monarquia que já tinha mais de dois séculos de existência. Tais negociações significaram a inauguração de um novo sistema político no país sul-asiático com a suspensão da monarquia. Ao contrário do que sucedeu com outros sistemas monárquicos, nos quais tradição e democracia conquistaram uma convivência aceitável, no Nepal, a “realeza” se mostrou incompetente para lidar com as necessidades e anseios de seus súditos. Em consequência dessa impossibilidade, a nação nepalesa organizou-se em grupos de guerrilha para combater o absolutismo de um rei ostracista e indiferente ao sofrimento de uma população extremamente empobrecida. Encravado entre o Tibete e a Índia, o então reino do Nepal, era mais conhecido pela exuberância de suas montanhas e o exotismo de sua cultura, além da grande alegria e tratamento comedido dispensado a seus visitantes. Único país oficialmente hindu no planeta, conta ainda com uma significativa presença de fiéis budistas, não estando, contudo, na divisão religiosa as fontes de seus maiores conflitos. Pena que essa paz em torno da convivência religiosa não se estenda aos demais setores de sua vida social e política, como provam os últimos acontecimentos locais. A animosidade no ceio da população que resultou em revolta popular ainda em seu período monárquico recrudesceu quando no ano de 2001, em um grande massacre, membros da família real apareceram mortos de uma forma misteriosa. A substituição do rei morto pelo irmão sobrevivente não bastou para aplacar o ceticismo da população. Desde então o país experimentou uma troca constante de representantes políticos e testemunhou um grau crescente de rejeição popular ao novo mandatário real. O governo do então Primeiro Ministro, G. P. Koirala, caiu em consequência das pressões dos rebeldes maoístas, levando o rei a declarar o estado de emergência no país, na tentativa de acabar com a guerrilha. Essa atitude real somada a uma instabilidade econômica e política incitaram a revolta popular, que se espalhou rapidamente pelo país e levou à formação e fortalecimento dos núcleos de guerrilha. A população revoltada se acercou do palácio real na capital do país, Catmandu, em sinal claro de confronto político e do desejo de deposição do rei para que a monarquia fosse substituída por um regime democrático. A guerra civil já ceifava mais de 10 mil vidas, registravam-se abusos de direitos humanos e, com tudo isso, quase se levou o país à ruína econômica, gerando uma pobreza extrema, considerada recorde no mundo. A arbitragem das Nações Unidas (ONU) de pífia durante o conflito, passou a se impor no acordo que exigiu da guerrilha o abandono das armas e a desmobilização de seus homens para fazer parte de um Parlamento e de um governo interino, até que fossem realizadas novas eleições em meados de junho de 2007. Esperava-se que, dessa forma, se tornassem premonitórias as palavras do ministro Koirala sobre a nova era na qual entrava o país, quando a violência que dominava o seu cotidiano deveria desaparecer e dar lugar a uma política de conciliação. Em 2008, o Nepal tornou-se uma república, pondo fim a uma monarquia que durou 239 anos. No entanto, o país nunca escapou da crise agravada por fatores alheios à política como terremotos e outros desastres naturais. Como resultado, o Nepal transformou-se em uma nação de migrantes, de trabalhadores expatriados, que passaram a contribuir, com suas remessas do exterior, para a sobrevivência de suas famílias que ficavam para trás. O desejo de migrar manteve-se presente nos nepaleses e isso eu sentia na maioria daqueles com os quais travava alguma conversa, em situações informais ou institucionais, durante minha estada no país, seja em sua capital, Catmandu, ou em outras cidades, como Pokhara, Butwal e Lumbini.

O governo atual é apenas parte de uma sequência de governos que tentaram, sem sucesso, trazer ordem ao país republicano resultante de uma monarquia expoliadora e infeliz. São os mesmos três principais partidos do país que se sucedem no poder, frequentemente em coalizões alternadas. Os maoístas, em particular, que travaram uma guerra civil armada por dez anos, até 2006, guerra essa que ceifou mais de 16.000 vidas, foi perdendo apoio ao longo do tempo até chegar ao ponto de provocar a catástrofe  que hoje se testemunha, protagonizada por jovens da nomeada Geração Z (os nativos digitais). Além de Kathmandu e Jhapa, esses jovens encabeçam protestos em outras cidades como Pokhara, Butwal, Chitwan, Nepalgunj e Biratnagar, expressando seu descontentamento com a corrupção endêmica que destrói suas esperanças. Com o banimento do acesso da população às redes sociais deu-se o estopim da revolta. Acusados ​​de trair muitos de seus ideais, principalmente pelas incessantes acusações de corrupção, esses políticos roubam o futuro dos jovens e os prendem a um presente de infelicidade e pessimismo. A única saída vislumbrada seria o abandono de sua pátria em busca de trabalho e de realização pessoal em outros países. 

Uma instabilidade política, econômica e social domina esse país sul-asiático que não é de todo um país desimportante, como nos querem fazer crer.  Estrategicamente posicionado entre duas potências emergentes, o Nepal tem consciência do seu papel geopolítico estratégico, distinto e fundamental no cenário sul-asiático. Embora se distancie em termos de tamanho e influência global dos seus vizinhos gigantes, a importância geopolítica do Nepal, particularmente no contexto dos interesses estratégicos estadunidenses é inegável. À despeito dos atuais discursos do governo autoritário de Donald Trump, o mundo se torna cada vez mais multipolar com dinâmicas de poder em constante mudança. Cabe, nesse novo cenário, compreender o que se passa com Estados menores como o Nepal no contexto de um complicado quebra-cabeça geopolítico global e do multilateralismo.(1) Além dessas peculiaridades em sua geopolítica, trata-se de um país único, considerando sua cultura e multietnicidade. Sua população se aproxima dos 30 milhões de habitantes, que convivem em admirável harmonia apesar de pertencerem a diferentes grupos religiosos: 80% professam o hinduismo e 10% o budismo. Nesse lindo país do Himalaia, que abriga o Monte Evereste, paisagens montanhosas e cidade-lago de tirar o fôlego, também está a cidade de Lumbini, considerada o berço do nascimento de Buda, o príncipe Sidarta Gautama..


 



Uma terra com uma gente cheia de “amor para dar”, a qual tive a oportunidade de visitar em 2023, me permitiu mergulhar em um mar de cordialidade e respeito. Essa gente cortez, amável e pacífica que, em seu "código de ética" tem o princípio de respeito incondicional ao visitante, parece ter chegado ao limite da paciência, partindo para o contra-ataque, transformando em protesto a revolta contida. Até agora mais de vinte pessoas morreram e outra centena ficou ferida durante os grande protestos nacionais desde segunda feita, 8 de setembro de 2025. A intervenção policial com o uso de gás lacrimogêneo e canhões de água contra a população revoltada depois de ter adentrado uma área restrita da cidade ou mesmo quando já se aproximava do parlamento, não foi suficiente para demove-la de seus atos. Os protestos e as mortes mergulharam o Nepal em uma crise política que forçou o Ministro do Interior, Ramesh Lekhak, a renunciar ao cargo ainda na noite de segunda-feira, alegando “responsabilidade moral”; a seguir, na terça-feira, foi a vez do Primeiro-Ministro KP Sharma Oli também renunciar. Apesar de pouco crer, inspiro-me nos próprios nepaleses e em suas crenças para evocar os ensinamentos de Buda e do budismo em busca da equanimidade e da paz de espírito em tal situação extrema. E assim, que a ele se juntem Shiva, deus da preservação e Vishnu, responsável pelo equilíbrio do Universo, além do seu criador, Brahma, para fazer com que o amado povo nepalês encontre, no meio desse caos, uma saída rumo à paz e ao progresso, como bem merecem. 

No momento atual e “terreno” temos apenas tropas armadas guardando as principais áreas de Catmandu, que sinalizam o retorno de certa normalidade à cidade há pouco mergulhada no caos. Há uma ordem para que os moradores permaneçam em suas casas enquanto policiais revistam veículos e pessoas. Apesar de raramente serem convocados a sair dos quartéis, desta feita os militares o fizeram, pois a polícia, sozinha, não conseguiu controlar a escalada da violência nas ruas das cidades.



Antonio C. R. Tupinambá

Fortaleza, 10 de setembro de 2025.







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(1)Lula celebra inclusão de "multilateralismo" em dicionário francês.  https://www.poder360.com.br/poder-governo/lula-celebra-inclusao-de-multilateralismo-em-dicionario-frances/



sexta-feira, 5 de setembro de 2025

SEM ANISTIA PARA GOLPISTAS -- BOLSONARO et caterva NO BANCO DOS RÉUS.


Soldados tomam o Eixo Monumental em Brasília. Ilustração da demonstração de força por parte dos militares e o imediatismo do dia 1 de abril de 1964. Fonte: Arquivo Público do Distrito Federal.


SEM ANISTIA PARA GOLPISTAS!

BOLSONARO et caterva SENTADOS NO BANCO DOS RÉUS


No dia 30 de outubro de 2022 o Brasil e grande parte do mundo esperavam ansiosos pelo resultado que sairia das urnas no segundo turno das eleições para presidente. Não por acaso, logo após os resultados apontarem a vitória de Lula, se experimentou um sentimento de alívio, em especial naquelas nações democráticas que lidam com as forças da extrema direita em seus territórios: Nossa eleição foi seguida minuto a minuto nos gabinetes dos principais líderes globais, que estavam prontos para reconhecer a vitória de Lula, caso ela ocorresse. O papel do Brasil no jogo geopolítico era estratégico… Bolsonaro garantiu o reduto perfeito para a ultradireita num mundo traumatizado com o furacão Donald Trump nos Estados Unidos, o mesmo que hoje, em seu segundo mandato, ataca a soberania de outros países com atos hostis. A estridência do presidente brasileiro manteve o barulho necessário para normalizar as causas conservadoras e reacionárias a partir de um país continental capaz de influir em outras nações”.(1) A política brasileira de enfraquecimento das relações internacionais relegando o papel do país ao de mero coadjuvante estadunidense já vinha se definindo na cauda dos acontecimentos políticos de 2016, quando foi deposta por um golpe jurídico-político-midiático a presidente democraticamente eleita Dilma Roussef. Anunciava-se o fim do antes almejado e crescente papel de protagonismo internacional que vinha se consolidando no país. Em um movimento contrário, o governo ilegítimo do golpista presidente tampão Michel Temer enfraquecia o bloco econômico do Mercosul com a ajuda de sócios” igualmente corruptos no Paraguai e na Argentina.

O golpe de 2016 contra a presidente Dilma Rousseff, o governo tampão ilegítimo de Michel Temer e a eleição arrematada por estratégias do submundo fascista e por fakenews foram fatores que contribuíram para levar Bolsonaro à presidência nas eleições de 2018. Tudo isso sendo arregimentado pelas forças do submundo da mídia corporativa e da espúria elite brasileira egoísta que se agruparam em bloco na construção do projeto de genocídio em curso contra o povo brasileiro. O mal estabelecido só poderia ser estancado com a defenestração de Bolsonaro. Esse mal, como todos os outros a ele concernidos deveriam ter um fim porque é este fim, o objeto de luta de todos que prezam a liberdade e desejam o Brasil de volta ao caminho auspicioso que trilhava, para trazer alegria e prosperidade para seu povo. A solução imediata e inadiável teria sido o impeachment do presidente que instalou o caos social e a barbárie no país mas que não ocorreu por cumplicidade política e a compra de comparsas no parlamento. O passo seguinte e redentor seria seu julgamento em tribunal local e internacional para sua condenação por seus crimes contra o povo brasileiro, a floresta e a humanidade, o que também não ocorreu. A vitória de Lula nas urnas trouxe-nos a esperança da superação da mais difícil fase da história brasileira desde o período da redemocratização do país. No entanto, logo após a vitória veio a tentativa de golpe de Estado capitaneada pelo ex-presidente que nunca admitiu passar a faixa ao vencedor legítimo do último pleito eleitoral, Luis Inácio Lula da Silva. O desastre dessa tentativa de golpe está sendo julgada e em breve teremos seu resultado. O processo desse julgamento, ao contrário do que acontecia no regime ditatorial tão ovacionado pelo atual réu, garante todo o direito cidadão de defesa e de presunção de inocência aos envolvidos. Em vez de práticas de "pau-de-arara" e interrogatórios em porões escuros com variadas formas de tortura para obter confissões, o que se registra são muitas sessões em salas com ar-condicionado, com direito a intervalos para descanso e uma gama de advogados de defesa, seguindo os ritos de uma democracia. As provas são obtidas por investigações legítimas sem negar o contraditório no julgamento e sem ameaças ou castigos físicos sendo imputados aos investigados, como se daria com opositores tivesse o golpe prosperado. Os juízes continuam agindo com o rigor das leis e sob a guarda da constituição, sem ceder às pressões ilegítimas do "imperador" estadunidense a pedido do lesa-pátria, o deputado Eduardo Bolsonaro, que fugiu para os Estados Unidos para, com recursos públicos, conspirar contra a nação. Para testemunhar a lisura do processo e a dimensão absurda dos crimes cometidos pelos acusados da trama golpista basta ler matérias na imprensa, até mesmo em jornais de alcance nacional como "O Estadão", que normalmente não omitem suas posições questionáveis e tendenciosas, jornais que contam as coisas como interessam aos leitores da Faria Lima. Nem mesmo esses veículos de comunicação acostumados a ceder ao poder e tender para o establishment deixaram de reconhecer que seria um absurdo negar a gravidade dos crimes cometidos com o objetivo de substituir o regime democrático por uma ditadura. A história recente é testemunha de que Bolsonaro et caterva merecem as penas que lhes venham a ser imputadas. É, portanto, um absurdo o tal projeto de anistia geral proposto por uma horda de políticos baderneiros/golpistas e antidemocráticos para ser votada no congresso. Como bem afirmou o advogado Marco Aurélio de Carvalho (coordenador do grupo Prerrogativas), “'esse projeto é uma aberração, um verdadeiro tapa na cara da sociedade brasileira e permite que organizações criminosas se blindem até para o cometimento de crimes futuros'. Para ele, a falta de tipificação clara dos delitos funciona como “um convite para delinquir, um salvo-conduto, que oferece blindagem e estímulo para que organizações criminosas continuem atuando na política ou fora dela”.(2)

A seguir, a transcrição do artigo de opinião do Estadão intitulado "Bolsonaro 'et caterva' no banco dos réus":

Por unanimidade, a Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) tornou réus o ex-presidente Jair Bolsonaro e mais sete civis e militares que a ele teriam se associado para cometer, entre outros crimes gravíssimos, uma tentativa de golpe de Estado. A partir de agora, o País terá a chance de assistir à prestação de contas à Justiça daqueles que são acusados de ter cometido o pior ataque ao Estado de Direito no Brasil desde pelo menos 1985, quando a sociedade brasileira, enfim, reconquistou suas liberdades democráticas após 21 anos sob o tacão de uma feroz ditadura militar – a mesma que Bolsonaro louva como se tivesse sido um período áureo da história nacional.

A admissibilidade da denúncia oferecida pela Procuradoria-Geral da República (PGR) contra Bolsonaro et caterva era dada como certa. De tão previsível, o desfecho do julgamento de ontem já vem influenciando as articulações políticas com vistas à eleição de 2026 desde muito antes de o parquet apresentar sua peça acusatória ao STF. E a razão é simples: Bolsonaro jamais escondeu que o respeito aos princípios democráticos lhe provoca urticária. Bolsonaro nunca cogitou transferir o poder pacificamente ao sucessor, chegando a verbalizar, em agosto de 2021, que só via três opções de futuro para si: estar preso, morto ou reeleito presidente da República. Desde ontem, a distância entre ele e o cárcere ficou consideravelmente mais curta.

É um erro, portanto, confundir um resultado amplamente esperado com uma suposta demonstração de “parcialidade” dos julgadores de Bolsonaro e seus corréus – os generais de quatro estrelas Augusto Heleno, Walter Braga Netto e Paulo Sérgio Nogueira, o almirante Almir Garnier, o tenente-coronel Mauro Cesar Cid, o ex-ministro da Justiça Anderson Torres e o deputado federal Alexandre Ramagem (PL-RJ). Na verdade, a certeza de que o ex-presidente passaria à condição de réu diz muito mais sobre a audácia de seus propósitos liberticidas. Relembra à Nação quão desabridos foram seus esforços, ao longo de todo o mandato presidencial, para se manter no poder fosse qual fosse o resultado das urnas.

Se o comportamento de cada um dos oito réus que compõem o “núcleo crucial da organização criminosa”, no dizer da PGR, de fato, contribuiu para a consecução da tentativa de golpe e, assim, estarão configuradas ações ou omissões tipificadas como crime, saberemos ao final da ação penal. O que é possível afirmar, como este jornal já fez não poucas vezes, é que o governo de Jair Bolsonaro foi inspirado do início ao fim por um espírito golpista. A depredação dos pilares democráticos foi um diligente labor entre 2019 e 2022. A bem do País fracassou, mas isso não impede, muito ao contrário, que todos os que eventualmente tenham tomado parte nesse assalto à democracia paguem exemplarmente por seus crimes.

Eis, portanto, a enorme responsabilidade que paira sobre o STF, em particular sobre os ministros integrantes da Primeira Turma. O julgamento dos acusados de atentar com violência contra a ordem constitucional democrática deve ser imaculado do ponto de vista processual. O STF não tem o direito de errar, em primeiro lugar por compromisso inabalável com a “Constituição Cidadã”. Ademais, não pode frustrar as expectativas da esmagadora parcela da sociedade brasileira que acalenta o regime democrático como a melhor forma de governança de uma nação. Como ensina o amargo rescaldo da Operação Lava Jato, a consequência do atropelo do devido processo legal em nome do propósito de colocar os golpistas atrás das grades não só abastardará a mesma democracia que se pretende defender, como ainda levará à impunidade que, mais adiante, pode assanhar protoditadores que se aventurem a governar o Brasil.

Tudo é inédito neste julgamento, que apenas começou. Há militares de alta patente no banco dos réus por sedição. Trata-se da primeira ação penal de grande repercussão sob a égide da Lei de Defesa do Estado Democrático de Direito. No entanto, o STF há de ser previsível; à Corte não é dado nem sequer parecer um tribunal de exceção. Ao fim de um julgamento que decerto capturará as atenções do País, só pode restar aos eventuais condenados o sagrado direito de espernear. 

(Fonte: Opinião - O Estadão: disponível em: <https://www.estadao.com.br/opiniao/bolsonaro-et-caterva-no-banco-dos-reus/?srsltid=AfmBOorgII90DJtaEOo55pD6e8FYhB2oflEm2E-h25eH_fVJT1Q35LHP>)

Antonio C. R. Tupinambá

Fortaleza, 4 de setembro de 2022.


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1) The Intercept Brasil. 9 de novembro de 2022.

2) ICL Notícias. https://iclnoticias.com.br/juristas-criticam-projeto-de-anistia/